Para descansar com Lalande

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Marília Murta de Almeida

O mundo anda difícil. Parece que a tristeza e a desesperança têm tomado muito espaço de quem era acostumado a sonhar com um mundo feito de fraternidade. A tristeza, a dificuldade e a desesperança que avançam dentro de nós geram cansaço. Para descansar, precisamos de um pouco de nada. Como estar sentado diante do horizonte aberto que só o mar nos oferece. Como fechar os olhos e ouvir uma canção em língua desconhecida. Como se deixar levar pelos pequenos afazeres que só nos exigem dedicação.

Como ler a poesia do encantado Manoel de Barros. Não é para encantar nada. É apenar para descansar no nada das coisas desúteis. O poeta preferiu inventar a palavra desútil do que usar a já existente inútil. Talvez porque inútil nos remeta imediatamente à necessidade de mudar e tornar-se útil. Ser inútil é um defeito. Ser desútil é a qualidade que pode nos ensinar o descanso do nada. No Livro sobre nada, o autor logo nos adverte de que o que deseja é só isso mesmo, falar sobre nada, fazer brinquedos com as palavras, brincar de falar.

A criança quando brinca está de algum modo – desconhecido para ela e para nós – se preparando para quando não puder mais brincar. A brincadeira momentaneamente inconsequente vai criando raízes e sentidos na interioridade em desenvolvimento. O adulto quando brinca não se prepara para nada. Só descansa. O poeta talvez me recriminasse: não, até o descanso já é uma utilidade e assim as coisas deixariam de ser desúteis. Mas eu descanso nas coisas desúteis e queria também fazer descansar quem por acaso ou ventura atravessar os olhos neste texto.

Manoel de Barros diz que brincava na infância de fazer brinquedos de palavras, como: “O olho do gafanhoto é sem princípios” ou “De noite o silêncio estica os lírios”. Seria inútil procurar interpretar e fazer brotar sentido das coisas desúteis. Brinquemos apenas. Como também fazia a Joana, personagem de Clarice Lispector em Perto do coração selvagem.

Joana um dia contou ao homem em quem se abrigava, e cujas primeiras palavras que dirigiu a ela tinham sido: “quer descansar?”, que quando criança podia brincar uma tarde inteira com uma palavra. E que inventava brinquedos de palavras em uma língua nova também inventada chamada Lalande. E brincava de Lalande: “Ouvi um dia uma flor cantando e tranquilamente me alegrei”. E também: “Amêndoas… o mistério e a doçura das palavras: amêndoa…”. O homem a ouvia e queria ouvir mais, e pedia que ela explicasse outra vez o que era Lalande.

Ela explicava que Lalande era uma coisa a se sentir e conhecer: “Toda vez que eu disser: Lalande, você deve sentir a vibração fresca e salgada do mar, deve andar ao longo da praia ainda escurecida, devagar, nu. Em breve você sentirá Lalande… Pode crer em mim, eu sou uma das pessoas que mais conhecem o mar”. Conhecendo o mar, Joana sentia Lalande e brincava, como quando era criança e recitava poesias inventadas para o pai: “As galinhas que estão no quintal já comeram duas minhocas mas eu não vi”. Inventava despropósitos, diria Manoel.

O mundo continua difícil. Mas se brincarmos de nada com as palavras diante do mar ainda escurecido podemos ter a chance de ver outros mundos. No mundo de Manoel, as coisas e os bichinhos todos que só são vistos por quem caminha devagar olhando para a terra e para as folhas das árvores preenchem o olhar e são transformados em brinquedos de palavras. Com eles vem o silêncio e no silêncio que é o sossego do barulho do mundo difícil descansamos e inventamos.

Ver e inventar mundos parece ser uma senda por onde enveredar a consciência humana e assim se fazer mais capaz de agir no mundo difícil. Não porque nos instrumente para isso, mas porque nos esvazia e assim nos torna capazes de ver invisíveis e de criar inexistentes. Se desejamos ser, precisamos antes sonhar o que ser, como Manoel de Barros: “Não serei mais um pobre diabo que sofre de nobrezas. / Só as coisas rasteiras me celestam. / Eu tenho cacoete pra vadio. / As violetas me imensam”.

Manoel quer o rasteiro e a vadiagem da desutilidade. Bem sabemos que os brinquedos de palavras não podem nada contra o mundo difícil que segue em sua lógica própria. O poder deles é de criar os vazios. O Livro sobre nada não se propõe a nada e afirma sua desutilidade. Mas quando o lemos, alguma coisa acontece e no acontecimento que é nada vemos os espaços vazios se abrirem e o sonho brotar nas minúcias que também são nada.

Não há sonho sem vazios. Brincar nos esvazia do mundo difícil para, depois do descanso em que o sonho brota e floresce, retomarmos a briga pelo mundo sonhado.

 

Marília Murta de Almeida é professora e pesquisadora no departamento de Filosofia da FAJE

 

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