Transfigurar o tempo

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Geraldo De Mori SJ

“Abriu-lhes a inteligência para que compreendessem as Escrituras” (Lc 24, 45)

A cruz e a ressurreição de Jesus introduziram o “fim do mundo” na história do universo. Esta afirmação pode parecer descabida ou pretensiosa, pois, por um lado, a roda do mundo continuou e continua a girar, aparentemente do mesmo modo que antes do acontecido a Jesus de Nazaré; e, por outro lado, como é possível que um único acontecimento, ocorrido a dois mil anos atrás, num lugar insignificante do mundo antigo, possa se tornar o evento que determina o sentido de tudo o que existiu, existe e existirá?

A história da humanidade é feita de muitas culturas, com suas narrativas e seus rituais, alguns muito complexos, que buscam dar sentido à existência de quem os realiza. Segundo vários estudiosos das religiões, o judaísmo e o cristianismo introduziram uma perspectiva muito diversa do lugar e do papel da religião na existência humana e dos povos. Em parte, essa perspectiva tem a ver com a “descoberta” do tempo, muito diferente da centralidade dedicada ao espaço pela maioria das outras práticas e crenças religiosas.

Com efeito, a experiência de Deus, introduzida pela revelação judaica, é a de uma promessa. Segundo Gn 12,1-3, Deus promete a Abraão uma descendência, uma terra e uma bênção, que, passando por ele, será estendida a todas as “famílias da terra”. Desde então o Patriarca dos antigos hebreus viveu em função do futuro, que, apesar de apontar a um lugar, o extrapolava, uma vez que a bênção devia atingir a humanidade inteira. A grande saga da libertação conduzida por Moisés, embora também trazendo em si a perspectiva de uma terra da promessa, onde “correm leite e mel”, não é um bem próprio, mas um sinal de algo maior: testemunhar com a vida a santidade de Deus, para que os outros povos se enchessem de admiração e perguntassem: “quem é o Deus de Israel?” A pretensão davídica de construir uma moradia para Deus é rejeitada por Yahvé, que promete dar a Davi uma descendência que perdurará para sempre. O próprio Deus, a quem o povo é chamado a “amar sobre todas as coisas”, não aceita que o nomeiem ou façam dele qualquer imagem, rejeitando a maioria dos sacrifícios que lhe eram oferecidos no templo, e instando seu povo à prática do direito e da justiça. Sua presença misteriosa e discreta em momentos críticos da história de seu povo, ou sua aparente ausência, como no exílio da época babilônica ou na cruz de Jesus de Nazaré, são o cúmulo do paradoxo.

O tempo de Deus, conhecido na história de seu povo como tempo favorável, kairós, é o horizonte, não espacial, para o qual aponta toda a história de Israel e também a do cristianismo. Nesse horizonte, predomina o futuro, que alimenta uma esperança, necessária para manter viva, no presente, a fé e a caridade. Mas esse futuro é alimentado pela memória, ou seja, pela lembrança maravilhada e agradecida das passagens de Deus na vida do povo, trazendo salvação e libertação, dando sentido à existência. No caso de Jesus, o futuro para o qual aponta o kairós de sua cruz e ressurreição, é feito da memória de como ele passou entre os seus “fazendo o bem, operando milagres, prodígios e sinais” (At 2.22-24). Na perspectiva judaica, o futuro da vinda do messias ainda é objeto de esperança. Para os cristãos, esse futuro já adveio na história, transignificando-a totalmente. Por isso, mais que esperar de novo a vinda do messias, é preciso deixar que a memória de sua passagem possa continuar modificando o presente e o futuro de quem nele acredita. Nesse sentido, a celebração do mistério pascal, central na liturgia cristã, está ao serviço de uma contínua transfiguração do tempo e da história, pessoal e coletiva.

O “tempo pascal”, celebrado na liturgia cristã, é o tempo para deixar que Jesus venha “abrir a inteligência” dos discípulos para compreenderem as Escrituras, mas também para compreenderem o que aconteceu com ele em sua paixão, e o que aconteceu com eles, que covardemente o abandonaram. Muitas vezes a liturgia tornou-se mero rito, que já não realiza o que celebra. Esquece-se que ela é um caminho para transfigurar o tempo de quem a celebra. E isso se dá como “abertura da Inteligência” para compreender. De fato, quem se diz hoje seguidor de Jesus de Nazaré, o Crucificado-Ressuscitado, deve deixar que o Senhor venha abrir-lhe a inteligência para compreender o que se passa em seu mundo pessoal, mas também na sociedade em que vive. O que a morte de quase 400 mil pessoas, provocada pela pandemia da Covid-19, revela de nosso modo de viver o tempo? A morte de Jesus desencadeou em seus discípulos um caminho que modificou completamente suas vidas e a de tantas pessoas a quem, desde então, eles testemunharam sua fé. Será que nesse tempo pascal o sofrimento e a morte de tanta gente, talvez “antes do tempo”, ainda nos afeta, ou já nos tornamos indiferentes à dor e ao sofrimento do outro? Não deveríamos, de novo, deixar que o Ressuscitado abra nossa inteligência para compreender por que somos tão cegos e insensíveis, modificando nosso olhar e coração como fez com seus discípulos, para que, com nosso testemunho transfiguremos.

 

Geraldo Luiz De Mori é jesuíta, doutor em Teologia e professor da FAJE