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Os vários tons de verde

Elton Vitoriano Ribeiro, SJ

Gosto de contemplar, silenciosamente, os vários tons de verde da natureza. Numa manhã solitária no jardim do meu trabalho, nas longas viagens de ônibus pelo interior do país, na caminhada lenta no parque vizinho a minha casa ou no conjunto de plantas que encontro na floricultura da esquina, amo contemplar os vários tons de verde. O verde das plantas me transmite frescor, equilíbrio e harmonia. Sinto-o como se fosse a cor da saúde, da vitalidade, da liberdade e, sobretudo, da esperança. O verde me convida ao silêncio e me coloca em estado de contemplação.

O filósofo coreano Byung-Chul Han, à sua maneira, também faz um elogio filosófico ao verde no seu livro Louvor à Terra: Uma viagem ao jardim.  Nesse texto o filósofo diz que a necessidade de proximidade com a terra, como forma de escapar do frenesi da vida contemporânea, levou-o a praticar diariamente a jardinagem. O trabalho de jardinagem tornou-se, assim, uma meditação silenciosa da terra como natureza viva e criação divina. Passar o tempo no jardim devolveu-lhe uma devoção piedosa que fazia com que o tempo parasse para, numa contemplação amorosa, demorar-se no silêncio.

Numa sociedade da hipercomunicação como a atual, do constante barulho onde ninguém escuta ninguém, porque todos estão produzindo incessantemente, o silêncio é rejeitado. Por que o silêncio não produz nada, o capitalismo da informação e da compulsão da comunicação, não o ama. No entanto, para mim, o silêncio aguça a atenção para aquilo que está além, que é mais profundo e fundamental. O silêncio, assim, é altamente pacífico, amigável e gratificante. O silêncio nos equilibra.

Ao contemplar, silenciosamente, o verde da natureza, em seus vários tons, não penso na física dos comprimentos de ondas visíveis ao olho humano, nem na gramática dos jogos de linguagem das cores de Wittgenstein. Sinto-me mais próximo da alma bucólica de Claude Monet que, com pinceladas leves e suaves, pintou jardins. Esse mestre do impressionismo, invadido pelos vários tons de verde de um jardim com o lago coberto por glicínias, acompanhava pacientemente a variação do colorido do lugar ao longo do ano. Acompanhava os vários tons de verde que a natureza lhe brindava com a florada de diferentes espécies, colocando-o diante do belo. O belo, que para os filósofos gregos possuía a capacidade de harmonizar a realidade, a sociedade e cada um de nós. O belo, conceito de difícil definição para os contemporâneos, eu o encontro, também, na natureza, nos seus vários tons de verde.

Contemplar os vários tons de verde da natureza, como Byung-Chul Han e Claude Monet, faz de mim uma pessoa melhor, mais paciente, mais equilibrada, mais ecológica, mais simples e mais silenciosa. O verde em seus vários tons, o silêncio, o belo, o equilíbrio, me convocam ao cuidado, amoroso, com a casa comum. Talvez seja por isso que Byung-Chul Han, num exagero metafórico afirma que aprendeu, cultivando seu jardim, que: “a biologia é, em última instância, uma teologia, um ensinamento sobre Deus” (Louvor à Terra: Uma viagem ao jardim). Aquele que, pacientemente, passa um tempo contemplando a natureza, contemplando os vários tons de verde, possivelmente, em algum momento, se perguntará sobre Deus. Talvez até exclame como São Francisco de Assis: “Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras” (Laudato Sí). Deus, belo, silêncio, contemplação, natureza, ecologia … – tantos percursos, como tantos são os tons de verde.

Elton Vitoriano Ribeiro, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia e reitor da FAJE

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