Da cultura de massa à cultura dispersa: ainda existe um centro comum?

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Bruno Pettersen

No início do século XX, com as transformações técnicas da reprodução da arte, houve um fenômeno que, até então, não tinha acontecido dessa forma: um acesso muito mais plural à música, ao cinema e à literatura. Antes disso, costuma-se dizer que em nenhum momento da história esse tipo de acesso cultural tinha acontecido com essa amplitude.

O rádio, por exemplo, popularizou a música, mas não só isso, ele também centralizou a maneira pela qual a música era disseminada. Passou a definir quais músicas circulavam, quais vozes ganhavam espaço e como essa circulação acontecia. O cinema fez algo semelhante. Ele não apenas contou histórias, mas determinou formas de linguagem, estabeleceu padrões de representação e até mesmo influenciou técnicas fotográficas que passaram a ser reproduzidas em larga escala.

Ao mesmo tempo, no início do século XX, uma população cada vez mais alfabetizada passou a ter acesso à literatura. Obras que antes eram restritas a um público muito específico começaram a circular de forma muito mais ampla. Com a facilidade de tradução e o barateamento dos livros, pessoas em diferentes lugares passaram a ler as mesmas obras.

A música deixou de depender de espaços como casas de ópera ou salões privados. A literatura deixou de ser algo acessível apenas a poucos. E o cinema consolidou a contação de histórias por meio da imagem, de uma forma que rapidamente se tornou dominante.

Esse processo foi bem analisado pela Escola de Frankfurt, especialmente por Theodor Adorno e Max Horkheimer, na Dialética do Esclarecimento. A leitura deles é conhecida: a indústria cultural transforma a arte em mercadoria, padroniza a produção e reduz a experiência estética a algo mais passivo.

O problema é que essa leitura, pelo menos na forma como foi colocada, parece assumir uma posição bastante restritiva sobre o que conta como arte. Há ali uma tendência a considerar como arte legítima apenas um tipo muito específico de produção, enquanto aquilo que é feito para o grande público, muitas vezes com objetivo de lucro, é tratado como algo inferior, quase como um resíduo cultural. Isso, no limite, desconsidera a própria experiência real das pessoas com esses produtos. Em minha própria imagem desses autores, eles tornam a arte algo apenas elitista, quase num desejo erudito de retornar ao modelo anterior ao século XX.

De todo modo, o fato é que, ao longo do século XX, formou-se algo que se aproxima de uma cultura compartilhada, especialmente no Ocidente. Pessoas de uma mesma faixa etária passaram a ter referências muito semelhantes. Se alguém assistia Thundercats, era muito provável que os amigos também assistissem. Se aqui no Brasil uma criança escutava Balão Mágico, outras crianças também escutavam. Em outro nível, bandas como The Beatles se tornaram referências praticamente globais. Adultos hoje, com idades próximas, reconhecem mais ou menos o mesmo conjunto de referências que tinham na infância.

Essa cultura não veio só dos Estados Unidos, embora eles tenham tido um papel dominante. Houve também a circulação de produções japonesas, como animes e também da grande influência dos chamados Tokusatsu além de produções francesas e belgas. Um exemplo europeu importante é o desenho em quadrinho Tintim, que chegou ao Brasil e passou a fazer parte desse repertório. Mas em um país como o Brasil, é inegável o impacto quase universal da cultura norte-americana, tendo esse movimento criado uma sensação forte de que existia uma espécie de “cultura centralizada”, como se houvesse um núcleo comum de referências no qual as pessoas podiam se apoiar. Uma espécie de “cultura universal”.

Com a entrada da internet, esse cenário muda de forma bastante radical.

Hoje, a diversidade possibilitada pelas redes é imensa, sendo possível acessar obras completamente diferentes, feitas em tempos e locais díspares. Uma pessoa pode escutar rock, como The Beatles, e, ao mesmo tempo, se entreter com produções extremamente experimentais como Angine de Poitrine. O acesso não depende mais de um canal centralizado. Em serviços de streaming de música podemos ter acesso a tudo aquilo que o catálogo deles permite, e em serviços “não exatamente legais”, a praticamente tudo o que já foi e é produzido.

Isso dá a impressão de que a cultura se fragmentou completamente. Mas essa conclusão é rápida demais. Tenho dois pontos que desejo considerar: há ainda um aspecto profundamente “universal” na cultura ocidental e o mito de uma universalidade cultural não passa de uma invenção europeia.

Meu primeiro ponto é: ainda existem formas de universalidade, representada por memes e produções audiovisuais, sendo apresentadas de uma forma menos centralizada. Um exemplo disso são os memes infantis-adolescentes. O meme “Six Seven”, por exemplo, circulou amplamente entre crianças e adolescentes entre 2025 e 2026, tendo sido largamente feito por todo o ocidente e até pelo capitão da nave Ártemis II. Independentemente da origem ou do significado preciso, ele foi reproduzido em diferentes contextos, criando um tipo de reconhecimento comum. É curioso o fato de que crianças, em viagens internacionais, eram capazes de se comunicar umas com as outras sem qualquer outra mediação além do meme.

Outro exemplo são produções digitais, mas que se tornam globais. Como o caso do criador russo Alexey Gerasimov, com a série “Skibidi Toilet”, feita com assets do jogo Half-Life. São vídeos com centenas de milhões de visualizações, conhecidos por crianças do mundo inteiro. O caso dessa série me é muito interessante: é uma série de vídeo, sem uma língua própria, feita a partir de uma estética que mistura percepções russas e norte-americanas, assistida por crianças e jovens pelo mundo inteiro. Pode ser que muita gente mais velha não conheça, mas isso não muda o fato de que há ali uma referência compartilhada por toda a juventude que crescerá conhecendo o Titan Cameraman.

Além disso, a internet universaliza formas. Mesmo quando não se sabe qual é a música mais famosa, existe um reconhecimento da estética dominante: a forma de gravar vídeos, a maneira de editar, o tipo de expressão, o modo de se vestir. Tudo isso circula de maneira muito rápida. Então, em certo sentido, ainda existe uma cultura bastante universal. Só que ela é muito mais dinâmica, menos estável e, em alguma medida acessada até mais fortemente do que no passado.

O meu segundo ponto é mais incômodo: antes do século XX, provavelmente nunca houve uma cultura universal nesse sentido. Cada lugar desenvolvia suas próprias formas culturais com demandas específicas. Mesmo dentro de um país, havia diferenças muito grandes entre regiões: a arte do norte do Brasil por vezes era completamente diversa da arte do Sul. Essa ideia de uma “cultura compartilhada” foi apenas uma invenção do século XX e popularizada, enquanto uma ideia, por autores como Adorno.

Isso significa que aquilo que foi vivido no século XX como uma cultura centralizada talvez tenha sido uma exceção histórica, e não a regra. Nesse sentido, a internet não destrói uma cultura universal. Ela desmonta um modelo específico de centralização e abre espaço para uma pluralidade maior, que embora permita alguma centralização, também permite uma pluralidade, claro que com enorme dificuldade de acesso, a produções que rompem barreias estéticas e intelectuais.

Nesse sentido, não se trata de escolher entre uma cultura global ou uma cultura fragmentada. O que existe é uma tensão constante entre centralização e dispersão. A cultura contemporânea é, ao mesmo tempo, profundamente fragmentada e, ao mesmo tempo, amplamente compartilhada. Basta apenas descermos do pedestal intelectual da visão erudita europeia e perceber que o mundo é muito maior.

Bruno Pettersen é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE

30/04/2026

Foto: Shutterstock

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