Patologias do trabalho

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Elton Vitoriano Ribeiro, SJ

O texto Patologias do Trabalho, de filósofa Rahel Jaeggi, publicado originalmente em Women’s Studies Quarterly 2017, em minha opinião, ainda apresenta uma análise filosófica e social perspicaz sobre o significado do trabalho nas sociedades contemporâneas e os problemas decorrentes das suas transformações sociais atuais.

Para começar, Jaeggi diz que o trabalho deve ser entendido como um importante elemento de cooperação social. Ela propõe uma reconstrução histórico-normativa do trabalho, definindo-o, através de uma perspectiva hegeliana, como o ato de compartilhar, participar ou fazer parte dos recursos universais da sociedade. Estes recursos não se limitam à riqueza material, mas incluem competências, o saber em evolução e o conhecimento acumulado coletivamente (Marx). Assim, o trabalho é o que estrutura a vida, a autoconsciência e o sentido de identidade dos indivíduos.

Dentro dessa primeira definição Jaeggi constrói sua crítica a partir da ideia de Patologias do Trabalho. Aqui, a autora utiliza o termo para conectar problemas diversos, como a exploração, a alienação, a precariedade e o desemprego estrutural. Uma patologia do trabalho ocorre quando a participação nos recursos universais da sociedade é impedida ou recusada causando desigualdades sociais e injustiças. Para Jaeggi, a patologia caracteriza-se pelo sofrimento subjetivo (frustração das expectativas) resultante de condições objetivas (organização do trabalho) que contradizem o caráter intrínseco e cooperativo da atividade laboral.

É curioso notar que o debate político atual foca na escassez de vagas e nos baixos salários, mas a autora argumenta que a qualidade do trabalho e a busca por um sentido não alienado permanecem centrais para a experiência humana. Por isso, por um lado o desejo do trabalhador de se identificar com o que faz e de encontrar um espaço não alienante, mesmo em condições difíceis, torna-o paradoxalmente mais vulnerável à exploração. Por outro lado, a alienação não é apenas a monotonia industrial clássica, mas manifesta-se hoje na impossibilidade de agir de forma significativa, como no caso de enfermeiros e médicos que, por pressões comerciais, não têm tempo para cuidar humanamente dos pacientes.

Sendo assim, para Jaeggi é possível identificar diferentes formas de precariedade do trabalho contemporâneo. A primeira e muito difundida atualmente é a ideia de empreendedor de si (Byung Chul-Han). Esta forma de trabalho que foi vista como símbolo de liberdade e autonomia, hoje gera uma patologia de auto instrumentalização do trabalhador. A pressão constante para a autopromoção e a responsabilidade total pelo sucesso reduzem a solidariedade e criam uma nova forma de alienação. A segunda forma ela identifica na subcontratação com baixos salários e perda da dignidade profissional. A fragmentação e a falta de autonomia impedem o trabalhador de fazer bem o seu trabalho, tornando a atividade pouco realizadora para o trabalhador.

Finalmente, a autora apresenta duas conclusões que são pontos de reflexão e ação políticas públicas. Primeiro, a disfuncionalidade da sociedade orientada para o trabalho reflete também na desocupação de longa duração. Para os desempregados, a exclusão da esfera produtiva resulta num sentimento de serem supérfluos, levando à apatia, à desvalorização e à perda da estrutura temporal da vida. Segundo, o mercado de trabalho contemporâneo, para produzir mais e incessantemente, se divide de um lado em tarefas desqualificadas onde os trabalhadores são facilmente trocados; e de do outro lado em trabalhos flexíveis que exigem o investimento de toda a personalidade num verdadeiro trabalho sem descanso. Conclusão: em ambos os extremos, as patologias surgem da distorção do trabalho enquanto forma de cooperação social e realização humana.

Elton Vitoriano Ribeiro, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia, e reitor da FAJE

14/05/2026

Foto: Shutterstock

 

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