Desdobrável

advanced divider

Marília Murta de Almeida

Adélia Prado inaugura sua poesia pública com o poema “Com licença poética”, que é o primeiro de seu livro de estreia, Bagagem. Mulher madura, embora estreante, conclui assim seu poema em que brinca com o famoso “Poema de sete faces”, de Drummond:

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

 

Com alegria ancestral e tristeza vira-lata, a mulher desdobrável de Adélia me povoa a imaginação neste mês de março tão cansativo. Denúncias quase diárias de violências cometidas contra mulheres marcaram as celebrações do Dia Internacional da Mulher, que para muitas deveria ser renomeado como o Dia internacional da luta contra a violência à mulher. Deste modo, se explicitaria o fato de que não se trata de celebrar, mas sim de se solidarizar. Não há mérito nenhum em ser mulher, como não há mérito em ser homem, de modo que felicitações soam muito estranhas a muitos ouvidos.

Os repetidos atos de violência escancararam o desconforto em celebrar um dia estranho em que não sabemos bem o que dizer. A mim, acometeu um cansaço com raízes que vão às minhas mil avós, quase sobrepujando a alegria ancestral que Adélia celebra e que reconheço também em mim. Junto ao cansaço, uma vontade infinita de silêncio. Uma voz ao longe, quase inaudível, só dizendo: parem de nos machucar, nos deixem em paz.

Deixar em paz, em nossa língua cotidiana, muitas vezes quer dizer deixar sozinha. Me deixem sozinha e em silêncio, meu corpo pedia. Todavia, por desdobrável, acabou voltando também a vontade de falar. Escrevo este texto como quem fala com voz bem baixa para não matar de vez a alegria.

Paralelemente às notícias de atos violentos que não cessam, temos a notícia e o debate quase sempre sem medida em torno da eleição da deputada Erika Hilton como presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara Federal. Cargo que, nas esferas estadual e municipal, já foi muitas vezes ocupado por homens sem que a discussão tenha aparecido com a ênfase da atual. Ou seja, a discussão em torno de Erika tem mais a ver com transfobia do que realmente com a ideia de representatividade. E, por trás da transfobia, está a pergunta sobre o que é uma mulher.

Essa pergunta aprofunda em mim o cansaço gerado pela sequência de atos violentos. Gostaria de ver um debate sobre o que é um homem, sem que se descambe imediatamente para questões universais sobre o ser humano. Mas gostaria também de dizer que uma mulher é um ser humano que sofre um tipo específico de violência que é fruto de uma longa história em que um outro tipo de seres humanos se sobrepôs como dominador e construtor de sistemas éticos em que os dominados têm sua conduta – especialmente a sexual – controlada. O nome comumente dado a este controle é machismo, que caminha junto com sua parceira, a misoginia. O que quer dizer que esses seres humanos controlados são também percebidos como aversivos, em alguma medida, mesmo quando são objetos do desejo sexual dos dominadores.

Mulheres seriam então, por definição, aqueles seres humanos que são vítimas do machismo, do mesmo modo em que poderíamos dizer que pessoas racializadas são aquelas que são vítimas do racismo. Quando não houver mais racismo, a própria ideia de raça perderá sua importância. Do mesmo modo, quando não houver mais machismo, a barulhenta questão a respeito da definição de mulher será esvaziada.

Por enquanto, podemos nos desviar da questão e passar por atalhos que nos permitem movimentos livres mesmo quando tentam nos aprisionar. Talvez seja isso ser desdobrável: abrir infinitamente uma nova dobra quando pareciam ter nos aprisionado em um modelo ou em um cárcere concreto. Desdobrar-se seria, assim, libertar-se. Os homens, de outra parte, seriam sujeitos à maldição de ser coxo na vida por não saberem desdobrar-se.

Todavia, a aprendizagem da libertação não é exclusividade das mulheres. Sou um ser humano desdobrável por não me deixar aprisionar em categorias fixas. Sou uma pessoa desdobrável por suportar a inconstância da vida que requer de mim sempre um novo modo de existir para acompanhar seus compassos também sempre novos. Quando as prisões são mais explícitas, aprendemos mais rápido. Mas lentamente também se aprende.

Sou um ser humano desdobrável porque ser desdobrável faz parte de ser um ser humano. Quando não houver mais o machismo, seremos todos desdobráveis.

Marília Murta de Almeida é professora e pesquisadora no departamento de Filosofia da FAJE

26/03/2026

Foto: Shutterstock

...