Fisicamente presentes, intelectualmente distraídos: o desafio do engajamento na formação universitária

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Elton Vitoriano Ribeiro, SJ

O cenário da sala de aula universitária contemporânea, especialmente na área de humanas, tem confrontado educadores com um paradoxo incômodo. Por um lado, as carteiras continuam ocupadas por corpos que cumprem a frequência regulamentar. Por outro lado, percebe-se um esvaziamento progressivo da presença viva e engajada do estudante. Em reflexões recentes trazidas a este debate, constatou-se a tragédia do aluno que se encontra fisicamente presente, mas intelectualmente offline (Luiz Sureki: Fisicamente presentes, intelectualmente offline: o drama da atenção na universidade da distração, Palavra e Presença: 02/07/26), convivendo em um espaço em que todos estão fisicamente presentes, porém presentemente distraídos (Silvia Contaldo: Fisicamente presentes, presentemente distraídos, Palavra e Presença: 06/08/26). Diante destas reflexões, pergunto-me se o drama da atenção no ensino superior, em especial na FAJE, desdobra-se em um fenômeno ainda mais profundo e preocupante: a apatia e o desinteresse existencial pelo saber.

Ora, podemos supor que essa possível apatia não é um fato isolado, mas um fenômeno generalizado no ensino universitário atual, impulsionado pela hiperconexão digital e pela cultura da aceleração. A disputa frenética pelas telas e o imediatismo algorítmico reduzem drasticamente a tolerância para o tempo lento, denso e crítico exigido pela reflexão acadêmica, especialmente no campo das humanidades e, no nosso caso, da filosofia e da teologia. Assistimos a um silenciamento da curiosidade, a um desinteresse pela boa discussão, a um esvaziamento do valor do esforço intelectual e da busca pelo conhecimento como vias de transformação da realidade.

Quando voltamos o olhar para a realidade da FAJE, esse diagnóstico ganha contornos ainda mais específicos e complexos. Para muitos estudantes em formação religiosa, a Filosofia corre o risco de ser reduzida a uma etapa meramente burocrática, um pedágio exigido pelas diretrizes da Igreja Católica antes do ingresso nos estudos teológicos. Somado a isso, diante de uma agenda sobrecarregada de compromissos, muitos chegam à sala de aula fisicamente exaustos e presentemente sonolentos diante das discussões filosóficas conceituais. Quando o ensino filosófico falha em explicitar seu vínculo vital com as crises do ser humano e com o próprio discernimento da fé, a disciplina acaba sendo tratada como um saber arqueológico, uma abstração inútil ou uma decoreba conceitual desprovida da dinâmica existencial.

Enfrentar essa apatia na FAJE exige transformar a experiência acadêmica de um obstáculo burocrático em um instrumento vivo de discernimento existencial, social e pastoral. Isso requer coragem pedagógica e abertura para repensar nossas práticas docentes por meio de alguns eixos fundamentais [BERGMANN, J. Sala de aula invertida: uma metodologia ativa de aprendizagem. Rio de Janeiro: LTC, 2019. ELMÔR FILHO, G. Uma nova sala de aula é possível. Rio Janeiro: LTC, 2019].

Primeiro, a reflexão filosófica pode partir de dilemas éticos e existenciais concretos do mundo contemporâneo, como a solidão hiperconectada, o avanço da inteligência artificial e a busca por sentido. Dinâmicas como a sala de aula invertida e os seminários reposicionam as carteiras e colocam o foco no exercício do pensamento crítico, substituindo a exposição passiva e a memorização de sistemas pelo debate provocativo.

Segundo, é preciso recordar que o agente pastoral, perfil da maioria dos nossos alunos e alunas, não dialogará apenas com cristãos, mas com o ceticismo, o niilismo e a crise de sentido das pessoas. A filosofia é o idioma fundamental desse diálogo. Uma possibilidade é propor trabalhos de análise filosófica sobre a realidade que os estudantes já vivenciam, como olhar para a mercantilização da fé ou para o sofrimento humano à luz dos grandes pensadores. O importante é mostrar que uma teologia sem filosofia se torna frágil e meramente moralista.

Terceiro, diante de grades horárias exigentes, a quantidade deve dar lugar à densidade, a qual exige, por sua vez, grande empenho intelectual dos estudantes. O caminho pode passar, por exemplo, pela escolha de fragmentos de textos importantes trabalhados a fundo e com dedicação. Da mesma forma, avaliações criativas, como ensaios em formato de artigos de opinião ou homilias reflexivas, aproximam a avaliação acadêmica da vocação do estudante.

Quarto, a construção do conhecimento pressupõe a validação do sujeito que aprende. Abrir espaço para rodas de conversa, escutando as aflições e a exaustão dos alunos, estabelece um pacto de empatia que quebra resistências. Permitir que os estudantes participem do andamento dos cursos devolve a eles o protagonismo e a responsabilidade pelo seu próprio aprendizado.

Portanto, se a distração presente e o desligamento intelectual são os sintomas de uma época hiperconectada e exausta, a resposta pedagógica não pode ser o conformismo nem o rigorismo estéril. No espírito da tradição educativa jesuíta, trata-se de reacender na sala de aula a chama do discernimento e da paixão pelo estudo, mostrando aos nossos alunos e alunas que pensar criticamente não é um peso a carregar, mas a condição indispensável para escutar o mundo e servir à vida. Essa é a melhor definição da missão da FAJE: Formando pensadores para o mundo!

Elton Vitoriano Ribeiro, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia e reitor da FAJE

27/08/2026

Foto: Shutterstock

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