“Fazedores de paz” num mundo de guerras!

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Pe. Jaldemir Vitório SJ

A bem-aventurança evangélica – “felizes os fazedores de paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9) – foi proclamada num contexto semelhante ao atual. O poder hegemônico da época estava nas mãos dos romanos que construíram um Império pela força de seu poderoso exército, que massacrava quem ousava se lhes opor. Consolidou-se, então, a chamada pax romana! Paz significava ausência de guerras e conflitos porque, onde surgia alguma conflagração armada entre povos ou contra os romanos, o exército imperial intervinha e se impunha pela forma militar. Essa falsa “paz” durou duzentos anos, de 27 a.C. até 180 d.C. Algo semelhante parece estar presente no horizonte das intervenções dos Estados Unidos da América, em qualquer conflito internacional que ameace seus interesses financeiros, geopolíticos, militares, enfim, sua pretensão questionável de serem os proprietários do Planeta Terra. Afinal, teriam em mente construir a pax americana, por se considerarem o poder hegemônico mundial de plantão?

O texto grego da bem-aventurança evangélica usa a palavra composta eireno+poioí. A primeira parte é um substantivo, que se traduz por “paz” (eirene); a segunda trata-se do verbo “fazer” (poiéo). Portanto, a paz não cai do céu, como presente divino; antes, resulta do empenho de pessoas de boa-vontade, que se dispõem a construi-la (fazê-la), em nome da fé. Sem colaboração humana, a paz anunciada por Jesus de Nazaré jamais acontecerá. Quem a espera de braços cruzados se frustra!

O sentido do vocábulo paz, na expressão pax romana, segue a direção contrária da paz resultante da pertinácia dos discípulos de Jesus, que “serão chamados filhos e filhas de Deus”. No primeiro caso, se limita ao banimento das guerras pela imposição de quem tem mais poderio bélico. No segundo, tem a ver com o shalom bíblico que, com a justiça (Sl 85,11 – “justiça e paz se beijam”), implica prosperidade para todos, sem discriminação; respeito à dignidade de cada ser humano; cuidado com os mais fragilizados; esforço de perdoar e viver reconciliado; superação dos preconceitos, das tiranias, dos sectarismos, da exploração do próximo, enfim, da abolição das guerras e dos conflitos produtores de sofrimento e morte de vítimas inocentes. Torna-se necessário, em nossos dias, ligar a paz-shalom com a justiça socioambiental, entendida como Ecologia Integral, bandeira permanente no pontificado do Papa Francisco.

A concepção de paz-shalom contrapõe o Reino de Deus ao Reino de César. A força da compaixão e da misericórdia sobrepõe-se ao poder das armas, até as mais sofisticadas e assassinas. Nós, discípulos de Jesus de Nazaré, somos desafiados a caminhar na contramão das ideologias dos césares de hoje que insistem em seguir as pegadas dos césares romanos do passado. Eis porque, causa estranheza ver na mídia imagens de autoproclamados cristãos felizes com a precisão com que as bombas estadunidenses acertaram alvos iranianos e causaram destruição e morte. Ou se declaram pró-Israel, justificando os crimes hediondos praticados por sua liderança sanguinária. Igualmente, estaria errado o cristão que se alinhasse com o lado iraniano e lhe exaltasse a coragem de resistir e surpreender quem lhe subestimava a capacidade de reagir, colocando-se em pé de igualdade com seus agressores.

O Papa Francisco foi batalhador incansável pela paz-shalom. Com palavras e gestos proféticos bateu na tecla da necessidade de as nações encontrarem vias de diálogo e entendimento, por meio da diplomacia e dos organismos internacionais, de modo a serem evitados conflitos geradores de sofrimento e morte incompatíveis com o mundo civilizado. Em reiteradas ocasiões, alertou que a Terceira Guerra Mundial já havia começado, porém, “aos pedaços”. “Há alguns anos eu digo que estamos vivendo a Terceira Guerra Mundial em pequenos pedaços, em capítulos”, declarou em 2022. Extremamente fragilizado, bem próximo da morte, desde o hospital, em 18 de março de 2025, endereçou uma carta ao diretor de um renomado jornal italiano, onde reconhece que “as religiões podem se valer da espiritualidade dos povos para reacender o desejo da fraternidade e da justiça, a esperança de paz”. Dirigindo-se a um não crente, recordava como a fé tem o poder de gerar construtores de paz.

O ensinamento de Jesus de Nazaré, atualizado e reforçado pelo Papa Francisco, deve tocar nossas consciências e nos convencer da missão batismal de sermos “fazedores de paz”, de paz-shalom. O sofrimento dos inocentes; o grito desesperado dos que perdem tudo, incluindo entes queridos; o drama dos que são obrigados a fugir rumo ao desconhecido; o bombardeamento de infraestruturas hospitalares, educativas e de assistência aos mais pobres; a destruição do meio-ambiente e tantas outras crueldades não podem passar despercebidos para nós, enquanto discípulos e discípulas do Reino. Antes devem afetar nossas consciências e nos convencer de lançar mão do que está ao nosso alcance para efetivar a missão de “fazedores da paz”. Só então estaremos em condições de ser chamados e, de fato, sermos, filhos e filhas de Deus!

Jaldemir Vitório SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

26/03/2026

Foto: Shutterstock

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