Geraldo Luiz De Mori, SJ
“Eis o tempo favorável, eis o dia da salvação” (2Cor 6,2)
Num texto de 2008, fruto de um seminário de 2006-2007, Giorgio Agamben se pergunta: “o que significa ser contemporâneo?” Suas considerações são provocativas para se pensar a relação entre teologia e contemporaneidade[1]. Nas várias respostas que o filósofo italiano propõe a essa pergunta, ele diz que “é contemporâneo quem não coincide com o próprio tempo”, sendo, por isso mesmo, “inatual”, mas ao mesmo tempo “capaz, mais do que os outros, de perceber e apreender o seu tempo”. Essa “discronia”, continua ele, não significa que “contemporâneo seja aquele que vive num outro tempo”. Trata-se, na verdade, de viver uma relação singular com o próprio tempo, que faz aderir a ele e dele tomar distâncias, fixando nele o olhar. O que vê quem vê o próprio tempo?
Antes de responder a essa pergunta, o filósofo italiano propõe outra definição de contemporâneo. Segundo ele, é contemporâneo quem “mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro”, ou seja “quem sabe ver essa obscuridade e escreve mergulhando a pena nas trevas do presente”. Mas, “o que significa ver as trevas?”, se pergunta ainda Agamben. Sua resposta recorre primeiro à neurofisiologia, para a qual o “escuro não é a simples ausência da luz”, mas o “resultado da atividade das off-cells”. Nesse sentido, perceber o escuro é uma atividade e uma habilidade, que equivalem a “neutralizar as luzes que provêm da época para descobrir as suas trevas, o seu escuro especial”, que, contudo, não é “separável daquelas luzes”. Por que as trevas que provêm da época interessam a quem é contemporâneo? Porque elas lhe mostram o “escuro do seu tempo como algo que lhe concerne e não cessa de interpelá-lo”. Outra resposta à pergunta sobre o significado das trevas, vinda da astrofísica, afirma que o escuro do céu corresponde “à distância que não se pode ver da luz das galáxias mais longínquas”. Por isso, ser contemporâneo é uma “questão de coragem”, que torna alguém capaz de manter fixo o olhar no escuro da época, e perceber nesse escuro uma luz que lhe é dirigida, mas se distancia infinitamente dele.
Esse olhar o escuro do próprio tempo leva à sua divisão, introduzindo nele “uma cesura e uma descontinuidade, através da qual, o contemporâneo põe em ação uma relação especial entre os tempos”. Por isso, ser contemporâneo não é só perceber o escuro do presente e nele apreender uma luz, mas dividir e interpelar o tempo, transformando-o e colocando-o em relação com os outros tempos, para dessa forma nele ler de modo “inédito a história”. É como se aquela invisível luz, que é o escuro do presente, projetasse a sua sombra sobre o passado, o qual, ao ser tocado por esse facho de sombra, adquire a capacidade de oferecer respostas pertinentes às trevas do agora.
Sob muitos pontos de vista, a reflexão de Agamben se assemelha à autoconsciência que a teologia católica tem de si a partir do Concílio Vaticano II. De fato, João XXIII, na cerimônia de abertura do maior evento católico do século XX, afirmou que, mais que definir novos dogmas ou condenar quem não está de acordo com os dogmas já estabelecidos, a tarefa do Concílio era a de um “aggiornamento”, ou seja, de uma atualização. O “depósito da fé”, dizia ele, era riquíssimo, importava relê-lo, oferecer sua luz para a contemporaneidade, que alguns anos depois, na Constituição pastoral Gaudium et spes é descrita como sendo marcada por “alegrias e esperanças”, “tristezas e angústias” (GS 1). Essas afirmações do Papa e do Concílio coincidem, em parte, com as do filósofo italiano, embora numa inversão epistêmica, uma vez que a fé, como a teologia, mais que o facho de sombras lançado pelo presente sobre o passado, pedindo-lhe que ele lhe ofereça respostas para as trevas do agora, é o dom de um passado que se oferece ao presente como um hoje e um “agora” de luz e de sentido em meio às suas sombras. Além disso, não só as sombras do presente pedem a luz do passado, pois o presente é ele mesmo feito de “alegrias e esperanças, tristezas e angústias”, ou seja, a teologia não só deve revelar as sombras do presente, mas também descobrir suas luzes.
O caminho teológico que o Concílio Vaticano II propôs para captar e interpretar a contemporaneidade foi pensado à luz da categoria “sinais dos tempos”. Esses sinais são de vários tipos. Na teologia feita desde então, vários desses sinais referem-se às dimensões a partir das quais se organizam as sociedades: econômica, política, social, cultural, religiosa, ecológica, tecnológica. Alguns são localizados e dizem respeito a um lugar específico, próprio de um país ou continente, ou de regiões específicas. Outros são tidos como transversais, classificados muitas vezes como sistêmicos. Nas últimas semanas, com a guerra desencadeada por Israel e USA contra o Irã, muitos de seus intérpretes falam do fim de uma época, a inaugurada após a Segunda Guerra Mundial. Esse tipo de leitura, como mostra Agamben em seu texto, busca desentranhar o que de mais sombrio emerge da contemporaneidade. Com efeito, o conflito desencadeado não é somente mais um episódio da desregulação de tantos consensos surgidos no pós-Guerra, mas a sombra que pode introduzir a humanidade numa era de tantas incertezas, que será difícil enxergar nela alguma luz. A teologia não se contenta certamente em identificar a sombra, pois ela é discurso crente, feito para dar as razões da esperança. Por isso, a pergunta que lhe é dirigida pela contemporaneidade é: o que ela deve dizer?
A primeira palavra da teologia em tempos de desconstrução dos principais mecanismos que regulam a coexistência internacional entre nações é, sem dúvida, a do apelo ao diálogo. Esse apelo seria a luz em meio às sombras, e nem sempre ele pode ser escutado, pois o ruído das bombas e a guerra de narrativas muitas vezes impede que seja escutado. O recurso à força, das bombas, mísseis e drones, que destroem vidas, infraestruturas, esperanças, parece ser a lógica que tem predominado não só nesse conflito, mas em todos os outros que continuam ensombrecendo a contemporaneidade. Os reiterados apelos ao diálogo que promove a paz, feitos pelo Papa Leão XIV, parecem, até o momento, ineficazes. É o que atestam, entre outros, os 20 líderes cristãos que se reuniram no Salão Oval da Casa Branca no dia 5 de março para orar pelo mandatário do país e pelas Forças Armadas, pedindo “sabedoria do céu” e proteção durante as tensões militares no Irã. Que sabedoria do céu é esta que se coloca ao serviço de quem promove a guerra? Quando a religião é manipulada ao serviço dos poderosos, se ela se diz cristã, é porque esqueceu que seu Senhor proclama bem-aventurados os que promovem a paz!
Além de oferecer pistas para manter os contendores abertos ao diálogo, de insistir no apelo à paz, além de denunciar toda manipulação do nome de Deus e da religião, o papel da teologia em tempos sombrios é o de alimentar a esperança. Mas que esperança é possível num mundo que, na forma como se organizou nos últimos 80 anos, está ruindo? Segundo o apelo feito pelo autor da primeira carta de Pedro, toda pessoa que professa a fé cristã deve sempre estar pronta para dar as razões da própria esperança a quem lhe pede (1Pd 3,15). Esse apelo é a tarefa mesma da teologia. Num mundo que desmorona, ela tem que ser uma esperança “teimosa”, que descobre entre os escombros das sombras do mundo que rui, frestas de luz que asseguram o esperançar.
[1] Agamben, G. O que é o contemporâneo e outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009.
Geraldo Luiz De Mori é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE
19/03/2026

Imagem: Shutterstock