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Sinodalidade como antídoto para a confusão pastoral

Pe. Manoel Godoy

Por tudo o que se observa no âmbito pastoral, o que se constata hoje é o que falávamos em tempos idos em que propugnávamos uma pastoral de conjunto. Insistíamos que devia-se evitar a confusão com o termo trocado, ou seja, um conjunto de pastorais. Com todo o respeito para com algumas boas experiências, vê-se que a Igreja perdeu o passo da perspectiva de planejamentos e produções de bons planos de pastoral. Infelizmente, o individualismo que tomou conta da sociedade entrou de cheio no meio dos agentes de pastoral. Talvez, esteja aí um dos obstáculos mais profundos para o desenvolvimento da proposta do Papa Francisco sobre a sinodalidade. Esta supõe a capacidade de reflexão em comum e atuação em comum também.

O modelo do agente de pastoral franco atirador ou personalista impera em todos os âmbitos, provocando uma verdadeira confusão de perspectivas até antagônicas. Ao contrário do que cantamos na belíssima música “Disparada”, de Geraldo Vandré, que dizia constatar as visões se clareando, o que vemos é que nada está muito claro no âmbito pastoral. O grande incentivo que foi dado às iniciativas de novas comunidades de vida ou de aliança só serviu para aumentar ainda mais a confusão. Enquanto a Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) trabalha para que Congregações e Institutos de Religiosos se esforcem para um trabalho conjunto, as novas comunidades se guiam, predominantemente, pelo personalismo de seus fundadores. Apesar de terem pontos em comum, sobretudo na perspectiva da espiritualidade pentecostal, não se articulam entre elas e muito menos se insertam na pastoral de conjunto das Igrejas Locais onde se hospedam.

Outro ponto fortíssimo de desagregação pastoral está nos Meios de Comunicação Católicos, sobretudo os televisivos. Cada qual com sua linha de pensamento e com seus ídolos carismáticos. No geral, apresentam todos eles uma única perspectiva eclesiológica. Com justa exceção, podemos destacar alguns programas da TV Aparecida que destacam o catolicismo popular e mais colado à vida do povo simples e pobre. Grandes eventos da Igreja, que reúnem inúmeras dioceses, são praticamente ignorados pela maioria dos Canais católicos, porque não retratam a Igreja que eles propagam. Exemplo claro são os Encontros Intereclesiais das Comunidades de Base ou congressos de teólogos e cientistas da religião, como os promovidos pela Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (SOTER).

De alguns anos para cá, a situação agravou-se ainda mais com a proliferação de verdadeiros mestres da fé espalhados nas redes sociais. Pode-se, inclusive, questionar o Magistério da Igreja, pois esses novos agentes exercem uma influência infinitamente maior que uma orientação oficial eclesiástica. Nesse contexto, uma fala do Papa ou dos bispos é questionada por qualquer “influencer digital”. Se por um lado, isso revela a possível popularização das questões eclesiásticas, por outro, partindo de influencer organicamente ligado à Igreja, revela que qualquer um se sente abalizado a discordar e até ferozmente criticar a palavra do Magistério. Nesse clima, não há plano de pastoral que resista, pois, apesar dos processos coletivos de produção do texto, muitos agentes não se sentem comprometidos com as diretrizes pastorais das Igrejas Locais.

Confusio quam maxima, diríamos diante de tal caos! Atualmente, apostamos nossas fichas no processo sinodal animado pelo Papa Francisco. Podemos até não chegar à Igreja totalmente sinodal, mas o caminho trilhado terá valido a pena. O aprendizado da escuta, da maior atenção aos sinais dos tempos, do gosto por caminhar juntos poderá abrir perspectivas para uma Igreja mais em comunhão. Sem matar a diversidade, mas com foco na unidade necessária para um empreendimento que será sempre permanente: a recepção do Reino de Deus anunciado por Jesus.

 

Pe. Manoel Godoy é professor no departamento de Teologia da FAJE

 

 

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