Marília Murta de Almeida
Já escrevi sobre o tempo e os rios, evocando os rios da minha infância, a travessia, o barco e o barqueiro, ideias de Hermann Hesse e Santo Agostinho. Mas a imagem não se esgotou em mim. Prenhe de desejo de conhecer de perto os rios da Amazônia, que parecem ser o mar para o olhar que não encontra a outra margem, antecipo o encontro.
A beira do rio contém um silêncio que lhe é próprio. No silêncio do rio, o tempo parece parado à espera do próximo movimento. Quando fui menina e ficava sozinha na beira do rio, calava e esperava. Se alguma coisa acontecesse em mim, seria algo muito novo, uma coisa inventada. O poeta Manoel de Barros, em seu livro Menino do Mato, escreve assim:
O menino tinha no olhar um silêncio de chão
e na sua voz uma candura de Fontes.
O Pai achava que a gente queria desver o mundo
para encontrar nas palavras novas coisas de ver
assim: eu via a manhã pousada sobre as margens do
rio do mesmo modo que uma garça aberta na solidão de uma pedra.
Eram novidades que os meninos criavam com suas palavras.
A imagem da manhã pousada sobre as margens do rio evoca o silêncio que conheço. Deve ser o silêncio de chão do menino do poema. Um silêncio feito no contato com o chão de terra que não permite o devaneio desencarnado. No tempo parado em que a manhã está pousada, os pés pisam o chão e a palavra corre livre. No tempo parado da manhã pousada a garça se abre na solidão da pedra. Era eu me abrindo na solidão adolescente, à espera de desver e criar, talvez vendo como as garças veem.
Sentada na areia à beira do rio, abria um oco no coração e deixava o mundo entrar. Nada acontecia, e eu saía de lá outra e a mesma. O rio corria no leito sem fazer barulho, o tempo corria em mim sem fazer alarde. Se não podemos entrar no mesmo rio duas vezes, como diz o famoso fragmento de Heráclito, é porque suas águas são sempre novas e renovadas. Mas o mesmo Heráclito diz também que “nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos”. A mobilidade incessante é paradoxal, pois algo permanece.
O tempo que corre em nós nos transforma, mas também nos mantém. As águas do rio correm e em cada ponto do leito não são nunca as mesmas, mas o rio é ainda o mesmo. Todas as células do meu corpo já se renovaram, desde o tempo em que estive como garça pousada em frente ao rio e serão ainda outras quando me encontrar com os grandes rios que ainda não conheço. Os pensamentos que me povoam também não são nem serão os mesmos. Mas serei ainda eu.
Recorrendo mais uma vez a Heráclito ecoa em mim outros dois dos seus fragmentos que chegaram a nós: “procurei-me” e “transmudando repousa (o fogo etéreo no corpo humano)”. As palavras do homem grego que viveu há mais de dois milênios e de quem pouco sabemos me atingem com a força do que é novo. Repousadas, são palavras criadas e que criam. O repouso me ensina a permanência. Transmudada, procuro-me.
Procurar a si mesmo é o movimento inevitável e insano que fazemos por toda a vida. Nunca me encontro porque não sou nunca a mesma. Mas, na outra face do mesmo movimento, não há nada a ser encontrado, porque estou sempre pousada e repousada em mim, como a garça aberta na solidão da pedra.
Encontro-me na abertura do silêncio à beira do rio adolescente. O silêncio ali era um oco profundo em que o que eu sou se transmudava e repousava. As águas do rio correm no espaço do leito. As mudanças em mim correm no tempo da minha vida. Assim o mestre antigo junta os dois movimentos: entramos e não entramos no mesmo rio, somos e não somos. No fluxo do tempo, repouso e mudo. No espaço do leito, o rio corre renovado e sempre o mesmo.
Em um trecho de vídeo, podemos ouvir o poeta místico Pedro Casaldáliga dizer que nossas vidas são rios que correm para o mar. Transitando da metáfora poética à identificação mística, Pedro em seguida aponta para o rio e diz: “minha vida é o Araguaia”. O silêncio de chão do menino do mato de Manoel de Barros é aqui reencontrado: a metáfora se encarna na imagem do rio concreto. A vida de Pedro e o rio Araguaia são um e o mesmo, desaguando no mar como em Deus. E Deus pode ser talvez outro nome para o fogo etéreo que em nós repousa e (nos) transmuda.
Quando eu desaguar em Deus, a menina que em solidão abriu um oco dentro de si no meio do silêncio da beira do rio Araçuaí estará lá inteira, repousada na transmutação da vida que corre sem se perder.
Marília Murta de Almeida é professora e pesquisadora no departamento de Filosofia da FAJE
21/05/2026
