Um olhar teológico inaciano sobre o mundo

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Geraldo De Mori SJ

Ver novas todas as coisas em Cristo

A Igreja católica comemora no dia 31 de julho a memória de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus. Neste ano, os jesuítas e muitos homens e mulheres inspirados pela espiritualidade do criador dos Exercícios Espirituais, possuem um motivo muito especial para celebrar a festa de seu santo padroeiro: os 500 anos da “ferida de Pamplona”. Este episódio, ocorrido no dia 20 de maio de 1521, está na origem do processo de conversão de Iñigo de Loyola, até então soldado das forças do rei de Espanha e, doravante, peregrino da busca de um Deus a quem queria prestar o maior louvor e a maior glória, mas a quem igualmente queria oferecer-se para o maior serviço.

De muitas maneiras o “ano inaciano”, inaugurado em 20/05/2021 e previsto para terminar em 31/07/2022, trará a figura de Inácio de Loyola para o centro das atenções nas obras apostólicas confiadas aos jesuítas ou naquelas que são assumidas por pessoas que vivem de sua espiritualidade. Contudo, o fundador da Companhia de Jesus nunca quis atrair a atenção para si ou para uma obra ou iniciativa tida como sua. De fato, a ordem religiosa que ele ajudou a fundar, com os companheiros de Paris, recebeu o nome de “Sociedade de “Jesus”, e os que a compõem não trazem o distintivo de “inacianos”, mas de “jesuítas”, ou seja, de “amigos no Senhor”, que são “amigos de Jesus”. Embora essa distinção seja importante, não se pode negar que o que Deus realizou no antigo soldado de um “rei temporal”, que se tornou “cavaleiro do Rei Eterno” (EE 91-98), vale a pena ser pensado como parte de um caminho que nele foi fecundo e pode fecundar a muitos/as.

Dentre os elementos de um “legado” de Inácio de Loyola para a Igreja e para o mundo, certamente se destacam sua espiritualidade e a própria ordem que ajudou a criar.  Da primeira, são conhecidos, sobretudo, os Exercícios Espirituais. Por sinal, ele fez de tudo para que fossem reconhecidos pelo Papa, sendo oferecidos em muitas modalidades em casas de “retiros” ou, mais propriamente falando, em casas de “Exercícios”, presentes onde quer que existam jesuítas ou pessoas que beberam nessa fonte da espiritualidade cristã. Nem todos fazem os Exercícios de 30 dias, que é a modalidade completa sistematizada por Inácio. A maioria das pessoas fazem os “Exercícios de 8 dias”, que são um resumo do de 30 dias. Nas últimas décadas se difundiu muito a oferta dos “Exercícios na vida cotidiana”, como também “Exercícios em etapas”, ou modalidades mais simples, de acesso ao grande público, iniciando os que os fazem no método de oração inaciana.

O caminho feito nessa experiência é o das assim chamadas “semanas” (quatro). Elas são precedidas por uma série de exercícios preparatórios, um dos quais, o “Princípio e fundamento”, funciona como pórtico para “entrar nos Exercícios”, e outro, no final, “Contemplação para alcançar amor”, concluem o caminho e reenviam o exercitante à vida. Entre esses dois marcos se situam os exercícios de primeira semana, nos quais quem os faz é confrontado com sua história pessoal, marcada pelo apelo do “Princípio e fundamento”, mas também pelos limites do que a tradição cristã chama de pecado. Os exercícios seguintes, segunda, terceira e quarta semanas, confrontam o exercitante, que “embora pecador, se sente perdoado, amado e chamado”, com Aquele que viveu em plenitude o Princípio e Fundamento, Jesus de Nazaré, o “Rei Eterno”, a quem é chamado a servir no final da primeira semana, através do seguimento, posto no início da segunda. O caminho mistagógico das semanas conduz à eleição ou à reforma de vida e culmina, após seguir Jesus nos mistérios de sua paixão e ressurreição, na Contemplação para alcançar amor, que é a vida inteira transfigurada e capaz de em tudo amar e servir (EE 233).

A experiência espiritual de Inácio, que ele legou a seus companheiros e à Igreja, além de oferecer um caminho para a existência cristã, deu origem à extraordinária iniciativa apostólica que foi a Companhia de Jesus, cuja ação se desdobrou em inúmeras frentes pastorais, não se concentrando apenas em um determinado setor da missão da Igreja. Ela revalorizou uma prática do cristianismo, que é o discernimento espiritual, além de oferecer uma visão do mundo e da existência, que em cada época se traduz de uma maneira. Com efeito, já no final do século XVI e durante todo o século XVII e XVIII, os jesuítas, por causa da visão teológica que brotava dos Exercícios Espirituais, aplicada à teologia da graça e à vida moral dos fiéis, entraram em conflito teológico e pastoral, inicialmente com os dominicanos e depois com os jansenistas. A essas controvérsias se acrescentaram as questões do confronto entre Igreja e Estado, fortes no século XVIII e que levaram a Companhia de Jesus a ser supressa. O que então caracterizava essa visão era a perspectiva mais otimista com relação ao lugar do agir humano no mundo. Santo Agostinho, que é considerado o grande “doutor da graça” na teologia ocidental, tinha uma visão muito pessimista da natureza humana, fortemente ferida pelo pecado original e incapaz, por si mesma, de fazer o bem. Somente a graça podia potencializar o livre arbítrio para que ele realizasse ações boas. No período da Reforma, no século XVI, Lutero voltou a insistir nessa perspectiva, com uma visão ainda mais pessimista, considerando o livre arbítrio quase que inexistente. Somente a ação da graça podia levar o ser humano a realizar alguma ação boa. Por isso, nada que o ser humano fizesse “mereceria” para ele a salvação. A teologia que vai brotar dos jesuítas marcados pela experiência dos Exercícios, é fortemente plasmada pela convicção de que “basta somente tua graça”, como reza a famosa oração de Santo Inácio, presente na Contemplação para alcançar amor (EE 234), mas também insiste na “cooperação” do livre arbítrio potencializado por essa mesma graça.

Mesmo assim, mais que insistir no pecado, que não é, porém, ignorado, a experiência dos Exercícios Espirituais começa, como foi dito acima com relação ao Princípio e Fundamento, com um olhar amplo, no qual é apresentada a vocação do ser humano em termos extremamente positivos, como que reenviando aos dois primeiros capítulos do livro do Gênesis, que apresentam toda a obra divina da criação como boa, e o ser humano como “muito bom”, vivendo em harmonia num jardim, do qual pode usufruir de todos os frutos, sendo-lhe vetado apenas um, que recorda-lhe que é criatura, que não é infinito como Deus, embora seja chamado a tornar-se como ele por participação, como dom de sua divina graça. Os Exercícios e sua visão do mundo e do ser humano não ignoram o mal e o pecado, como o mostram os chamados exercícios da primeira semana, mas querem ajudar quem os faz a “ordenar os afetos”, pois, grande parte da existência é questão de afetos não ordenados. E o caminho para isso é justamente contemplar o Deus-homem Jesus Cristo, em tudo semelhante à humanidade, mas que soube, “pela obediência”, ou seja, pela escuta à vontade do Pai, manter-se fiel a ele pela fé, inaugurando assim um caminho novo e vivo. E essa contemplação se faz ao longo das demais semanas, mostrando como, pelo discernimento, é possível “buscar e encontrar a Deus e todas as coisas”, tornando-se “colaborador” Dele em sua ação salvífica no mundo.

Após a restauração da Companhia de Jesus, em 1814, a teologia elaborada pelos jesuítas participou do processo vivido então pela Igreja, que foi o de autodefesa em relação ao mundo moderno. O caminho teológico então percorrido, o da neoescolástica católica, que foi responsável, por um lado, pela valorização da razão humana, vista como “capaz de conhecer a Deus”, mas, por outro lado, pela criação do dualismo entre razão e fé, natural e sobrenatural, mundo e igreja, fez com que o que seria propriamente a visão teológica fosse visto como algo acrescentado ao argumento da razão, tornando-se, então, quase que supérfluo. Esse caminho não foi construído somente pelos jesuítas, mas por toda a teologia católica do período, conhecendo um enrijecimento após o Concílio Vaticano I. Porém, com a renovação de algumas escolas teológicas, dentre as quais as dos jesuítas alemães, franceses e austríacos, preparou-se o processo de renovação da teologia que está na origem do Concílio Vaticano II. Boa parte da teologia jesuíta desde então elaborada insiste muito no diálogo com o mundo moderno, não o vendo de imediato como inimigo da fé, ou somente marcado por uma decadência provocada pelo pecado humano. Na elaboração dessa teologia foram importantes as leituras dos Exercícios feitas nesse período, mostrando que eles possuem uma teologia que vê o mundo em tudo atravessado pela presença divina. Dentre esses estudos são dignos de nota os de Erich Przywara, Gaston Fessard, Teilhard de Chardin, Hugo Rahner, Hans Urs von Balthasar, Karl Rahner.

O Papa Francisco, que foi plasmado em sua experiência espiritual e teológica pela espiritualidade e visão inaciana da realidade, tem oferecido à Igreja uma leitura marcada por essa perspectiva, ou seja, insiste mais em descobrir no mundo a presença de Deus, que dá esperança e leva a acreditar no ser humano, do que em falar do pecado e da impotência humana para combatê-lo. Seu ensinamento começa valorizando o que existe de bom no mundo, o que nele revela a presença divina, ou, como dizem o início dos pontos da Contemplação para alcançar amor: 1º: “os benefícios da criação, redenção e dons particulares”; 2º: “como Deus habita nas criaturas”; 3º: “como Deus trabalha e labora por mim em todas as coisas criadas na face da terra”; 4º: “”como todos os bens e dons descem de cima” (EE 234- 237). Sem ignorar o pecado e suas terríveis consequências, como Jesus, e também Inácio, ele move à esperança, que aponta primeiro um horizonte. Com isso ele quer suscitar a ação, e uma ação que acredita que o mundo foi confiado ao cuidado do ser humano, portanto, à sua responsabilidade, ou seja, propõe uma visão ética do mundo. Como Deus viu que tudo era bom, também o ser humano pode, com o auxílio de Deus, buscar tornar o mundo melhor para si mesmo, seus semelhantes e toda a criação.

Oxalá este ano inaciano ajude os que que são formados na escola dos Exercícios a se tornarem no mundo os olhos, os ouvidos, os braços e as pernas que o façam ser melhor para si mesmos, para aquelas pessoas com as quais convivem e para a casa comum.

Geraldo De Mori SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE