De coração a coração: Retorno ao legado de Francisco um ano após sua páscoa

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Geraldo Luiz De Mori, SJ

“…do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7,38)

 

Para o mundo católico e todos os que com ele têm alguma relação, a favor ou contra, o dia 21 de abril se tornou, a partir de 2025, uma data memorável. Naquele dia, às 7h35 de Roma, foi anunciada a páscoa do Papa Francisco. No domingo anterior, domingo de páscoa, ele pôde fazer sua última aparição pública na Praça São Pedro, após ficar 38 dias hospitalizado. Não só sua morte causou comoção, mas todos os atos que se seguiram, como os da preparação de suas exéquias, a cerimônia ela mesma, seu sepultamento na Basílica de Santa Maria Maior, a singeleza que ele quis para seu túmulo.

Após um ano desse dia memorável, além da saudade, há vários esforços de compreensão do legado do Papa argentino. Muitos aspectos têm sido explorados e postos em evidência, como o da centralidade que ele deu à dimensão missionária e evangelizadora da Igreja, como formulada na Exortação apostólica Evangelii gaudium, que, por sua vez, ganhou institucionalidade com a reforma da Cúria Romana, que na Constituição Apostólica Praedicate evangelium, confere ao Dicastério para a evangelização a primazia que até então parecia pertencer ao Dicastério para a doutrina da fé. Este recentramento da Igreja no anúncio do Evangelho, se traduziu em cuidado especial com os mais vulneráveis, sobretudo os migrantes e refugiados, as vítimas dos diferentes abusos cometidos por membros da instituição eclesial, o meio ambiente, de tantas maneiras ameaçado pela lógica da “economia que mata”, transformando-o em lugar de descarte e não “casa comum”. Esse voltar-se para a vulnerabilidade também se traduziu em preocupação pastoral com certos públicos, como as famílias, as juventudes, as populações da Amazônia, os membros dos movimentos populares. O olhar de compaixão para com os vulneráveis e com o meio ambiente, para além das iniciativas de assistência a pessoas e grupos específicos, também teve uma intuição grandiosa, que é a da busca da reconstrução do “nós” num mundo cada vez mais voltado para o “eu”. Nesse sentido, a Encíclica Fratelli tutti e o Sínodo da sinodalidade apontam para um caminho laborioso que necessita ser redescoberto e atravessado pela sociedade e pela Igreja. Com efeito, a fraternidade e a amizade social são as únicas capazes de romper o isolamento de grupos e ideologias marcados pela demonização do outro ou pelo processo de polarização que vai desconstruindo o que é constitutivo da vida social. Por sua vez, a sinodalidade é a via que ajuda a Igreja no aprendizado da escuta e do caminhar juntos, oferecendo assim à humanidade o sinal sacramental do qual ela é depositária: o de ajudar os seres humanos a viverem a comunhão na diferença e a comunhão com Deus.

Os doze anos de Francisco à frente da liderança da Igreja católica, marcados por tantos gestos inspiradores e proféticos, como também por tantas iniciativas e decisões que contribuíram para recentrar a Igreja ao redor do Evangelho, além dos inúmeros textos que recolhem seu ensinamento, conferiram a ele e à Igreja uma audiência e uma credibilidade novas. Grande parte dessa audiência e credibilidade devem-se ao papel que ele assumiu e ao modo como assumiu esse papel. Ele falava e agia com “autoridade” ou “parrhesia”, termo grego que significa “liberdade de expressão”, “dizer tudo”, “falar com franqueza”, encarnando o que dizia em gestos e ações concretos. Isso fez dele uma autoridade moral única num cenário mundial marcado por várias “guerras aos pedaços”.

Essas distintas faces de seu pontificado suscitaram também leituras de caráter mais abrangente, buscando mostrar o que seriam as linhas transversais de sua ação. Muitos descobrem nessa ação o papel da espiritualidade inaciana, marcada por uma visão positiva do mundo, pela busca de nele encontrar a presença divina, pelo discernimento. Certamente tudo isso é verdadeiro. O Pe. Luís González-Quevedo Campo, missionário jesuíta no Brasil, conheceu Jorge Mario Bergoglio antes dele ser cardeal e papa. Quando Francisco convocou o “Ano da Misericórdia”, ele afirmou que o mais transversal do magistério do Papa argentino era justamente a misericórdia. De fato, esse tema deu origem a um livro com o título O nome de Deus é misericórdia, publicado em 2016. Segundo o Pe. Quevedo, o próprio Papa teria lhe dado esta resposta quando ele lhe perguntou.

É interessante explorar esta pista, porque ela corresponde ao que Francisco escreveu em sua última Carta encíclica, a Dilexit nos, publicada em outubro de 2024, texto no qual ele repropõe para o conjunto da Igreja a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Muitas pessoas talvez não tenham prestado atenção a esse texto, por considerá-lo de caráter “devocional”, uma vez que a devoção ao Sagrado Coração resume grande parte da espiritualidade dita moderna no conjunto do catolicismo a partir do século XVII, mas com grande efervescência no século XIX até meados do século XX. Como o pensamento crítico tem uma suspeita contra tudo o que é devocional, talvez por isso, se falou pouco sobre esta Encíclica. Mas, num gesto de recepção, mas também de interpretação da Dilexit nos, o Papa Leão XIV publicou como sua primeira Exortação apostólica a Dilexi te, na qual afirma que Francisco havia pensado escrevê-la para mostrar que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus era indissociável da opção e do amor preferencial pelos pobres.

Os exegetas, estudiosos dos textos bíblicos, elaboraram um conceito interessante para a análise de um livro das Sagradas Escrituras: “inclusão”. Esse conceito faz dialogar, ou numa perícope ou no conjunto do texto, o início com o fim. Aplicando esse conceito ao pontificado de Francisco, é interessante trazer como chave de interpretação para o período em que ele esteve à frente da liderança da Igreja, a convocação do ano da misericórdia e a proposta de pensar Deus como misericórdia. A proposição inicial aponta o sentido a partir da qual deve ser pensado o conjunto de sua ação e magistério; a proposição final, como que num quadro constituído de duas partes, traz, de um lado, o Coração de Jesus, fonte de misericórdia, como dizem as orações das espiritualidades fundadas nessa devoção, e do outro lado, os rostos de tantos homens e mulheres em situação de pobreza real e de vulnerabilidade, que clamam justamente por misericórdia. Não porque sejam pecadores, que imploram a misericórdia, mas porque estão destituídos da imagem divina a partir da qual foram criados. Nesse sentido, é importante perceber as duas partes do quadro, que resumem um pontificado e inauguram outro, o lugar a partir do qual se pode pensar a presença da fé cristã num mundo cada vez mais marcado pela violência e pelo desprezo dos preferidos de Deus, descritos na parábola do juízo final (Mt 25,31-46).

Interpretar uma vida, sobretudo tão rica e fecunda como a de Francisco, é sempre um risco, mas também um compromisso, sobretudo em se tratando de recolher seu legado. Pensar esse legado como atravessado pela ideia da misericórdia, e uma misericórdia expressa num símbolo tão rico como o do Sagrado Coração de Jesus, cuja misericórdia é voltada para os mais vulneráveis, eis, sem dúvida, o legado-apelo que deve ser posto como central para todos os que se dizem discípulos e discípulas do Caminho. Oxalá, a Igreja continue nessa senda sobre a qual ele a direcionou, tornando-se de fato, sacramento do amor misericordioso do Coração divino no meio do mundo.

Geraldo Luiz De Mori, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

23/04/2026

Foto: Vatican News

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