Quando a vida nos ensina

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Luiz Sureki, SJ

“A vida me ensinou que a gente é esquecida em vida e lembrada na morte!”

Essa frase pode soar amarga, mas contém algo de verdadeiro. Muitos atravessam a vida quase invisíveis, sem grandes elogios ou homenagens. No entanto, quando partem, surgem discursos emocionados, palavras de gratidão, elogios que raramente foram pronunciados enquanto estavam vivos.

Isso acontece porque a vida cotidiana nos absorve demais. Estamos ocupados demais, distraídos demais, preocupados demais com nossos próprios assuntos para perceber o valor das pessoas que caminham ao nosso lado.

Com o tempo, porém, aprendemos outra lição ainda mais silenciosa: a memória humana é curta. Há uma frase que diz: “um dia, seremos apenas um retrato numa parede; e, depois de algum tempo, talvez nem isso”. A lembrança afetiva raramente ultrapassa a geração dos avós. Sabemos quem foram nossos pais e avós; os bisavós já se tornam nomes vagos, quando não desaparecem completamente da memória.

À primeira vista, essa constatação pode parecer triste. Mas talvez ela esconda uma forma de sabedoria. O filósofo romano Sêneca observava que não é a vida que é curta, mas o modo como a desperdiçamos. Passamos anos ocupados com preocupações pequenas, disputas passageiras, ambições que o tempo inevitavelmente dissolverá.

Também Pascal percebia algo semelhante quando dizia que os seres humanos vivem constantemente distraídos para não enfrentar a fragilidade da própria condição. Fugimos do silêncio e da reflexão porque tememos reconhecer quão breve e incerta é a vida.

No fundo, a questão não é ser lembrado, mas ter vivido de maneira significativa.

Com efeito, o bem realizado raramente aparece nos livros de história. Não recebe medalhas nem aplausos públicos. Muitas vezes nem sequer é lembrado. No entanto, ele possui uma força silenciosa: continua a produzir vida mesmo quando ninguém sabe mais quem o praticou.

Há ainda outra lição escondida nesse reconhecimento da nossa fragilidade e do esquecimento inevitável que nos espera. Se a vida é breve e a memória humana limitada, então cada instante vivido possui um valor maior do que imaginamos. Cada gesto de bondade, cada palavra de encorajamento, cada ato de cuidado pode tornar-se um pequeno ponto de luz no caminho de outra pessoa. Muitas vezes não sabemos quanto um gesto simples ‒ uma escuta paciente, uma presença silenciosa, uma palavra justa ‒ pode transformar o dia ou até a vida de alguém.

Por isso, a frase com que começamos ‒ “a vida me ensinou que a gente é esquecida em vida e lembrada na morte” ‒ precisa também ser compreendida com mais cuidado. Muitas vezes, de fato, as homenagens que aparecem na ocasião da morte têm algo de tardio e até de teatral. Dizem-se palavras que poderiam ter sido ditas antes, reconhecem-se virtudes que poderiam ter sido apreciadas enquanto a pessoa ainda estava viva.

Não obstante, nem toda memória é apenas encenação. Quando alguém é lembrado depois da morte porque sua vida deixou marcas de bondade, cuidado e generosidade, essa lembrança já não é simples formalidade social. Torna-se sinal de que o amor vivido continua produzindo vida. Nesse caso, a memória não celebra apenas um nome que passou, mas testemunha a força silenciosa de um bem que permanece.

É justamente aí que a memória humana toca algo mais profundo. Quando os cristãos fazem memória de Jesus Cristo na celebração eucarística, não recordam apenas um acontecimento distante no tempo. Testemunham que o amor vivido por ele permanece atual e fecundo no mundo. A memória torna-se presença, e a lembrança torna-se vida partilhada.

Se Deus é amor, como afirma a tradição cristã, então a imagem e semelhança que o ser humano possui em relação a Deus manifesta-se precisamente na sua capacidade de amar. Por isso, a distinção mais profunda entre os seres humanos não se estabelece entre os que creem e os que não creem ‒ não é uma questão doutrinal-dogmática ‒, mas entre aqueles que aprendem a amar e aqueles que permanecem fechados ao amor.

No fim, quase tudo passa ‒ os aplausos, as críticas, os sucessos e os fracassos. O que permanece é o amor que deixou marcas na vida dos outros.

“Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor” (1Cor 13,13).

 

Luiz Sureki, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE

30/04/2026

Foto: Shutterstock

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