Pátria

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Por ti serão abençoadas todas as tribos da terra” (Gn 12,3b)

Geraldo De Mori, SJ

Deus é a referência fundamental que dá sentido radical à existência humana, visto, em grande parte das tradições religiosas como transcendente, ou, como aparece em certos textos das Sagradas Escrituras, como “habitando em luz inacessível, a quem ninguém viu nem pode ver” (1Tm 6,16). A família é a referência fundamental a partir da qual pensar e dizer quem cada pessoa é, de onde procede, sendo indispensável para que alguém possa aceder à humanidade. A pátria, outro termo ao qual muito se tem recorrido nos últimos tempos, remete, na linguagem comum, a país ou nação, embora o termo tenha sua origem associada a “patriota” (= terra paterna), indicando terra natal ou adotada por alguém, a ela ligado por vínculos afetivos, culturais, históricos. O primeiro registro do uso desse termo na história o associa a país, por sua vez originado do latim “pagus” (= aldeia, donde deriva o termo “pagão”). O recurso a esse termo nos últimos anos e, particularmente no Brasil em vários discursos recentes, associados à questão política, tem um teor fortemente ideológico, pois quer advogar para um grupo político um pretenso “patriotismo”, que salvaria o país de supostas ameaças à sua autonomia, trazidas, segundo tais discursos, pelo comunismo e sua bandeira vermelha.

Grande parte dos discursos e notícias que se espalham e “viralizam” nas redes sociais, recorrem também a essa temática porque, queira ou não queira, se “pátria” remete em sua origem a “terra paterna”, isso significa que, quer o sentido radical da existência, quer a própria origem de cada pessoa, em uma família, estariam ameaçados se há qualquer tipo de atentado contra a “pátria”. Os “fantasmas” aos quais se recorre nos discursos que se espalham, não têm nenhuma pretensão de fazer as pessoas refletirem, somente de mostrar-lhes que podem perder o solo onde nasceram e alguns bens essenciais a ele associados, como a liberdade, a moradia, o ir e vir, ou seja, o ser brasileiro. Despertar o medo da perda do que são os bens fundamentais da existência atinge, sobretudo, o afeto. E quando o afeto é atingido, em geral, as pessoas não conseguem mais pensar. Isso tem se dado de modo impressionante no país ultimamente.

Não pensar, eis o que alguns líderes, em geral com tendências autoritárias e ditatoriais, buscam suscitar no povo, com propósitos e exploração de símbolos e gestos que fazem com que seus seguidores simplesmente renunciem a qualquer tipo de questionamento. Trata-se de seguir o líder, o “salvador da pátria”, expressão que, não por acaso, junta um elemento de tipo espiritual e religioso, a salvação, com outro elemento que aponta para o lugar originário ao qual alguém pertence, com seus valores e capacidades de tornar possível a existência. Numa época que, partindo de algo extremamente importante, que é a valorização das diferenças, que deu origem à fragmentação e ao pluralismo, constitutivo das sociedades contemporâneas, o reconhecimento do diferente foi interpretado muitas vezes como renúncia à afirmação de uma pretensa verdade com caráter universal. Esse tipo de percepção está na origem do que alguns intérpretes denominaram de “pós-verdade”, ou seja, não existem verdades universais, tudo passa pela opinião ou por aquilo que os indivíduos diferentes consideram verdade para si. Ora, esse tipo de compreensão do mundo tem levado à disseminação de todo tipo de mentira como sendo uma notícia verdadeira. As assim chamadas “fake News”, são uma das consequências da relativização da verdade. Se a verdade não existe, então por que querer buscá-la, por que discernir entre tantas opiniões e notícias a que de fato corresponde à verdade das coisas? Tanto do ponto de vista humano quanto religioso, viver fora da verdade é extremamente perigoso, pois na realidade, trata-se de deixar que quem tem mais força dite o que é a verdade para todos.

A Bíblia traz dois símbolos para pensar o que é o próprio da “pátria” de cada pessoa: o de Babel, no capítulo 11 de Gênesis, o de Pentecostes, no capítulo 2 de Atos dos Apóstolos. Segundo o primeiro símbolo, após o dilúvio, os filhos de Noé geraram vários povos, que falavam, porém, uma só língua. Contudo, ao quererem chegar a Deus através da arrogância e da pretensão de construir uma cidade que teria torres que os levariam aos céus, morada de Deus, eles começaram a não mais se entender, o que deu origem às diferentes línguas e nações. No segundo símbolo, por sua vez, se encontravam em Jerusalém judeus piedosos de todas as nações da terra. A vinda do Espírito fez com que eles compreendessem na própria língua as maravilhas narradas pelos Apóstolos.

A diferença de nações, que dá origem às experiências diversas do que seja a própria “pátria”, pode ser lugar de confusão e dispersão, quando não de violência, ou de reunião e compreensão, que pode conduzir à comunhão. Quem recebeu o Espírito de Jesus, como aparece em Pentecostes, tem a capacidade de abrir-se ao/à diferente, acolhendo dele/a os “benefícios” que Deus lhe deu naquilo que o/a constitui em sua diferença. Quem se deixa levar pela pretensão de conquista do céu pelas próprias forças, como em Babel, pisa no outro, não o acolhe naquilo que tem como dom recebido na própria diferença. Do ponto de vista de um povo ou raça, isso se expressa de muitas formas. Algo parecido acontece com a diferença dos sexos ou com as diferenças sociais.

Todos os ditadores, que no fundo são movidos pelo espírito de Babel, reivindicam-se como “salvadores da pátria”, explorando seus símbolos principais, como a bandeira, o hino nacional ou outros símbolos que movem o afeto. Todos demandam de seus seguidores obediência cega e difundem discursos falaciosos e ideológicos, que impedem a pessoa a pensar. É difícil conviver com o diferente? Certamente. É difícil negociar com o oponente? Certamente também. Porém, a diferença é constitutiva da humanidade e pode dar origem a coisas novas, pode levar ao enriquecimento mútuo.

Para quem é seguidor de Jesus de Nazaré, morto pela violência fanática de uma religião que se fechou à busca da verdade e de um sistema político que “lavou as mãos” e fechou os olhos diante da injustiça feita contra o inocente, aderir sem pensar a discursos falaciosos, ideológicos, populistas, que se apresentam como “salvação da pátria” e de seus bons costumes, é, no fundo, renegar a própria fé. São Pedro, no discurso que fez no dia de Pentecostes aos que condenaram e mataram Jesus, chamou-os a “salvar-se dessa geração perversa” (At 2,40). Mais do que nunca o que está em jogo nas eleições desse ano no Brasil é não se deixar levar pelos discursos de ódio e de mentira de uma “geração perversa” que engana e cega o povo, conduzindo o país para caminhos que poderão revelar-se terríveis, pois, como têm mostrado os últimos anos, leva à morte dos mais vulneráveis, entrega uma rica natureza a interesses espúrios, que beneficiam somente quem tem poder e dinheiro, constroem uma nova Babel, que leva cada vez mais à divisão e à violência, podendo dar origem a guerras fratricidas no seio mesmo da “pátria” que dizem querer salvar, mas que na verdade estão vendendo e dilapidando, inclusive pelo envenenamento dos valores mais sagrados de um povo que, apesar de tantos sofrimentos, tem em si a energia que quer o bem e a justiça para todos.

Geraldo De Mori SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE