A lista em meio ao correr da vida

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Dra. Rosana Araujo Viveiros

Sempre me inquietou aquela frase de Guimarães Rosa: “o correr da vida embrulha tudo; a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Ultimamente, porém, ela tem falado ainda mais alto dentro de mim, justamente quando olho para tantas conquistas e avanços que o ser humano alcançou.

É curioso como a cada nova conquista quase sempre vem junto a promessa: “isso vai facilitar a nossa vida”, “vamos ter mais tempo”, “tudo ficará mais otimizado”. Ainda assim algo parece escapar por entre os dedos. Confesso que não sou uma mulher moderna no sentido de aderir a tudo que surge como o “novo indispensável”. Nem me convence facilmente o discurso de que “agora precisamos disso”. Como boa mineira, fico com um pé atrás… e um coração que matuta.

Fico pensando nessas urgências que nos atravessam: “precisamos fazer isso”, “temos que ter aquilo”… E não é falta de admiração, pelo contrário, vibro com a nossa capacidade criativa, que carrega algo do sopro do Criador, Aquele que chama à existência o que antes não era (cf. Gn 1). Ainda assim uma pergunta insiste em me visitar: se temos tantos meios para ganhar tempo… por que parece que temos cada vez menos tempo?

Quando faço os trabalhos domésticos gosto de ouvir música e outro dia ouvi aquela de Oswaldo Montenegro – a lista. E ela me atravessou inteira. Não só pela melodia, mas porque, como diria Ricoeur, “deu o que pensar”. “Faça uma lista de grandes amigos, quem você mais via há dez anos atrás. Quantos você ainda vê todo dia, quantos você já não encontra mais…”. Algo em mim silenciou, ou, quem sabe?, tenha começado a falar mais fundo.

Hoje falamos com qualquer pessoa em qualquer parte do mundo, em segundos. As distâncias encolheram. As mensagens voam. Mas… e o encontro? E o tempo de estar com alguém, de olhar nos olhos da outra pessoa, de escutar sem pressa? Substituímos o encontro pelo clique, a presença pelo encaminhamento, a convivência por notificações. E sem perceber vamos ficando ausentes, até de nós mesmos. “Onde você ainda se reconhece? Na foto passada ou no espelho de agora?”. A pergunta da canção ecoa em mim.

Vivemos tão rapidamente que já não saboreamos o instante, porque o instante seguinte já nos chama. No mundo do trabalho isso ganha força de máquina, ou de algo mais pesado, quase “tratoril”. Como se um trator passasse por cima dos nossos dias comprimindo o tempo, achatando os afetos, atropelando os sonhos. E no meio disso tudo a gente vai ficando com saudade do que nem sempre sabe nomear.

No entanto, quando volto o olhar para os Evangelhos, algo me desacelera por dentro ao notar que Jesus nunca teve pressa para o essencial. Quando Ele olha para alguém, ou quando alguém se deixa encontrar por esse olhar, algo muda. Não é um olhar distraído. É presença. É tempo que se abre e que se dá. É encontro que devolve a vida ao seu lugar. Neste momento penso em Zaqueu (cf. Lc 19,1-10). Ele queria ver Jesus. Subiu numa árvore, pequeno que era. Mas, no fundo, foi Jesus quem o viu primeiro. E ser visto mudou tudo: sua casa, sua história, seu modo de existir. Um olhar que restitui dignidade, que reabre caminhos, que devolve o tempo ao seu verdadeiro sentido.

Lembro também da Samaritana (cf. Jo 4,1-30). Um encontro improvável, num horário esquecido do dia. Ainda assim nasce ali algo decisivo: alguém que se sente vista, escutada, compreendida. Isso foi suficiente para transformar não só a sua história, mas a de toda uma comunidade. Um encontro que gera vida. Um “perder tempo” não produzindo “nada” aos nossos olhos voltados para a eficiência produtiva, mas um tempo habitado pela presença que humaniza.

Talvez seja isso: o tempo mais verdadeiro não é o mais cheio, mas o mais habitado. “Perder tempo” com alguém pode ser, na verdade, uma forma mais profunda de encontrá-lo. Pois “quem quiser salvar a sua vida a perderá; mas quem a perder… a encontrará” (cf. Mt 16,25). E, nessa travessia me vem à memória uma presença silenciosa e firme, que soube viver no tempo e com o tempo: Maria de Nazaré.

Maria foi, de certo modo, profundamente moderna em seu tempo e, ao mesmo tempo, enraizada no mais essencial. Moderna, porque teve a coragem de dizer “sim” a um projeto que rompia expectativas, que desafiava lógicas, que a colocava em risco (cf. Lc 1,38). Mas sua fidelidade não estava na repetição, estava na profundidade. Ela não vivia no automático. Ela guardava as coisas no coração (cf. Lc 2,19). Ela dava tempo ao tempo, deixava que a vida fosse sendo compreendida, amadurecida, acolhida. Em um mundo apressado, eis a forma mais luminosa de resistência: não deixar que o sentido se perca na pressa.

Maria compreendeu, com a delicadeza dos que escutam profundamente, que a vontade de Deus não cabe apenas em palavras escritas, mas se revela na vida que se oferece, no encontro que se constrói, no amor que se torna presença. E assim, mais do que cumprir, ela encarnou e gerou a Palavra de Deus. Neste mês dedicado a Maria, somos convidados a reaprender com ela como ser, e como viver, no tempo.

Não se trata de rejeitar o que conquistamos, seria injusto e, possivelmente, ingênuo. Trata-se de aprender a usar tudo isso a favor da vida, a favor do encontro. Não apenas avançar, mas saber em que direção deve se dar o percurso, porque, no fundo, nossa meta continua sendo a mesma: tornar-nos mais humanos. E isso nunca se dá solitariamente. “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10). E essa abundância não se mede em acúmulo, mas em presença. Não em velocidade, mas em profundidade.

Assim como Maria gerou, em seu ventre, a presença de Jesus no mundo, também nós somos convidados a gerá-Lo no cotidiano, no modo como olhamos, escutamos, acolhemos uns aos outros. Cada encontro verdadeiro abre espaço para o eterno. O convite seja simples e exigente: coragem. Coragem de não viver apenas correndo, mas habitando o tempo. Coragem de olhar e de se deixar olhar. Coragem de escolher o encontro, mesmo quando tudo nos empurra para a pressa. E, quem sabe assim, pouco a pouco, a gente vá reaprendendo a viver com presença, com sentido e com esperança. Afinal, como nos lembra Guimarães Rosa, “o correr da vida embrulha tudo… o que ela quer da gente é coragem”. E talvez seja isso mesmo: coragem para permanecermos humanos.

Dra. Rosana Araujo Viveiros é professora e pesquisadora no Departamento de Teologia da Faje

07/05/2026

 

 

 

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