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“Por uma Igreja sinodal”: sonhar juntos, caminhar juntos

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Francisco das Chagas Albuquerque, SJ

Temos acompanhado, sobretudo nos últimos dez anos, com o pontificado do Papa Francisco, um importante movimento de retomada do espírito de renovação, atualização e conversão eclesial desencadeado pelo Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965). Trata-se da busca da sinodalidade. Denominamos sinodalidade a condição de a Igreja ser e se organizar no exercício da sua missão de evangelizar através do processo de comunhão e participação efetivas. O Sínodo, ora em curso, pretende ser um marco decisivo para recuperar, na vida eclesial, essa condição fundamental de sua natureza como comunidade de batizados discípulos e discipulas de Jesus. A resposta positiva ao chamado para participar do processo sinodal implica entrar numa dinâmica de conversão e dispor-se a sonhar juntos e caminhar juntos.

Existe uma canção da música popular brasileira que, em um de seus versos, diz: “sonho que se sonha junto é realidade”; em um canto entoado em comunidades eclesiais, canta-se: “… sonho que se sonha junto é sinal de solução. Então vamos companheiros sonhar ligeiro, sonhar em mutirão”. A ideia de sonho está ligada à de utopia, que, por sua vez, é nutrida por um desejo de alcançar uma meta na vida pessoal ou comunitária, seja no campo eclesial ou da sociedade. Neste mesmo sentido, a noção de sonho nos remete a um despertar e ter esperança diante de situações reais da vida que precisam ser enfrentadas, como compromisso na busca de soluções para os problemas, na medida do possível. Em algumas situações, os termos sonho e utopia soam como algo fantasioso, ilusório ou com outras conotações negativas. No entanto, tomamos esses vocábulos no sentido realista, positivo, assentado nas virtudes teologais: fé, esperança e caridade, como indicado pelas palavras poéticas supracitadas.

Nessa linha de compreensão, queremos destacar a urgência de se “sonhar juntos”, considerando as duas propostas apresentadas para a Igreja, no primeiro momento, mas que extrapolam o âmbito religioso eclesial dado sua importância para a existência humana como um todo. Trata-se de lembrar, de modo sintético, a importância das orientações para a evangelização na Amazônia e do grande projeto que está se desenvolvendo, em vista de sermos verdadeiramente uma “Igreja sinodal em missão”.

Na Exortação Apostólica pós-sinodal Querida Amazônia, o Papa Francisco propõe quatro sonhos: o Sonho Social visando à luta pelos direitos dos pobres, dos povos nativos e a promoção de sua dignidade. O Sonho Cultural cujo objetivo é a preservação da variada riqueza cultural. O Sonho Ecológico como apelo para se cuidar das belezas naturais da Amazônia. O Sonho Eclesial como chamado às comunidades cristãs evangelizadoras para que se dediquem e se encarnem na Amazônia, para que a Igreja tenha rostos novos com traços autóctones.  São contemplados quatro aspectos vitais para que a existência humana e seus valores, bem como as demais formas de vida, no território amazônico, sejam verdadeiramente cuidadas e se promova o bem comum.

A evangelização nessa imensa área geográfica plurinacional, integrando as diferentes dimensões nomeadas nos sonhos, requer a participação de pessoas dispostas a se inculturarem e a sonharem junto com os interlocutores da evangelização. Missionários e missionárias deverão ter a capacidade de sintonizar o sonho comum dos nativos que sofrem em busca do “novo céu” e da “nova terra”, anseio de todo autêntico cristão.

A experiência do Sínodo da Amazônia já incluía o projeto de sinodalidade e apontava para o Sínodo que ora se desenvolve tendo como tema: Por uma Igreja Sinodal: comunhão, participação e missão (2021-2024). Trata-se de um chamado a toda a Igreja para que reassuma o espírito  próprio de sua natureza como povo de Deus, sinal da salvação que Cristo trouxe no mundo, para todo homem e toda mulher. O que a constitui, de mais original, em sua existência como comunidade de discípulos(as) missionários(as) de Cristo, é o “caminhar juntos”, tornando realidade os sonhos de fraternidade, de cuidado da vida de toda a criação e de humanização.

No processo de ser Igreja sinodal, cada um de nós e cada grupo ou comunidade, nos diferentes níveis da organização eclesial, assume o papel que lhe cabe. Na força do Espírito Santo, se concretizará o sonho do caminhar juntos à medida em que as práticas eclesiais sejam expressão da comunhão e da participação de todos os membros do povo de Deus que vive e realiza a missão que lhe foi confiada.

Diante da convocação para que a Igreja tenha um rosto amazônico e se torne ela sinodal, recuperando seu jeito original de ser Igreja missionária, não resta outra opção para os que queremos viver a graça batismal, em Igreja. Trata-se de abraçar com serenidade e firmeza o seguimento de Jesus, como discípulos missionários e missionárias: sonhar juntos e caminhar juntos como irmãs e irmãos. Realmente, ele nos escolheu e enviou: “para irdes e produzirdes frutos, a fim de que vosso fruto permaneça’ (Jo15,16).

 

Francisco das Chagas de Albuquerque, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

Foto: Vatican News

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