Marília Murta de Almeida
A personagem Lóri, protagonista do romance Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de Clarice Lispector, vive a travessia de um estado de dor latente que a faz tentar se anestesiar para um outro em que a experiência de viver está desperta e a dor, se estiver presente, está de modo inteiro, sem anestesia. E, junto com a dor, a novidade da alegria e da fruição do viver. Por isso o livro da aprendizagem é também o livro dos prazeres.
Ao final da travessia – da aprendizagem e do livro –, a narradora nos diz assim sobre Lóri:
Quanto duraria esse estado? Percebeu que com essa pergunta estava apalpando seu pulso para sentir onde estaria o latejar dolorido de antes.
E viu que não havia o latejar da dor como antigamente. Apenas isso: chovia fortemente e ela estava vendo a chuva e molhando-se toda.
Que simplicidade.
Nunca imaginara que uma vez o mundo e ela chegassem a esse ponto de trigo maduro. A chuva e Lóri estavam tão juntas como a água da chuva estava ligada à chuva.
A imagem do trigo maduro me povoa há muito tempo. Lóri e o mundo estão, inesperadamente para ela, em “ponto de trigo maduro”. Ponto de prontidão entre um e outro. O trigo maduro, pronto a ser colhido e transformado em pão. Lóri e o mundo, prontos a se entregarem como o pão é ofertado. Ponto de fruição em que a dor se ausenta e lá onde era sentida o que Lóri encontra é apenas a experiência vivida: olha a chuva e se molha, tão junto à chuva quanto a própria água da chuva.
Estar com o mundo em ponto de trigo maduro é então para Lóri como estar junto à chuva, tal como a água. Há profunda inerência entre Lóri e o mundo. E isso é percebido como simplicidade.
A complexidade humana de repente encontra a inesperada simplicidade, traduzida como encontro. No desenvolvimento do romance, logo depois dessa experiência, Lóri vai ao encontro de Ulisses, seu par desde o início da travessia. O homem que tinha dito que ela deveria aprender alguma coisa e que esperou pacientemente por isso, mesmo sem saber ao certo o que ela aprendia. Quando finalmente se encontram para realizar a prometida entrega amorosa e sexual, Lóri, ao adormecer junto a Ulisses, sonha “vendo que a fruta do mundo era dela”, e que “era uma fruta enorme, escarlate e pesada que ficava suspensa no espaço escuro, brilhando de uma quase luz de ouro. E que no ar mesmo ela encostava a boca na fruta e conseguia mordê-la, deixando-a, no entanto, inteira, tremeluzindo no espaço”.
Sonhando, Lóri come a fruta do mundo e ela não diminui, permanece inteira. Lóri frui a experiência de viver no prazer e sente que a fonte do prazer não diminui, assim como ela e Ulisses se amam e continuam inteiros. O amor desdobrado vai de si ao mundo, a Ulisses e de volta a si mesma.
Teologicamente, poderíamos reconhecer aí imagens da redenção, ainda mais ao ler que Lóri se dirige assim a Deus, um pouco antes de adormecer: “‘Deus’, pensou ela, ‘então era isso o que parecias me prometer’”. Entendendo assim, vemos como Clarice Lispector constrói uma figuração em que o ápice da experiência humana seria a fruição do mundo em estado de entrega recíproca.
Lóri e Ulisses, Lóri e a chuva, Lóri e o mundo, o trigo maduro, Lóri e a fruta do mundo vistas em sonho, a chuva e a água da chuva – todas essas são imagens girando em torno da figura da junção, ou da entrega. A chuva e a água da chuva, imagem que serve de atalho compreensivo para o que a narradora quer dizer sobre o quanto Lóri e a chuva estão juntas, são logicamente inerentes uma à outra. Quase poderíamos dizer que é uma imagem vazia, apenas uma tautologia. Mas se a aceitamos e entramos nela, vislumbramos a inerência entre uma coisa e o que a compõe. E é, portanto, isso que a imagem quer nos mostrar em relação a Lóri e a chuva, que é uma versão de Lóri e o mundo.
Lóri e o mundo estão juntos em estado de inerência: o mundo compõe o que Lóri é e vice-versa. E, nesse estado, ela pode comer a fruta do mundo, que agora é sua, e ela permanece inteira depois de comida. Imagem intensa sobre o que seria a fruição vital do mundo: Lóri come a fruta, que é do mundo e é sua, e ela não é destruída e nem diminuída, permanecendo oferta para o mundo e para Lóri. No estado de trigo maduro, as criaturas se comem sem se diminuírem.
Se essa oferta for a oferta do amor, promessa do Deus que ama, vislumbramos um estado de coisas em que já não haveria o medo provocador das distâncias entre nós e o mundo. Reino em que a fruta do mundo é a imagem da oferta infinita do amor que rege as relações. Tempo de fruição em que a madurez do trigo nos ensina a entrega.
Sem susto, Lóri nem agradece, pois “a chuva não era grata por não ser dura como uma pedra: ela era a chuva”. Nesse estado e nesse tempo, cada ser é o que é e frui a existência junto a todos os outros seres.
Marília Murta de Almeida é professora e pesquisadora no departamento de Filosofia da FAJE
23/04/2026

Foto: Shutterstock