Entre fé e poder: o analfabetismo teológico no ataque ao Papa Leão XIV

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Washington Paranhos, SJ

O analfabetismo teológico de J. D. Vance, vice-presidente dos EUA, no ataque ao Papa Leão XIV, revela uma crise que vai além da diplomacia, atingindo o cerne da identidade cristã no exercício do poder. A tensão, desencadeada após as críticas diretas do presidente Trump ao Pontífice, expõe uma tentativa perigosa de subordinar o Evangelho à estratégia política. Quem realmente conhece Agostinho não o cita em defesa própria; submete-se a ele. O De Civitate Dei não é um manual de política externa, mas uma anatomia do pecado estrutural nas instituições humanas, incluindo a guerra. Quando Vance se permite sugerir ao Papa que “tenha cuidado ao falar de questões teológicas”, ele não demonstra cultura, mas a presunção típica de quem leu alguns compêndios e acredita ter compreendido o mestre, ignorando que a teoria da guerra justa, sistematizada por Tomás de Aquino, exige condições rigorosas como a intenção reta e o último recurso.

Tomás não hesitaria: uma guerra fundamentada na eliminação sistemática e indiscriminada do adversário mediante emboscada tecnológica não satisfaz a nenhuma dessas condições. A história do magistério católico percorreu um caminho que Vance e a atual administração ignoram: desde Bento XV denunciando a guerra como tragédia, até o Concílio Vaticano II declarar que armas de destruição indiscriminada transcendem a legítima defesa. O drone, essa emboscada aperfeiçoada pela técnica que atinge sem risco para o agressor e sem chance de rendição para a vítima, é estruturalmente incompatível com a animi moderatione exigida por Agostinho.

Neste cenário de “delírio de onipotência” e “discursos de morte” denunciados pelo Papa Leão XIV em seu Rosário pela Paz, fica evidente que a prepotência pisa enquanto o amor eleva. Ao contrário da idolatria que cega, o Papa nos convida a erguer o olhar das ruínas, alertando que nada nos pode fechar em um destino já escrito, nem mesmo um mundo onde se continua a crucificar a vida sem direito e sem piedade. Um convertido sério estuda antes de corrigir o Papa; Vance, ao contrário, confundiu convicções ideológicas com a tradição teológica, incorrendo na ignorantia affectata: a ignorância que se escolhe porque a verdade seria incômoda. Para um cristão, essa postura de fazer de si mesmo e do próprio poder um ídolo mudo, cego e surdo, ao qual se sacrifica todo valor, já é o limiar do pecado. Enquanto a guerra divide e a idolatria cega, o chamado da Igreja permanece firme: quem prega tem consciência do próprio limite e não arrasta o Nome santo de Deus para justificar a aniquilação do outro.

Esse analfabetismo teológico, contudo, não é um fenômeno isolado nem exclusivo de figuras públicas como J. D. Vance. Ele revela uma ruptura mais profunda entre fé e inteligência da fé, onde categorias complexas da tradição cristã são reduzidas a slogans ideológicos ou instrumentalizadas para legitimar projetos de poder. Trata-se de uma ignorância que não decorre da simples ausência de formação, mas de uma relação distorcida com a verdade: não se busca compreender para crer, mas selecionar o que convém para justificar previamente decisões tomadas. Nesse sentido, o problema não é apenas a má leitura de Agostinho de Hipona ou de Tomás de Aquino, mas a incapacidade de reconhecer que a tradição cristã exige conversão intelectual e moral contínua. Quando a teologia deixa de ser um exercício de escuta e se torna instrumento de autoafirmação, ela perde sua natureza e se converte em ideologia religiosa.

Esse alerta ressoa com especial urgência no contexto brasileiro, onde também se observa, em diversos níveis, uma preocupante superficialização do discurso teológico. Em ambientes eclesiais, políticos e midiáticos, cresce a tendência de absolutizar opiniões particulares, revestindo-as com uma linguagem religiosa que, muitas vezes, carece de fundamento sólido na Escritura e na Tradição. A fé, assim, corre o risco de ser capturada por narrativas polarizadas que obscurecem o discernimento evangélico. Tal cenário exige uma resposta que vá além da denúncia: é necessário recuperar a seriedade da formação teológica, a centralidade do Magistério e o primado da consciência iluminada pela verdade. Caso contrário, o analfabetismo teológico deixará de ser apenas um problema de figuras públicas e se tornará uma patologia difusa no corpo eclesial, comprometendo a credibilidade do testemunho cristão em uma sociedade já marcada pela desconfiança e pela fragmentação.

Diante desse cenário, a palavra do magistério recente não apenas ilumina, mas também julga e orienta. Ao recolocar o olhar cristão no horizonte da esperança e da verdade, o Papa Leão XIV oferece um critério decisivo de discernimento diante das tentações de absolutização do poder e da violência travestida de justiça:

Fica o alerta para quem confia e vive em Deus: “A guerra divide, a esperança une. A prepotência pisoteia, o amor eleva. A idolatria cega, o Deus vivo ilumina […]. Ergamos, então, o olhar! Levantemo-nos das ruínas! Nada pode nos encerrar em um destino já escrito, nem mesmo neste mundo em que os sepulcros parecem não ser suficientes, porque se continua a crucificar, a aniquilar a vida, sem direito e sem piedade.

[…] Temos aqui uma barreira contra esse delírio de onipotência que, ao nosso redor, torna-se cada vez mais imprevisível e agressivo. Os equilíbrios na família humana estão gravemente desestabilizados. Até mesmo o Nome santo de Deus, o Deus da vida, é arrastado para discursos de morte.
[…] Quem reza tem consciência do próprio limite, não mata e não ameaça com a morte. Em vez disso, está escravizado à morte quem deu as costas ao Deus vivo, para fazer de si mesmo e do próprio poder o ídolo mudo, cego e surdo (cf. Sl 115, 4-8), ao qual sacrifica todo valor e exige que o mundo inteiro dobre o joelho”. (Leão XIV, Rosário pela paz, 11 de abril de 2026)

Pe. Washington Paranhos, SJ é professor na PUC Rio e diretor do Centro Loyola de Fé e Cultura do RJ

Foto: Vatican News

 

 

 

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