João Batista Libanio: 12 anos de uma ausência presente e inspiradora

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Geraldo Luiz de Mori, SJ

No dia 30 de janeiro de 2014 todos os que conheceram João Batista Libanio foram despertados com a notícia de sua páscoa, acontecida na manhã daquele mesmo dia, alguns momentos depois de realizar seu exercício costumeiro de natação, em Curitiba, onde dava um curso de atualização teológica. Todos ficaram surpresos, pois o famoso teólogo, apesar de seus quase 82 anos, gozava de boa saúde, mantendo um ritmo de trabalho impressionante, não só de assessorias, cursos, mas também de pesquisa e publicação. Sua memória foi evocada muitas vezes ao longo desses 12 anos, mas é importante não só fazer memória do que foi sua presença e atuação na Igreja, mas também trazer para as novas gerações a importância de um modo de atuar como teólogo que ainda permanece atual e, provavelmente, mais do nunca necessário hoje.

Da memória que se fez de Libanio se recorda seu modo de ser, feito de simpatia, curiosidade, acolhida, capacidade de escuta, equilíbrio, bom humor, competência pedagógica e comunicacional, clareza na apresentação dos conteúdos que propunha aos diferentes públicos, capacidade de falar para todo tipo de pessoa, desde as crianças, nas homilias dominicais na Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, em Vespasiano, MG, a bispos, cardeais, especialistas em distintos âmbitos do saber no mundo acadêmico. A essas características se acrescenta sua enorme capacidade de pesquisa, feita de leituras e recensões das obras mais atuais publicadas em distintas línguas, de textos escritos a partir das grandes questões que iam emergindo no dia a dia da caminhada política, social e cultural mundial e local, como também das questões pastorais e teológicas que essa mesma caminhada levantava para a teologia, a espiritualidade e a pastoral da e na Igreja.

O que dizer 12 anos após sua páscoa? Não teria seu modo de ser, sua capacidade investigativa e sua ação enquanto teólogo sido aquilo que cada pessoa deve ser ao longo do tempo em que viveu? Há ainda algo que é possível “aprender” do que ele viveu e ofereceu ao mundo no espaço de quase 82 anos de sua existência? Por que fazer memória dos 12 anos de sua partida? Em muitos âmbitos da pastoral da Igreja na atualidade há uma tendência a certo “saudosismo” de um tempo considerado de “ouro” na caminhada pastoral e eclesial. Essa tendência é recorrente na sociedade e na Igreja. Ela pode ter alguns elementos positivos, pois faz memória de algo que realmente marcou a história de uma determinada sociedade ou instituição. É importante valorizar esses elementos, pois evocam o que foi mais criativo, inovador, construtor de novas possibilidades, alimentando a esperança e, sem dúvida, no caso da Igreja, tornando o “reino de Deus presente” de forma mais palpável, através do testemunho da caridade.

Esses elementos positivos da “saudade” estão relacionados ao que de mais profundo existe no ato de fazer memória, que é o ato de recordar o passado e deixar-se inspirar por ele, sobretudo no que de novo propôs, oferecendo razões para crer, esperar e amar. Essa positividade do passado é, contudo, continuamente ameaçada pelo risco de paralisar o presente, pois parece que o passado era melhor, ou, pior ainda, que o que nele se viveu é impossível de ser revivido, não tanto nas iniciativas que tornou possível, mas no ato mesmo de imaginar novos possíveis, inaugurando o novo na história atual.

A perspectiva que é aqui proposta é, sem dúvida, a do ato de fazer memória resgatando o que, no modo de ser e nas inúmeras atividades vividas por Libanio, ainda podem inspirar quem é discípulo e discípula de Jesus de Nazaré na contemporaneidade.

No dia 8 de dezembro de 2025 a Igreja comemorou os 60 anos de conclusão do Concílio Vaticano II. A proximidade entre esta data e os 12 anos da morte de Libanio é interessante. Em parte, porque 60 anos depois da conclusão do Concílio já praticamente quase todos os que o realizaram, os “padres conciliares”, já não mais fazem parte da Igreja peregrina. Além disso, muitos grupos, que não viveram a Igreja pré-conciliar tendem hoje ao negacionismo do que foi o caminho vivido e empreendido pelo Concílio. Em parte, porque o número 12 tem um significado profundo no conjunto da bíblia hebraica e que foi resgatado por Jesus, ao escolher 12 de seus seguidores para se tornarem “apóstolos”. Vários teólogos e teólogas têm insistido que o atual momento é o de uma nova recepção do Concílio e não de sua negação. Libanio foi da geração que incansavelmente trabalhou para sua recepção no Brasil, com cursos de atualização sobre a teologia do grande evento eclesial do século XX, inúmeros textos escritos com chaves de leitura dos textos conciliares. É interessante que o próprio Papa Leão XIV tenha proposto a retomada da leitura desses textos nesse início de 2026, tarefa à qual se dedicou todo o pontificado de Francisco, que culminou com o sínodo da sinodalidade.

Por que associar a memória dos 12 anos da páscoa de Libanio ao Concílio? Não só porque ele se dedicou a divulgar a teologia conciliar, mas, sobretudo porque, como o Concílio, ele viu que a Igreja se autocompreendeu então como “sacramento” da união dos seres humanos entre si e deles com Deus, como de tantas formas o caminho sinodal tentou resgatar e reiterar. Por que insistir nisso? Porque, hoje, talvez mais do que nunca, as ameaças da guerra de todos contra todos, representadas pelos interesses dos diferentes grupos que compõem as sociedades e entre as distintas nações, nunca foram tão reais. A evolução da política do atual mandatário da Casa Branca é uma expressão desta ameaça, como também, no âmbito nacional, a incapacidade de diálogo representada por certos grupos políticos que exacerbam a intolerância no seio do Brasil.

Num dos seus últimos livros de maior “fôlego”, Em busca de lucidez: o fiel da balança (São Paulo: Loyola, 2008), Libanio aponta, já no final da primeira década do século XXI, para a necessidade de lucidez e de discernimento, que supõem a capacidade de acolhida do outro, de escuta, hospitalidade. Talvez seja esta atitude a que mais seja necessária nos dias de hoje, e ela precisa não ser lembrada como algo de um passado de ouro, mas como busca de construção de um presente que necessita reinventá-la. A lucidez em tempos de exacerbação da polarização não é evidente. Somente os que são capazes de experimentar a bem-aventurança da promoção da paz (Mt 5,9) são capazes disso, pois não só serão chamados “filhos e filhas de Deus”, mas o serão de fato, pois, ao invés de exacerbar a disputa, a violência, a intolerância, a guerra, se sentem irmãos e irmãs, filhos e filhas do mesmo Pai, que faz raiar o sol e chover sobre todos (Mt 5,45).

Geraldo Luiz De Mori, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

30/01/26

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