Recolhendo os traços do perfil espiritual de Maria

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Alfredo Sampaio Costa SJ

Recolhendo os traços do perfil espiritual de Maria(1)

Todas as dimensões espirituais que caracterizam a linha mística dos pobres de Javé do AT convergem em Maria e compõem o seu retrato espiritual: Pobreza (Lc 1,48), serviço (LC 1,38-48; Jo 2,5), consciência da própria fragilidade (Lc 1,52), senso de justiça (Lc 1,53), solidariedade com o povo de Deus (Lc 1, 52-55), alegria (Lc 1,28.47), abertura e disponibilidade ao plano divino (Lc 1,38.51); confiança no cumprimento das promessas de Deus fiel e misericordioso (Lc 2,19; 2,51) atestam a profunda religiosidade de Maria em sintonia com a piedade bíblica veterotestamentária.

Atribuindo o Magnificat à Virgem, Lucas quis levantar o véu que cobria os seus sentimentos íntimos e o segredo das suas disposições: Maria espera o Salvador e a manifestação da potência e bondade de Deus na fé, disponibilidade, humildade, gratidão, alegria e esperança. O seu canto é o canto dos pobres, de todo o verdadeiro e espiritual Israel, herdeiro das bênçãos messiânicas. Por meio de várias aproximações (Zc 2,14; Ex 40,34-35; Sof 3,14-17; 4 Esd 9,45).

Maria é apresentada como a Filha de Sião, o resto da comunidade de Israel chegado à perfeição, em grau de acolher a alegria messiânica e de atuar a presença salvífica de Deus na humanidade. Em particular a espiritualidade de Maria é caracterizada por algumas atitudes profundas:

  1. A Virgem pobre:

O termo tapéinosis referido a Maria (“a humildade de sua serva”: Lc 1,48) possui um significado complexo que põe em dificuldade os tradutores. Indicaria uma condição obscura ou ignorada, baixeza, humildade, pobreza, impotência radical, conforme os vários autores. Referindo-se ao uso do termo no NT (At 20,19;Ef 4,2; Cl 2,18; 3,12; 1 Pd 5,5) e ao correspondente anawab do AT (1 Sm 1,11; Ne 9,9; Sl 39; 69; 119), a pobreza atribuída a Maria exprime simultaneamente uma condição social e uma atitude religiosa.

A condição de Maria é pobre, obscura e desprezada. Ela mesma se alinha com as classes mais humildes da sociedade: os pobres, os famintos e os oprimidos (Lc 1,52-53). Pelo resgate do menino Jesus não pode oferecer mais do que um par de rolinhas (Lc 2,24), a oferta dos pobres. A sua pátria, a Galileia, e o seu lugarejo de origem, Nazaré, são motivo de desprezo. O insulto de Natanael: “Pode vir algo de bom de Nazaré?” (Jo 1,46) feria também a ela. Mas o mais profundo da existência da esposa do carpinteiro é tocada pela sua virgindade. O que diante de Deus representava uma consagração de inestimável valor, constituía diante aos seus contemporâneos um motivo de desprezo.

A virgindade aparecia como uma espécie de esterilidade, considerada uma maldição de Deus (Lv 20,21; Gn 1,28; 9.1; Dt 7,13-14). Falando da “baixeza da sua serva”, Maria se refere à humilhante situação de Ana, estéril e desprezada. Na condição de pobreza econômica e de obscuridade, Maria alcança, como os pobres de Javé, uma atitude espiritual de abertura e confiança em Deus (cfr. Sof 2,3; Sl 34, 5-11; Pr 15,33).

A pobreza de Maria é confiança total na onipotência de Deus (Lc 1,49) e plena disposição à sua vontade (Lc 1,38). A Virgem pobre vive de modo radical o não esperar de outros a salvação, para esperar de Deus a realização do seu reino. A pobreza de Maria se torna assim a glorificação da transcendência divina, que escolhe a realidade dos fracos deste mundo para fazer resplandecer a sua potência (cf. 1 Cor 1,26-31); e é ao mesmo tempo a condição indispensável para a acolhida espiritual do Messias.

  1. A Filha de Sião exultante:

 O anjo não lhe dirige a saudação ordinária Shalom (A Paz!), mas o “Alegra-te” (Lc 1,28), que retoma o anúncio da alegria messiânica à Filha de Sião (Sof 3,14-17; Zc 9,9; Lm 4,21). E, de fato, o motivo pelo qual Maria é convidada a se alegrar é messiânico: a presença de Deus no seu seio, o reino de Deus que está para irromper na história na pessoa do Filho, que virá “para consolar todos os aflitos de Sião” (cf. Is 61,2). O convite à alegria dirigido pelo anjo à virgem se traduz em uma explosão de alegria no Magnificat.

Os primeiros versículos deste canto (Lc 1, 46-47) são a expressão de uma alegria transbordante. Eles traduzem o agradecimento festivo da Vigem pela ação divina, o júbilo pela salvação escatológica, a admiração pela manifestação da glória de Deus nela. Ela se alegra não porque ignore os males do mundo. Sabe que existem prepotentes como os Faraós e os opressores da Babilônia.

Alegra-se porque crê em Deus grande e magnífico libertador que opera uma mudança de situação: derruba os poderosos dos seus tronos e cuida dos pobres e oprimidos, manifestando o seu amor e a sua fidelidade à aliança. A sua alegria é em tensão entre o “já” e o “ainda não”: alegra-se pelos sinais já presentes do Reino, mas aguarda a sua plena manifestação.

  1. A Serva do Senhor:

Definindo-se como “a serva do Senhor” (Lc 1,38.48), a Virgem se declara disponível ao plano divino, pronta a colaborar ao seu desígnio. O termo “serviço” designa no AT uma relação incondicional de dependência do Senhor que reivindica um domínio total.

O serviço é uma condição de honra e uma síntese de vida consagrada a Deus. Maria, serva do Senhor, está disposta a entrar plenamente na vontade de Deus e a cumprir a missão que lhe é confiada (Lc 1,38). A atitude operativa da serva do Senhor, que empenha as reservas do seu ser na realização do desígnio divino aparece em seguida no relato da Visitação (Lc 1, 39-56). Maria, cheia do Espírito Santo, obedece à potência do Altíssimo que é essencialmente comunicação, intervenção potente de Deus na História em favor do seu povo (Ex 15,6-13; 9,26-29).

O impulso do Espírito Santo que invadiu Maria a leva a anuncia em antecipação a boa nova do Reino e a pregar a grandeza da obra de Deus à casa de Zacarias. A sua saudação é o veículo dispensador da potência do Espírito e da bênção divina: ela provoca a exultação de João Batista e a efusão do Espírito sobre Isabel. Na viagem da Visitação, Maria vive em antecipação a missão da Igreja, que no Pentecostes receberá o impulso do Espírito para anunciar a boa nova de Cristo por meio da pregação e o testemunho.

  1. Peregrina na fé:

A fé é a virtude que Lucas melhor põe à luz ao traçar a figura de Maria. Ao contrário de Zacarias que duvida, ela acolhe a mensagem do anjo sem reservas e é louvada pela sua fé: “Feliz aquela que acreditou que se cumpririam as palavras do Senhor” (Lc 1,45).

Como Abraão, o Pai dos fiéis, Maria encontra graça diante de Deus, é bendita porque acreditou, espera contra toda esperança a realização das promessas messiânicas. Mas, diferentemente de Abraão, Maria é a primeira cristã, porque o termo da sua fé é Cristo na sua missão salvífica.

A adesão da Virgem ao plano de salvação, que virá se especificando progressivamente, é total: é uma fé-doação que põe todo o próprio ser à disposição do Senhor. Mas dado que o projeto de Deus supera as expectativas dos homens, a fé de Maria deverá percorrer um caminho de reflexão, de atenção aos vários sinais reveladores, de aberta à luz do Espírito, para superar a provisória incompreensão dos eventos e penetrar no significado deles. Assim Maria acolhe as mensagens divinas, mas compreende progressivamente o alcance deles.

É a Virgem que medita, que quer entender antes de comprometer-se e supera o estupor e a não-compreensão mediante uma reflexão longa e prolongada. Como os sábios do AT, Maria medita no próprio coração as palavras e acontecimentos que dizem respeito a Cristo, para compreendê-los e atualiza-los na própria vida. A fé de Maria é submetida continuamente ao cadinho da prova para ser purificada, elevada, verificada na sua autenticidade (Tg 1,3; 1 Pd 1,7).

[1] Cf. Stefano DE FIORES, Maria nella vita secondo lo Spirito, Casale Monferratto: Piemme 1998, pp. 62-63.

 

Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE