A bala de canhão: lições em tempos de guerra e de crise civilizatória global

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Moisés Nonato Quintela Ponte, SJ

Em meios jesuíticos e inacianos, costuma‑se romantizar a batalha de Pamplona, na qual o jovem Íñigo de Loyola (nome de Inácio antes da conversão) caiu valentemente por terra, ferido por uma bala de canhão, em 21 de maio de 1521. Em 2021, a Companhia de Jesus e toda a família inaciana celebraram o quinto centenário daquela batalha que deu início ao processo de conversão de santo Inácio. Passados cinco anos, a memória de Pamplona já não se situa no horizonte de um jubileu comemorativo, mas no cenário dramático de uma humanidade novamente dilacerada por guerras que se multiplicam e se sofisticam.

Se não conhecêssemos a história narrada pelo próprio Inácio, imaginaríamos que aquele tiro que lhe estraçalhou a perna não passasse de uma fatalidade comum a qualquer conflito armado. A verdade é que, assim como as guerras não são, em última análise, um mal necessário, também aquela bala de canhão poderia simplesmente não ter acontecido.

O próprio peregrino nos relata que, àquela altura da batalha, “todos eram do parecer de que eles se entregassem, com a condição de que não fossem mortos, pois viam claramente que não podiam se defender” (Autobiografia). Não se tratava de covardia, mas de bom senso. Diante de uma desproporção evidente de forças, a rendição preservaria vidas. Ainda assim, diante de todas essas evidências, o jovem Íñigo permaneceu irredutível: “ele deu tantas razões ao governador da cidade, que o persuadiu à defesa, ainda que contra o parecer de todos os cavaleiros” (Autobiografia).

É o próprio Inácio quem reconhece ter agido contrariamente ao parecer de todos.

Ele não foi capaz de contemplar – como mais tarde nos ensinaria nos Exercícios Espirituais – os rostos vulneráveis de seus companheiros. Tampouco foi capaz de escutar o que diziam, nem de observar a desproporção entre o “que fazem as pessoas sobre a terra, como ferir e matar” (EE 108) e o que fazem “as pessoas divinas, a saber: ‘Façamos a redenção do gênero humano’” (EE 107).

Ensimesmado, o gentil-homem de Loyola perde sensibilidade. Seus afetos e sentidos se entorpecem por devaneios cavalheirescos e por seu próprio orgulho. Preferindo morrer em batalha a dar-se como vencido, Íñigo colocou em risco a vida de muitos, tornando-se responsável pelas mortes acarretadas com sua decisão. Por não se deixar tocar pela angústia do outro, Íñigo passou da insensibilidade à insensatez. Mas será a insensatez do cavalheiro de Loyola tão diversa da que vivemos hoje como humanidade?

No Sul do Sudão, na Ucrânia, em Gaza e, agora, no Irã, testemunhamos a ampliação de conflitos armados, a normalização de intervenções militares preventivas, a retórica de uma guerra necessária e a justificação de mortes civis como “efeitos colaterais” inevitáveis. Decisões tomadas unilateralmente expõem multidões à fome, ao deslocamento forçado, ao luto e ao medo permanente.

A nós cabe perguntar se seremos capazes de reconhecer que a atual crise global — marcada por guerras sucessivas, polarizações extremas e ameaças nucleares — não é fruto de fatalidade histórica, mas de escolhas políticas e morais. Ou aprendemos, como uma só família humana, a colocar a vida acima de qualquer projeto de hegemonia, ou seguiremos ao encontro de balas de canhão cada vez mais potentes e irreversíveis.

É necessário ler os sinais dos tempos. Não para dar um sentido ao sem sentido das guerras, mas para reconhecê-las como consequência de decisões marcadas por aqueles três princípios de morte desmascarados por Inácio na chamada “Meditação das duas bandeiras”. Princípios esses que, ainda hoje, marcam a ferro e fogo o modelo civilizatório ocidental. A saber, de como o “inimigo da nossa natureza humana” (EE 136) lança redes e cadeias; as quais “primeiro hão de tentar com cobiça de riquezas, como costuma, a maior parte das vezes, para que mais facilmente venham a vã honra do mundo e, depois, a grande soberba” (EE 142), prima-irmã da insensatez e da insensibilidade.

A batalha de Pamplona poderia não ter acontecido, mas aconteceu. Não se trata de justificá-la por ter tido como efeito a conversão de Inácio. Mas de tomá-la, enquanto insensatez consumada por parte de Íñigo, como princípio de discernimento. A pergunta agora é outra: o que faremos daqui em diante? Não basta afirmar que os atuais eventos marcarão um antes e um depois na história mundial. Também a vida de Inácio jamais foi a mesma depois da ferida. O fato de haver um evento que causa ruptura na história não significa que haverá conversão. O que está em jogo é o que faremos como humanidade diante da progressiva ruptura com os valores consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos e com os princípios de multilateralidade duramente conquistados após duas cruentas guerras mundiais.

Se, em sua Autobiografia, Inácio teve coragem de narrar fatos tão inglórios de sua vida, foi para testemunhar que Deus pode transformar a obstinação em discernimento e a insensatez em sabedoria. Sua história permanece como advertência e esperança: advertência quanto aos riscos de uma vontade que se impõe sem escuta; esperança de que mesmo as feridas causadas por nossas escolhas possam tornar-se ocasião de mudança.

Em tempo de Quaresma, vale recordar: conversão não é apenas mudança de circunstância; é mudança de direção. É deixar de voltar-se obsessivamente para si — ou para projetos de poder — e converter o olhar para Deus e para o rosto concreto das vítimas e pessoas mais vulneráveis. Enquanto humanidade, estamos diante de novas balas de canhão. Que não precisemos ser dilacerados por completo para aprender a discernir. Que o caminho aberto por Deus na vida de Inácio nos ensine a escutar antes de atacar, a ponderar antes de decidir, a colocar a vida acima da vitória. Somente assim a ferida poderá tornar-se fonte de sabedoria, jamais de repetição ou de justificação da violência.

Moisés Nonato Quintela Ponte, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

12/03/2026

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