Uma graça que penetra na vida e não sai mais

advanced divider

Alfredo Sampaio Costa SJ

  1. Na graça de La Storta se realiza o que Inácio tinha pedido a Deus na sua vida (e que cada exercitante busca ao fazer os Exercícios Espirituais)

Inácio, uma vez convertido, descobriu que sua vida, de agora em diante, trilharia o caminho de uma identificação cada vez maior e total com o Cristo pobre e humilde, com a cruz às costas, que ele encontrara no pobre nas escadarias de Montserrat e pelas ruas de Manresa, Barcelona, Alcalá, Paris e finalmente Roma.

Nos seus Exercícios Espirituais, Inácio nos convida a responder ao Apelo do Rei Eterno Jesus Cristo de uma forma apaixonada, fazendo uma oferta de maior estima para seguir a Cristo (cf. EE 97-98). Consciente da sua fraqueza e da nossa em dar tal resposta, Inácio nos convida a multiplicarmos os colóquios nas orações, começando por Nossa Senhora (cf. EE 147). Convém aqui sublinhar todo o peso vital da devoção de Inácio por Maria, sua primeira intercessora, desde o momento em que, com suas roupas já trocadas com as de um pobre, “vestiu-se com sua desejada roupa” e “com um bordão na mão” passou toda a noite ora de joelhos ora de pé diante de seu altar em Monserrat, “na véspera de Nossa Senhora de Março, no ano de 1522”. Maria e La Storta mantem uma relação intercessora inegável, que irá de querer viver o mais exterior à configuração interna, de vestir-se com a “desejada roupa” do pobre até o “ser colocado com o Filho”. Os colóquios inacianos terminam com iguais petições ao Filho e finalmente ao Pai, para que também lhe concedam a graça de ser escolhido e recebido sob a Bandeira de Cristo[1].

Esse pedido insistente pela sua transcendência e importância segue até o momento decisivo da eleição, preparada proximamente pelo exercício dos Graus de Humildade (ou Amor). Até onde vai o nosso amor por Cristo? Inácio pede a graça de ser recebido debaixo da sua bandeira, de imitar a Cristo em passar todas as injúrias e toda pobreza tanto atual como espiritual (cf. EE 98, 147, 168). Pois bem, será em La Storta, anos depois, quando Inácio sentirá que recebe no mais profundo do seu coração esta graça, e quando sua perseverante petição de “ser colocado” é escutada de modo extraordinário. Não é “colocar-se”, mas “ser colocado” com o Filho que carrega a Cruz. E foi, nas suas palavras, um “ver com o entendimento”, um “sentir tal mutação”, “confirmação”, “sensação”, “imprimir-se-lhe”… É portanto algo passivo, modo como conseguimos expressar um dom e graça recebidos: O Pai coloca Inácio com Cristo, seu Filho, e o associa serviçal e existencialmente a Cristo que carrega a Cruz.

La Storta é uma experiência que, comunicada por Inácio ao primeiro grupo de companheiros, deve ser partilhada também por todos os jesuítas e leigos que se deixaram “fazer” pelos Exercícios:

“A oração de Inácio é a oração do grupo, é a oração do exercitante perpétuo, de todo fiel: “Ser colocado com o Filho”. Podemos pensar que este pedido resume tudo o que é a vida de Inácio e seus companheiros? É o desejo que só o Pai pode preencher, agora que se aproximam a Roma com seus planos interrompidos, e próximos a se submeterem à autoridade da Igreja, tão ambígua em seus representantes…  Diante dos companheiros e Inácio se abre uma vida de horizontes vastos… e nem tudo é simpatia, “via as janelas fechadas” (Autob. 97). E é agora precisamente quando experimentam através de Inácio a firme convicção de que este gênero de vida que assumem não tem outro sentido que serem postos com seu Filho (Autob. 96). Obra do Pai, realizadas na ambiguidade da história pela autoridade da Igreja”[2].

Não é outro o fruto dos Exercícios e que não pode se reduzir a um santo desejo que dura 8 dias, um mês ou vários meses quando feito na vida corrente, mas se estende a toda a vida daqueles que o fizeram. Uma graça que, como Inácio nos diz, precisa pedida continuamente.

  1. Em La Storta, Inácio vê confirmado o nome da nova Ordem

Falar do “nome” é apontar para o que dá a identidade de alguém, que o distingue de todo o resto e que nos identifica como seres únicos e irrepetíveis. Deus nos chama pelo nome. Que nome dar ao novo grupo que se constituía não é, de modo algum, um assunto secundário, mas sim fundamental.

Inácio adquirirá grande clareza sobre o nome que deve levar o grupo de companheiros que com ele iniciam uma grande aventura. Polanco remete a decisão a 1537 em Vicenza quando os companheiros se colocavam a questão de que deviam responder “se lhes perguntassem quem eram”. Inácio sugere a resposta, e os demais acolhem a ideia: dirão que são da Companhia de Jesus, os companheiros de Jesus.  Depois da experiência de La Storta, confirmada em seu diário espiritual, Inácio sem duvidar nem poder duvidar considera imutável o nome de Jesus para sua obra. Quem se imprime no seu coração é o mesmo Jesus que carrega a cruz. Não é outro que o crucificado-ressuscitado. O ressuscitado em forma de crucificado (servidor). O lema contemplativo dos cartuxos afirma que “A cruz permanece, enquanto o mundo dá voltas”; o mais ativo, porém não menos contemplativo da Companhia proclama: “Viver, atuar e servir em missão (militar) sob o estandarte da Cruz”.

  1. A graça recebida em La Storta: seguimento de Cristo com a cruz

Cada um de nós e a Igreja como um todo não poderá nunca se esquivar da pergunta: o que o Senhor quer de mim (nós)? Como posso (podemos) seguir a Cristo mais de perto, com mais amor? A experiência vivida naquela Capelinha de La Storta será decisiva também para encontrar respostas a estas questões. Nadal comentará a propósito desse seguimento e missão:

“Ajuda exercitar-se e considerar e sentir que seguimos a Jesus Cristo, que carrega ainda a Cruz na Igreja militante, a quem nos deu por servos seu Pai eterno, que o sigamos com nossas cruzes, e não queiramos mais do mundo do que Ele quis e tomou, isto é, pobreza, opróbrios, trabalhos, dores, até a morte, exercitando a sua missão para a qual Deus o tinha enviado ao mundo … Mas é muito gostosa a nossa cruz, porque tem já o esplendor da glória da vitória sobre a morte, ressurreição e ascensão de Jesus” (Monumenta Natalis IV, 678).

Da mesma forma, o antigo Padre Geral dos jesuítas, Pedro Arrupe, em uma de suas mais apreciadas cartas à Companhia[3], resumirá como pontos essenciais que se confirmam em La Storta:

  1. A segurança espiritual e psicológica de Inácio: foi aceito e a sua intuição do Cardoner alcançou a sua maturidade. Só falta agora a sua realização;
  2. A institucionalização do grupo com que se apresenta é aceita como parte do plano;
  3. O nome “Companhia de Jesus”;
  4. O serviço em humildade e com a cruz;
  5. A vinculação eclesial na pessoa do “Vigário de Cristo”, o Papa, como aquele que dá a missão”.

Acredito que podemos tomar suas palavras e aplicá-las também a nossa situação de vida. O que mais queremos é nos sentirmos seguros com relação ao que o Senhor nos pede. Para isso precisamos buscar a certeza de que é Ele que nos dirige a Palavra. Em segundo lugar, é necessário encontrar o “como” podemos colocar em prática o que Ele nos solicita. A quem podemos recorrer para termos a certeza de que não estamos nos desviando de nossa missão?

Estar com Cristo: quantas vezes e durante quantos anos Inácio tinha pedido que se lhe concedera essa graça! A graça de La Storta é o fato que ilumina tudo o que Inácio tinha vivido. É a resposta certa a tantas súplicas e à última que ele faz por intercessão de Nossa Senhora a caminho de Roma. Leva muito tempo multiplicando suas ofertas, mas lhe seria uma reconfortante alegria saber que ela foi aceita. Inácio, quando em oração, sente uma mudança na sua alma, uma transformação de todo o seu ser em uma experiência essencial e vital, traduzida com pobres palavras humanas, ricas em sinceridade, quase todas em termos de passividade, que ajudam a entender que a iniciativa foi inteiramente divina. A impressão recebida é um selo que Deus imprime em seu coração[4].

Você já experimentou alguma vez essa confirmação de que o Senhor está te guiando? Como se sentiu?

A serviço do Rei Eterno: Esta grandíssima e íntima visão é a confirmação do que já se tinha iniciado na vida de Inácio. É também o esboço de um programa, o começo de uma nova etapa da sua vida, aquela em que fundará a Companhia de Jesus. Não é nenhuma novidade dizer que a linha que atravessa de um lado a outro a vida de Inácio é a do serviço. Serviço que se realiza de formas diversas e se dirige a pessoas distintas até o ponto de se converter em serviço de Deus N.S. e serviço dos homens. Inácio caíra ferido quando buscava assinalar-se no serviço de um príncipe e de uma causa. Convalescente, sonhava com frequência de colocar-se a serviço de uma dama de altíssimo posto. Depois, ao ler a Vida dos Santos, se lhe apresenta um tipo muito diferente de serviço: o desejo de imitar e superar os santos no serviço do Senhor[5].

Que forma tomará aquele “muito grande esforço para servir a Nosso Senhor” que sentiu em Loyola? Inácio nunca se contenta com o serviço prestado. Busca sempre o “maior serviço”, a “maior glória de Deus”. O serviço irá assim assumindo diversas formas. O serviço de Deus está ligado com a salvação e perfeição do próximo: o “ajudar às almas”.

Debaixo do Romano Pontífice: O último ponto que queremos tratar refere-se a um passo definitivo, fruto da experiência vivida em La Storta, a saber, a vinculação do novo grupo de amigos no Senhor ao Papa. Será o assunto do nosso próximo texto.

[1] Luis de DIEGO, “Vio tan claramente que Dios lo ponía con su Hijo…”. La visión de La Storta en la vida de San Ignacio y en la espiritualidad Ignaciana. Manresa 84 (2012) 324.

[2] Manuel MAZA, La autobiografia de San Ignacio. Apuntes para una lectura, CIS, Roma 1984, 48.

[3] Pedro ARRUPE, “La inspiración trinitária del carisma ignaciano”, em Homenaje al P. Arrupe, La Trinidad en el Carisma Ignaciano, CIS, Roma 1983, 31.

[4] Gervais DUMEIGE, “Dios Padre le ponía con su Hijo”, La Visión de La Storta. Historia y Espiritualidad. CIS 19/1 (1988) 37.

[5] Gervais DUMEIGE, “Yo os seré propicio em Roma”. “Yo quiero que tu nos sirvas”, La Visión de La Storta. Historia y Espiritualidad. CIS 19/1 (1988) 40.

Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE