“Aloka invadiu o meu coração”

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Silvia Contaldo

A juventude chamada hippie marcou de forma indelével as décadas de 60 e 70. Roupas coloridas, cabelos compridos, muito rock and roll e uma frase icônica: don’t war, make love. O gesto, dedos indicador e médio levantados para formar um V, repetido em todo o mundo, simbolizava um movimento em favor da paz mundial.  Ao longo do belicoso século XX, outros símbolos foram sendo inscritos em movimentos sociais, políticos, protestos, que pretendem ser gestos concretos em favor da paz. Símbolos, cores, caminhadas, itinerâncias, militâncias,  tudo em vista de alcançar o porto comum da humanidade. Todos queremos viver em paz.  Até um animal feroz deseja viver em paz, já afirmara santo Agostinho em sua Cidade de Deus: “Que tigre, de facto, não rosna para as suas crias com ternura e não abranda a sua ferocidade para as acariciar?” (Civ. Dei, XIX,12). Não às guerras!

Século XXI. Duas décadas e meia já se foram e ainda não alcançamos a paz. Recentemente, em outubro de 2025, um grupo de 19 monges budistas percorreu quase 4 mil quilômetros, de Fort Worth ‒ no Texas ‒ até Washington. A essa Caminhada pela Paz juntou-se Aloka, uma simpática vira-lata que tem em sua testa o desenho de um coração – é a natureza que não desiste de fazer arte! Aloka e os monges também se tornaram símbolo de mais um movimento em favor da paz que parece cada vez mais distante de se alcançar. (ver: http://instagram.com/reel/DT6LrnXkW8B/).

O Papa Leão XIV também fez uma caminhada pela paz, em solo africano, na mesma região onde santo Agostinho, seu mestre espiritual, lutou incessantemente em favor da paz. Diante da sua Hipona cercada, destruída, incendiada, mulheres violentadas, assediada por 14 meses, Agostinho “chorava copiosamente”, conforme nos informa Possídio, seu primeiro biógrafo: [Agostinho] via as cidades arruinadas e juntamente com os edifícios das aldeias, alguns dos habitantes perecerem nas mãos do inimigo, outros fugirem e se dispersarem[…]no meio dos tormentos, uns não resistiram outros foram mortos à espada, outros feitos cativos..” (Vida de Santo Agostinho, 28,7).

Leao XIV também chorou pisando o mesmo chão de outrora. A violência está por toda parte, não apenas naquele continente esquecido e preterido. Além de guerras insanas e dos cercos geográficos, há cercos invisíveis, habitados por exímios profissionais promotores de cegueira espiritual. É urgente que a paz invada o coração.

A caminhada de Leão XIV teve a duração de 10 dias, a começar pela Argélia. Em seguida, passou por Camarões, Angola e Guiné Equatorial. Em Annaba, a antiga Hipona, no mesmo chão onde Agostinho fincou sua vida – pois era  Augustinus Hipponensis Leão XIV plantou uma oliveira, outro símbolo da paz, na esperança que floresça para nos lembrar que  não há bem maior do que a paz, como Agostinho reiterou: “É, de facto, tão grande o bem da paz que, mesmo nos assuntos terrenos e perecíveis, nada se pode ouvir com mais agrado, nada se pode procurar com maior anseio, finalmente nada melhor se pode encontrar” (Civ. Dei, XIX, xi).

Vide Aloka. Seguiu firme, apesar de ter a perna traseira lesionada. Respeitados os limites diários do esforço físico, inclusive para humanos, os monges e Aloka fizeram todo o percurso. Vide Agostinho, que nunca desistiu do cálamo e da tinta, apesar dos males da velhice:  “A velhice tem suas inúmeras mazelas: a tosse, os tremores, a vista enfraquecida, a angústia, o terrível cansaço”, declarou em seu Sermão 81,8. Boa parte dos últimos anos de sua vida foi dedicada à escrita de A Cidade de Deus, cuja motivação encontra-se também no Sermão 356,10: “Ontem respondi a uma carta do tribuno Marcelino. Ele é um homem justo, um católico fervoroso, um amigo cordial. Insiste para que, após o saque de Roma, me decida a escrever uma obra cujo tema seja a Cidade de Deus. É um grande e árduo compromisso! Escrevê-la-ei, se Deus quiser. Mas, antes, quero construir a Cidade de Deus convosco, irmãos caríssimos”.

Continuemos a caminhar, pois “a paz fez [ainda vai fazer] um mar da revolução” (G. Gil).

Silvia Contaldo é professora no departamento de Filosofia da FAJE

07/05/2026

Foto: Reprodução / Instagram

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