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Quando a voz da tua saudação se fez ouvir

Alfredo Sampaio Costa SJ

Podemos aprofundar o significado da escuta com a ajuda de um precioso livro de José García de Castro: “La voz de tu saludo”. Acompañar, conversar, discernir. Maliaño: Sal Terrae 2019. Partilho com vocês as minhas anotações feitas a partir das minhas reflexões.

No Prólogo do livro, escrito por Javier Melloni, é realçada a primazia e a força da Palavra, como João escreveu: “No Princípio era o Verbo. O Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Tudo se fez por meio dele e, sem Ele, não existiria nada do que existe” (Jo 1,1-3).

Ah, se tomássemos a sério esse versículo! Comenta Javier Melloni: “A Palavra sagrada contém essa ressonância primigênia como origem e como meta. Quando essa Palavra é pronunciada e nossos ouvidos são capazes de escutá-la, somos recriados por ela, porque nos faz voltar às origens, ao mesmo tempo que nos relança na direção da meta. A Palavra sagrada contém esse duplo movimento de saída e retorno. E, no seu caminho, abre, atravessa, transforma. A Palavra que vinha de longe se aproxima e cada vez mais se faz íntima a nós mesmos para nos configurar a partir de dentro”. E, numa frase brilhante ele conclui: “Necessitamos estar perto de palavras autênticas que nos regenerem. Nossas vidas estão chamadas a emitir palavras sagradas!” .

Minha mente se enche de pessoas quando leio esta frase. Como necessitamos estar perto destas pessoas. E sermos estas pessoas para os demais!

“A voz de tua saudação”

José García de Castro nos convida a contemplar a magnífica cena do encontro entre Maria e Isabel (Lc 1, 39-56) e acompanhar todo o movimento causado pela saudação de Maria! Ele partilha conosco: “Essa expressão do texto de Lucas me marcou sempre. Assim que escutei a voz da tua saudação, a criança saltou de alegria em meu seio”. Somos mais de 7 bilhões de pessoas com quem compartilhamos este planeta. Mas não há duas vozes iguais. A voz nos dá identidade, é parte de nossa genética, de nosso ser, como a cor dos olhos, nosso modo de caminhar, nossa impressão digital ou nossa caligrafia. Pela voz nos reconhecemos e identificamos. Pela voz, como pelo olhar, mostramos a alma, refletimos nossas alegrias, sucessos, fracassos e tristezas, como quando somos surpreendidos ao alguém dizer: “Notei pela tua voz!”.

Basta uma voz para evocar toda uma história, para ativar a memória e então viajarmos repentinamente ao passado e despertar um sentimento ou uma emoção profunda que acreditávamos estar adormecida ou silenciada para sempre. E tudo acontece com uma palavra, com o som de uma voz, como quando Madalena reconhece o Senhor pelo timbre da sua voz chamando pelo seu nome: “Maria!” (Jo 20,16).

Se olhamos para nossa vida, há vozes que nos encheram de ilusão e de vida e outras, pelo contrário, que nos provocaram pequenas ou grandes mortes. Há vozes que desejaríamos escutar mais vezes e que as conservamos como um tesouro inestimável em nossas recordações. Outras, em troca, desejaríamos poder apagá-las para sempre de nossa memória. Identifiquemo-las!

Gostaria de convidar cada um a considerar algo tão simples e habitual como o valor das palavras na nossa vida. Em um mundo tão universal e radicalmente aberto à comunicação como o nosso, pela força das palavras podemos evangelizar e cristianizar nossa vida. Estou convencido de que as palavras, o tempo e o amor são as três estruturas mais arrebatadoramente humanas.

A cada uma delas se associa um dos termos que escolhemos: Escutar (as palavras) – Acompanhar (no tempo) – Amar (amando).

Escutar maravilhados o que nos é comunicado 

Para podermos mergulhar ainda mais fundo na experiência do que significa o “escutar”, temos que nos dar conta de algo que está na base da escuta autêntica, a saber: a capacidade que todos temos de nos comunicarmos!

 

Comunicar-se: milagre e maravilha 

“Levaram tudo de nós e nos deixaram tudo… deixaram-nos as palavras” (Pablo Neruda, “Confieso que he vivido”)

Cada vez mais vivemos em um mundo comunicativo por excelência. Não podemos jamais desmerecer a importância do fato que podemos comunicar a outra pessoa quem somos e o que sentimos. José García de Castro apresenta uma interessante reflexão sobre como devemos nos relacionar com nosso mundo: “O mundo em que habitamos é um “tu” reverente, em permanente conversação. Por si mesmo, é um locus conversationis, um lugar habitado pela sua Palavra. Como seres humanos, somos e estamos em comunicação permanente, através de nossos gestos, postura corporal, olhar, modo de vestir, expressão facial, com nosso silêncio e, sobretudo, com nossa voz; voz que, por sua vez, comunica com seu volume, timbre, intensidade ou mesmo nos seus balbucios e titubeios. Tudo em nós é permanente comunicação.”

Ainda que muitas vezes não o pretendamos, já nossa própria presença por si mesma transmite uma mensagem. Poderá ser interpretada como ato comunicativo positivo ou negativo, dependendo de nossa maneira de estar presentes e da capacidade observadora e interpretativa de quem nos está observando.

Nossa própria estrutura psicossomática está desenhada para nos comunicarmos com o mundo, com todos os elementos que fazem parte do nosso entorno. Somos seres que vemos, ouvimos, tocamos, cheiramos, saboreamos, entendemos, refletimos, criticamos, avaliamos, falamos, ponderamos, decidimos, escutamos e agimos.

 

Um falar que implica um pronunciar, um escutar e um compreender

Vamos refletir um pouco sobre a linguagem verbal, o meio mais ordinário e estatisticamente mais frequente por meio do qual a comunicação se produz. Todo falar implica um pronunciar, um escutar e um compreender.

  1. Pronunciar e organizar, colocar em ordem: a criação por meio da palavra

Pronunciar bem cada palavra! Isso é tão importante para que o outro me possa compreender. Quantos mal-entendidos e traumas acontecem porque não soubemos expressar bem o que queríamos, ou o fizemos de forma equivocada. O livro do Gênesis se abre majestosamente com a criação por meio do “E Deus disse”. Cada palavra pronunciada é fonte de vida. Quanta vida nos chega por meio de uma palavra bem pronunciada no momento certo!

A cantora Mercedes Sosa se deu conta disso e incluiu a linguagem como uma das grandes coisas que a vida lhe havia dado, na sua famosa canção “Gracias a la vida”: “Obrigada à vida que me tem dado tanto / Me deu o som e o alfabeto/ E com ele as palavras que eu penso e declaro: mãe, amigo, irmão”.

      2. Significar: a roupa da palavra

Não basta pronunciar as palavras para que elas sejam entendidas. Para que se estabeleça uma autêntica comunicação, uma outra arte precisa entrar em jogo: a “semântica”, a parte da linguística que trata do significado, das acepções e conotações que cada palavra assume. Temos que ser capazes de captar o significado que a pessoa que pronunciou quis dar às palavras. Não é tarefa simples: há palavras que são polissêmicas. Outras vezes, as palavras adquirem conotações secundárias… Às vezes são as próprias situações em que nos encontramos que dão significado às palavras.

A necessidade, os contextos (também o cultural, étnico) e as situações podem modificar completamente o significado de expressões utilizadas, enriquecendo-as com novos sentidos e significados. Ao estabelecermos uma conversação, temos que assumir isso com seriedade. Vivemos em um mundo multicultural.

      3. Escutar e entender: acolher a palavra

Não basta escutar, é preciso entender. Isso supõe acolher o que está sendo compartilhado, entregue. Para que a língua seja de verdade um meio para a comunicação, ela precisa de um interlocutor, um receptor competente que conheça esta língua e seja capaz de manejá-la de maneira minimamente inteligível. Se olhamos para a diversidade das pessoas, reconheceremos vários tipos de “competências”. De fato, há quem seja bom em escutar, outro no falar a palavra adequada no momento certo, outro no ser paciente com o ritmo lento do acompanhado, outro em compreender a situação existencial da outra pessoa. Poderíamos seguir multiplicando os exemplos. Você já parou para pensar onde é mais competente e onde é menos e precisa crescer?

Que possamos desenvolver uma escuta ativa, afetiva, compassiva, articuladora de discursos diversos, sem pretensão de esgotar nosso entendimento, mas permanecendo abertos e abertas ao Novo que vem!

Pe. Alfredo Sampaio Costa é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

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