Marília Murta de Almeida
Ouvi do Mestre Ciel, tecelão da Chapada do Araripe, no sertão cearense, que seu modo de tecer não tem mais trama nem urdidura. Um tecido comum se compõe por meio de fios que são entrelaçados em outros fios que já estão fixos no tear. Os fios fixos, colocados pelo tecelão no início do trabalho, formam a urdidura. A trama é formada pelos novos fios que se entrelaçam no movimento do tear, colocados de modos variados de acordo com o que se quer tecer. O tecido é, portanto, um todo formado pela trama e pela urdidura. ´
Ainda que seja difícil para quem não conhece bem a tecelagem imaginar o que seria esse modo de tecer em que já não existiria mais trama nem urdidura, a frase do mestre ficou ecoando e me forçando a tomá-la como metáfora para seguir pensando. Em meio a paisagens diversas do estado em que residem minhas origens ancestrais, imaginei a vida como um grande tecido moldado pelo tempo. Ou antes, um tecido que é o próprio tempo, como disse Antonio Candido: “Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida”.
Poderíamos pensar que nesse tecido feito de tempo que é a nossa própria vida – a vida de cada um, mas também as vidas todas que se entrelaçam formando um tecido maior – o passado é a urdidura, no sentido de que contém aquilo que já está dado, e a trama é o que fazemos no curso do presente em que nos movimentamos; o tecido completo é o futuro que só estará completo ao fim da vida. O que já está dado é o que já aconteceu a cada momento, e isso inclui as determinantes que limitam nossos movimentos.
Entretanto, a frase do mestre tecelão quer mexer nessa imagem. Sem trama nem urdidura, devemos imaginar um tecido que se compõe em liberdade. Deste modo, as tais determinações são maleáveis e se percebem de modos diversos. Se a vida humana se constrói por meio da consciência em que traçamos compreensões e experiências fragmentárias do que somos; e se essa consciência é desdobrável no sentido de que o que foi tomado como dado frequentemente se mostra já produto do que imaginamos, a metáfora vai ganhando vida.
O tempo próprio, tecido de nossas vidas, vai se fazendo na abertura do presente sem que haja rigidez naquilo que já está dado a cada instante. A história se reconstrói e se reconta sempre, individual e coletivamente. O passado é móvel, e essa maleabilidade parece ser condição para a abertura plena do futuro.
Já perto do mar, com as ideias do sertão me povoando, estive em casas de parentes e encontrei uma foto da minha família que não conhecia. Eu no colo do meu pai, minha irmã e meus irmãos em volta. Único registro dos cinco irmãos juntos. Nenhum de nós nunca tinha visto aquela foto. Todos nós agora já beirando a última fase da vida, tendo perdido o pai muito cedo, e uma imagem surge com o poder de refazer histórias. Senão de refazer memórias, pelo menos de alertar para que não façamos de nossas memórias, pedras inultrapassáveis. Numa paisagem familiar do interior de Minas, estivemos um dia todos juntos com nosso pai, brincando e pisando descalços as grandes pedras do local.
Desfazer a rigidez da memória é ser forçado a pensar no tecido da vida sem urdidura. Sem urdidura não há também trama, ou seja, não nos movimentamos sobre um fundo fixo. O que já está dado também se tece na hora mesma da vida agora. O tecido vai se fazendo numa unidade em que o que vemos é o entrelaçamento de fios que provêm de direções diversas. Memória e futuro se entrelaçam com maleabilidade.
A frase citada de Antonio Candido continua: “Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando”. Nossa vida se tece nesse minuto agora, estendido na dimensão plena necessária para uma tessitura. Chegamos assim a uma espécie de definição: viver é tecer agora, a cada instante. Tecemos no tempo com as condições que temos.
As condições que concretamente tenho a cada minuto em que teço e sou tecida são aquelas que consigo experimentar. Não são realidades duras inalteráveis, ainda que contenham pedras. Mesmo nunca nos esquecendo da pedra no meio do caminho, citando livremente os versos eternos de Drummond, podemos imaginar que as pedras do passado são contornáveis em seus contextos tanto quanto as que vemos agora. Sem trama nem urdidura, a vida se tece no minuto que está passando, fazendo entrelaçar o que já fomos com o que nos fazemos.
E aqui a metáfora do tecelão encontra seu limite, pois a pergunta sobre quem é o sujeito da tessitura emerge incógnita. Se para o tecido concreto não há dúvidas sobre quem é o sujeito tecelão, em relação ao tecido de nossas vidas a resposta comporta abertura para que a reflexão prossiga a respeito da medida em que cada um de nós tece ou é tecido.
Na mística da Chapada do Araripe a figura do Padre Cícero abençoa a todos. No entorno da sua estátua há uma trilha em que caminhantes chegam à pequena capela em que ele rezava carregando uma pedra que simboliza as dores que se deseja transfigurar. As árvores cheias de pedras deixadas pelos caminhantes mostram a face da fé do povo que quer tecer a própria vida e ser tecido por uma bondade capaz de ajudar a transfigurar pedras do passado.
Marília Murta de Almeida é professora e pesquisadora no departamento de Filosofia da FAJE
19/02/2026

Foto: Arquivo da autora