Luiz Sureki, SJ
A associação entre o coelho e a Páscoa cristã é, à primeira vista, curiosa. Nas vitrines multiplicam-se coelhos e ovos de chocolate. O paradoxo é evidente: criatura vivípara, o coelho não põe ovos. O resultado é um símbolo híbrido, biologicamente absurdo, mas culturalmente persistente. A pergunta não é apenas por que o coelho aparece na Páscoa, mas por que se aceita com tanta naturalidade essa incongruência.
A Páscoa cristã celebra a vitória da vida sobre a morte ‒ a ressurreição de Jesus Cristo. Desde cedo, porém, essa festa entrou em contato com símbolos muito mais antigos de renovação da vida presentes em culturas agrárias. O ovo, por exemplo, não é apenas alimento: é uma metáfora quase universal de origem, promessa e potencialidade. O coelho, por sua vez, tornou-se emblema da fecundidade pela sua extraordinária capacidade reprodutiva. Na primavera do hemisfério norte, ambos representavam o retorno exuberante da vida após o inverno.
A cristianização desses símbolos não se deu por um gesto consciente de teólogos ou autoridades religiosas. Foi antes um processo cultural de sedimentação simbólica. A festa cristã encontrou um imaginário já carregado de significados ligados à fertilidade e à renovação natural e o reinterpretou dentro de seu horizonte de sentido. Não se trata, portanto, de uma relação teológica direta entre coelho e ressurreição, mas de um cruzamento entre fé e cultura popular.
A modernidade, contudo, produziu uma nova transformação desse imaginário. O símbolo foi progressivamente simplificado e domesticado. O coelho tornou-se mascote infantil, de olhos grandes e pelagem macia, perfeitamente ajustado à lógica do consumo. O que antes era um signo difuso de fertilidade natural converteu-se em figura comercial. A indústria cultural soube explorar com eficácia essa imagem: um animal fofo distribuindo ovos de chocolate possui um apelo irresistível.
Mas por que justamente o coelho permanece tão eficaz no imaginário infantil? Talvez porque reúna traços que despertam espontaneamente a ternura: o tamanho pequeno, o movimento saltitante, a aparência frágil. O coelho suscita cuidado. Ele pertence àquela categoria de animais que parecem feitos para serem protegidos. Nesse sentido, sua presença na festa revela também algo do universo simbólico da infância, onde a imaginação ainda não exige coerência biológica estrita.
Ao mesmo tempo, o coelho possui uma ambiguidade curiosa. Suas orelhas longas e vigilantes, seus olhos sempre abertos e sua rapidez para fugir sugerem uma existência atenta e vulnerável. É um animal delicado, mas persistente; frágil, mas extraordinariamente fecundo. Essa combinação paradoxal talvez explique sua força simbólica: ele não domina o mundo pela força, mas pela capacidade de multiplicar a vida.
O coelho na Páscoa acaba se tornando, assim, uma síntese simbólica improvável: fragilidade e abundância, doçura e vitalidade, vulnerabilidade e renovação. Para a criança, não há contradição em um coelho que distribui ovos coloridos. A imaginação aceita naturalmente aquilo que a lógica biológica rejeita. O adulto, por sua vez, raramente se detém para refletir sobre o que esse símbolo transporta.
Talvez seja justamente aí que se encontra seu interesse filosófico. O coelho da Páscoa não tem valor por aquilo que é biologicamente, mas pelo que culturalmente representa. Ele lembra ‒ ainda que de modo diluído ‒ uma intuição muito antiga: a de que a vida possui uma capacidade surpreendente de renascer.
Por trás da estética comercial dos chocolates permanece, portanto, uma intuição simbólica mais profunda. A primavera sucede ao inverno; o novo emerge do velho; a vida insiste onde parecia vencida. O coelho não é um animal teológico, mas uma metáfora natural que acabou se aproximando de uma festa religiosa cuja mensagem central é precisamente a vitória da vida.
Se essa reflexão tem algum valor, não é para exaltar coelhos, ovos ou a lógica comercial que hoje domina a estética da Páscoa, mas para recordar o seu sentido mais profundo. Ela não celebra um ciclo natural, mas anuncia algo ainda mais radical: que a vida não termina na morte, mas pode ser transformada. Nesse sentido, a promessa bíblica continua ressoando como horizonte último da esperança cristã: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5).
Luiz Sureki, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE
12/03/2026
