Geraldo Luiz De Mori, SJ
”Jesus pôs-se no meio e disse-lhes: Paz seja convosco!” (Jo 20,19)
O dia 28 de fevereiro de 2026 tem tudo para ser a marca da passagem para um novo tempo na história recente da humanidade. Naquele dia, aviões, mísseis e drones de Israel e dos USA bombardearam vários pontos no Irã, desencadeando o que o mandatário dos Estados Unidos denominou de “Operação Fúria Épica”, levando à morte do líder supremo do país persa, o Aiatolá Ali Khamenei, juntamente com alguns familiares e importantes lideranças do regime. Uma escola atingida pelos ataques da operação, não só chamou a atenção, mas é a ilustração mesma da lógica de toda a guerra: 153 meninas foram mortas. Como na guerra na Faixa de Gaza, as crianças são as principais vítimas em conflitos que não promoveram, tendo suas vidas drasticamente interrompidas. Suas mortes, como a das milhares que pereceram em Gaza, não são apenas “efeitos colaterais”, são o atestado de uma espécie de fracasso da humanidade.
Não é tão simples tecer um juízo político, ético e teológico sobre mais esse conflito. Curiosamente, outro conflito, envolvendo o Paquistão e o Afeganistão, também teve início nas últimas semanas, sem contar a guerra que continua na Ucrânia, os bombardeamentos supostamente “cirúrgicos” em Gaza e as muitas guerras na África. A esses conflitos é preciso ainda acrescentar os que continuam matando pessoas inocentes no interior de cada país, como o que recentemente ocorreu no México, por conta da morte de um dos chefes de um dos maiores carteis de droga do mundo, e mesmo no Brasil, onde a cada dia vidas são ceifadas pelas guerras de facções ou pelos que detêm o poder e buscam silenciar os que alçam a voz clamando e lutando por justiça, como atestam as muitas mortes de líderes indígenas e camponeses a cada ano.
O centro da mensagem cristã pode certamente ser resumido com a saudação do Crucificado no primeiro dia da semana: “A paz esteja convosco” (Jo 20,19). Com esta saudação o Cardeal Robert Prevost, recém-eleito como sucessor do Papa Francisco, inaugurou seu pontificado em 8 de maio de 2025, e é provavelmente ela que mais tem se repetido nas diferentes intervenções que desde então ele tem feito nesses quase dez meses de seu pontificado. A fé cristã nasceu do anúncio de que o Crucificado vive. É interessante notar que este anúncio é indissociável do que a memória cristã considera como uma de suas primeiras palavras. Mais interessante ainda é associar esta primeira palavra, que, sob muitos pontos de vista, inaugura o que vários escritos do Novo Testamento denominam de “nova criação”, ao que constitui, segundo o relato da primeira criação de Gn 1,1-2,4a, a finalidade de toda a obra criada: o sábado, traduzido por repouso, na bíblia hebraica, mas que tem a particularidade de ter a mesma raiz de outra palavra importante no judaísmo: shalom, ou seja, paz. O fruto da nova criação, ou seja, seu recomeço no corpo do Ressuscitado, cumpre o que é sua finalidade: o shalom.
Não é certamente disso que todos os comentários sobre esta nova guerra têm falado nos últimos dias. Por sinal, mais do que nunca se multiplicam as análises, vindas de todo tipo de pessoas e sites. É como se, de repente, todos tivessem se tornado especialistas. Ora, o atual conflito é complexo e análises rasas correm o risco de mascararem o que está em jogo ou difundirem informações equivocadas quando não infundadas, confundindo o cidadão comum. No Brasil, o que tem chamado a atenção, sobretudo nos comentários e análises da grande mídia, é um certo alinhamento acrítico a narrativas que remontam às “guerras do Golfo” ou às guerras antiterrorismos posteriores ao ataque às Torres Gêmeas. Nessas análises há a oposição entre o “eixo do bem” e o “eixo do mal”, numa “repaginação” do mesmo conflito, como que sua nova etapa. No entanto, essa leitura é rasa demais e não corresponde à complexidade do momento presente. Está em jogo, na verdade, mais do que um “conflito entre mundos”, mas o “fim de um mundo”, aquele que emergiu da Segunda Guerra Mundial, que havia encontrado em organismos mundiais, como a ONU, as instâncias capazes de dirimir conflitos e assegurar uma ordem mundial baseada na autodeterminação dos povos. Nem sempre a ONU conseguiu realizar sua missão, mas mais do que nunca ela se encontra fragilizada, como atestam, entre outros, o Conselho de Paz capitaneado pelos USA e Israel para “promover” a solução do problema palestino na Faixa de Gaza e, certamente, a guerra unilateral inaugurada por Israel e os Estados Unidos contra o Irã.
Em geral, apesar da guerra interna que mata milhares a cada ano no Brasil, é comum a opinião de que não existe guerra no país, que a guerra no Irã não diz respeito ao povo brasileiro. Embora distante, essa guerra afeta não só os países vizinhos do Irã, mas o mundo inteiro, pelos efeitos, sobretudo no campo da economia, que provoca. Dentre as análises que circulam nas várias mídias, duas não podem ser ignoradas: 20% de todo o comércio mundial de petróleo dependem do Estreito de Ormuz. O impacto disso é impressionante. No caso do Brasil, apesar de o país não ter dependência do petróleo vindo daquela região, grande parte do comércio de carnes, central para o agronegócio nacional, depende da passagem de navios por aquela região. Portanto, a guerra do Irã terá, sim, um grande impacto na economia brasileira, e é essencial estar bem-informado.
Mas esta guerra não impacta apenas a geopolítica e a macroeconomia mundial. Seu primeiro efeito é sobre a vida de inocentes. A morte das 153 meninas, numa semana em que se prepara a comemoração do dia mundial da mulher, é o sinal mais eloquente da perversidade de toda a guerra. Como expressa de modo forte a poesia de Cireneu Kuhn, no Pai-Nosso dos mártires, sim, é “maldita toda a violência que devora a vida”. No texto do missionário verbita, a violência em questão era a da repressão contra os que defendiam os direitos humanos no campo e na cidade do Brasil da década de 1980. Mas a violência de toda guerra é maldita e, seguramente, desencadearia na boca do profeta Jesus de Nazaré um “ai de vós!” os que promovem a guerra, contraposto ao “bem-aventurados vós” que são artesãos de paz. Mas, como fazer ouvir qualquer voz artífice da paz em meio a um conflito no qual se jogam interesses estratégicos de hegemonia mundial? Esta pergunta, certamente, pode brotar no íntimo do coração de cada pessoa. Ela não pode, porém, interromper-se no sentimento de impotência, que paralisa toda ação. A promoção da paz é algo permanente. Provavelmente por esse motivo, o último dia da criação é apresentado como destinado ao sábado, repouso, shalom, paz. E por esse mesmo motivo, os que se encontraram com o Ressuscitado escutaram sua saudação de paz como primeiro fruto da humanidade reconciliada, apesar do pecado.
O tempo da quaresma de 2026 é, nesse sentido, tempo de interrogar-se sobre os mecanismos que desencadeiam em cada coração sentimentos de violência, guerra, ressentimento, ódio, que levam ao desejo de suprimir o outro, de humilhá-lo, de fazê-lo sentir-se mal. A conversão supõe o contrário disso, deixar-se invadir pelos processos que dão origem à paz, como o que se segue à saudação do Ressuscitado: “aqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados” (Jo 20,23). É o perdão que dá origem à paz verdadeira e duradoura. Oxalá, no cotidiano, ele possa abrir caminho para que a paz se construa também nos inúmeros processos de guerra nos quais cada um se implica, instaurando uma paz pequena, mas inquieta, que pode fazer a diferença, pois não alimentará as muitas guerras que continuam sendo malditas porque matam inocentes.
Geraldo Luiz De Mori, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE
05/03/2026

Imagem: Shutterstock