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Tempo de decidir, momento decisivo e complexo. Orar a própria situação de eleição

Alfredo Sampaio Costa SJ

Com alívio e esperança, acompanhamos o avanço da vacinação que abre uma nova perspectiva na realidade dura da pandemia. Mas os seus sintomas seguem atuantes. Por mais que tentemos afastar os pensamentos negativos, a verdade é que seguimos afetados pela insegurança e confusão com relação ao que devemos fazer, como prosseguir com nossas atividades nesta situação.

Certamente nesses tempos a oração aparece como muito importante, fundamental, mas é preciso confessar que não é fácil rezar em meio a tanta dor e sofrimento.  Continuamente somos invadidos pela questão insidiosa do que Deus quer com tudo isso, porque permite tantas mortes, e como nós, comunidades de fé, temos que agir (reagir).

Vem em nosso socorro a espiritualidade inaciana, na sua busca ininterrupta de encontrar a Vontade divina na realidade da vida e poder aderir a ela com todo nosso ser (1)Inácio foi um buscador incansável dessa vontade. Nos textos que seguem, vamos refletir como podemos rezar e procurar a vontade do Senhor em meio à pandemia.

Tempo de decidir, momento decisivo e complexo

Algumas considerações me parecem necessárias ao adentrar nesse tema. Inicialmente, precisamos experimentar que nossa oração tem que ser vivida como busca e resposta, que vão teimosamente se sucedendo uma à outra. A atitude de base para poder avançar é “escutar”. A segunda etapa dos Exercícios Espirituais, que se centra na busca do que Deus quer para mim, inaugura-se com o chamado do Rei Eterno (EE 91-100), que já nos abria à consideração de um chamamento feito vida (2). A graça ali pedida era uma graça de escuta (“não sermos surdos ao seu chamado”) em vista de uma decisão (“mas prontos e diligentes para cumprir sua vontade”) (cf. EE 91).

Inácio nos alerta que não se trata de modo algum de uma mera passividade, esperando que a vontade de Deus caia pronta do alto. Ele afirma que será preciso “agir contra nossa própria sensualidade e amor carnal e mundano” (EE 97). Em linguagem atual: que não será fácil, pois nossas resistências se farão sentir!

Temos experimentado nesta pandemia que os dias dedicados a este discernimento sobre qual é a Vontade de Deus para nós podem se prolongar em um processo que pode ser penoso e difícil, até que surja com suficiente claridade no horizonte o que Deus quer de nós. A oração durante esse período será intensa, e não caberá a nós a controlarmos nem a prever. Tomar decisões nessa situação é complexo. Pois decidir implica, inicialmente, querer resolver definitivamente a questão. Ora, encontramo-nos a miúdo em uma zona de incerteza e névoa, uma zona de confusão, e temos medo de assumir uma postura. Mergulhados em um confuso magma de desejos dispersos, sonhos, projetos não concretizados, qualquer decisão que tomemos não nos aparece como conclusiva, capaz de pôr um ponto final na questão. E hesitamos.

PRIMEIRO PASSO: Orar a própria situação e as alternativas que se nos apresentam

O que tomar como matéria para nossa oração? Creio que é preciso rezar a própria vida, como ela se apresenta e se faz sentir. A aproximação à realidade, quanto mais cheia de afeto for, maior efeito trará. Que favoreça um diálogo íntimo com o Senhor e culmine em uma resposta apaixonada de amor. Que nos deixemos atingir, tocar (Inácio usaria “afectar”) pelo que rezamos. Que nossa oração nos desinstale, amplie nossos horizontes e nos motive a poder nos comprometermos com Deus e com os demais, principalmente os mais necessitados (3).

Para rezar esse momento tão crucial, ajuda considerar três coisas: nossa herança biológica-humana-psicológica- cultural, que representa aquilo que recebemos e que não podemos mudar;  em seguida, considerar a área da minha vida em que eu posso exercer alguma escolha, onde as coisas acontecem a mim e eu posso responder a elas, aceitando-as ou rejeitando-as; finalmente, é preciso mover-me na direção do centro do meu ser, onde eu posso estar inteiramente na presença de Deus, onde eu experimento verdadeiramente a presença Dele. Nessa área eu não posso prever nada. É aqui onde se revela o poder da oração. É o risco da jornada interior, ao qual somos chamados a nos abrir (4).

Portanto, importa tomar consciência de que forma estamos sendo tocados por Deus. Isso pode se dar em uma variedade de modos: através de uma intensa comunhão com a natureza, em uma relação humana, em um momento de profundo “insight” que parece provir de além de nós mesmos ou talvez em uma claridade súbita que nos mostra o caminho a seguir em uma situação particular. Quando esses momentos acontecem, podemos dizer que não somente Deus nos “tocou”, mas que algo “fez raiz” na nossa experiência vivida. O Deus transcendente que nos tocou irá despertar o Deus imanente que jaz em nosso interior, trazendo-o à vida.

Esse é o efeito da oração em nós: a oração nos conduz ao centro do nosso ser. A oração não é somente um meio de nos sustentar através da nossa jornada linear (embora ela faça isso também), mas é ela mesma a realidade da nossa jornada. Na oração se revela a verdadeira essência do nosso ser (5). Podemos nos aproximar sem receio do que vamos ali encontrar!

A verdadeira liberdade que temos que buscar para poder tomar uma decisão livre, conforme a Vontade divina, não é um mover-se de um ponto para outro, de um círculo para outro. A verdadeira liberdade interior nos faz movermos ao interno do nosso Eu mais profundo, na presença de Deus, permitindo a nós mergulharmos sempre mais em Deus (6).

(1) Dom Luciano Mendes de Almeida, Servir por Amor. Trinta dias de Exercícios Espirituais. São Paulo: Loyola 2001, 95.

(2) A. M. Chércoles, La oración en los Ejercicios Espirituales de San Ignacio de Loyola, EIDES 49 (2006)18-19.

(3) Cf. Jaime Emilio González Magaña, Orar y encontrar facilmente a Dios, Apuntes Ignacianos 56 (marzo-agosto 2009) 66.

(4) Margaret Silf, Inner Compass. An invitation to Ignatian Spirituality. Chicago: Loyola Press 1999, 1-2.

(5)  Margaret Silf, Inner  Compass, 3-4.

(6) Margaret Silf, Inner Compass, 8.

Pe. Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

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