Luiz Sureki, SJ
As lágrimas não se perdem na chuva. Misturam-se a ela, assumem suas propriedades, tornam-se parte de um ciclo maior. Os pingos da chuva não se perdem no oceano; integram-se a ele. Talvez essa imagem simples nos permita pensar algo mais decisivo: e se também o tempo não se perdesse? E se os instantes não fossem simplesmente dissolvidos no nada, mas integrados a uma totalidade mais ampla?
A experiência humana é atravessada pela consciência da passagem. O tempo escorre. Os momentos desaparecem. As gerações sucedem-se. Tudo parece destinado ao esquecimento. A morte parece selar definitivamente o destino do que foi vivido.
Mas talvez o problema esteja na maneira como pensamos o tempo e a eternidade. Se imaginamos a eternidade como um “depois” infinito que substitui o tempo, então a relação entre ambos parece excludente: o temporal termina para que o eterno comece. Comece? No tempo? Que tipo de começo não seria temporal?
Entretanto, outra possibilidade se abre quando concebemos a eternidade não como negação do tempo, mas como sua plenitude.
Foi nessa direção que Raimon Panikkar propôs o termo “tempiternidade”: a coimplicação do tempo e do eterno. O eterno não estaria fora do tempo como um bloco imóvel, mas presente como sua profundidade. O tempo não seria eliminado, mas assumido. Não aniquilado, mas integrado.
Se assim for, a salvação não significaria fuga da temporalidade, mas sua participação numa dimensão mais vasta. O instante não seria apagado; seria recolhido. A história não seria descartada; seria transfigurada.
Essa intuição encontra eco em diversas tradições religiosas, ainda que sob linguagens distintas. O que muda são os símbolos; o que permanece é a esperança de que o vivido não é vão. Mas o que poderia realizar essa integração? O que poderia unir o temporal ao eterno sem dissolver um no outro?
Talvez a resposta esteja no amor.
Se Deus ‒ o eterno ‒ é amor, como afirma a Primeira Carta de João, e se o ser humano é imagem e semelhança de Deus, como proclama o Gênesis, então nossa capacidade de amar não é um detalhe psicológico, mas participação numa realidade mais profunda. Amar é sair de si, é abrir-se ao outro, é integrar diferenças sem anulá-las.
O amor possui uma estrutura que espelha essa integração: ele une sem confundir e distingue sem separar. Nele, o tempo não desaparece; ganha densidade. Um instante amado não é apenas um segundo cronológico; torna-se memória viva, marca indelével. O amor resiste ao desgaste do tempo porque participa de algo que o ultrapassa. Nesse sentido, o amor carrega em si uma qualidade de permanência. O que foi verdadeiramente amado parece não se dissolver no fluxo indiferente dos acontecimentos.
Participar no todo não é diluir-se no indistinto. É ser integrado sem perder identidade. Como a gota no oceano não deixa de ser água, mas passa a participar da imensidão do mar, assim também o humano poderia participar do eterno sem deixar de ser ele mesmo. Deste modo entender-se-ia que salvação não é aniquilação, nem mera sobrevivência individual isolada. É comunhão. É inserção plena numa totalidade relacional onde o tempo encontra sua profundidade e o eterno se manifesta como amor/relação/espírito.
Entre essa intuição de participação e a esperança escatológica cristã, a Ressurreição de Jesus Cristo apresenta-se não como um episódio isolado, mas como o evento paradigmático da relação entre o temporal e o eterno. Páscoa significa “passagem”: não o retorno de um morto à mesma vida anterior, mas a transfiguração da existência. A Ressurreição do Jesus Crucificado revela que a comunhão com Deus não dissolve a singularidade, mas a cumpre em plenitude, inaugurando uma nova modalidade de existência, na qual identidade e relação, finitude e eternidade, não se excluem, mas se integram.
Em última instância, o que verdadeiramente esperamos é a plenitude da vida: uma vida transfigurada, integrada, reconciliada consigo mesma, com a totalidade do real e com Deus.
“Porque nele [em Deus] vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28).
Luiz Sureki, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE
26/03/2026

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