Bruno Pettersen
No último fim de semana, pude assistir à estreia do filme sobre a vida de Michael Jackson. O filme chama-se Michael, dirigido por Antoine Fuqua, e é, em muitos sentidos, um filme apenas “interessante”. Em sua primeira camada, gostei da experiência, porque o filme percorre praticamente todas as grandes músicas de Michael Jackson ao longo de sua trajetória. Passa por Thriller, Bad, Billie Jean, Beat It, pelas fases do The Jackson 5, por músicas como ABC, e por toda aquela produção artística que, quando eu era criança e depois adolescente, ouvi centenas de vezes na televisão, no rádio e em discos.
Discos como Thriller são revisitados, os videoclipes aparecem de maneira bastante competente, e as atuações chamam atenção, especialmente a da criança que interpreta Michael Jackson ainda muito novo, durante o período do Jackson 5. Nesse primeiro nível, portanto, o filme é extremamente divertido. É, sem dúvida, uma ótima diversão para uma noite de sábado.
Mas, em um segundo sentido, trata-se também de um filme profundamente frustrante, porque ele nunca realmente explora quem era Michael Jackson enquanto pessoa. O filme evita entrar nos conflitos efetivos daquele indivíduo. E eu nem estou me referindo aqui diretamente às grandes polêmicas públicas, mas a aspectos muito mais decisivos para compreender a formação daquela personalidade: a relação entre perfeccionismo extremo, exigência absoluta, violência psicológica e a presença de um pai profundamente agressivo, cuja influência parece atravessar toda a vida de Michael Jackson.
O filme apenas sugere essas questões. Ele menciona superficialmente que elas existiram, mas nunca as desenvolve. E isso é particularmente problemático porque, para quem viveu especialmente a década de 1990, em que era impossível não perceber que Michael Jackson como uma figura extremamente complexa, multifatorial, contraditória. O filme jamais alcança essa dimensão. Ele não revela verdadeiramente essa complexidade humana.
Ao mesmo tempo, existe ainda uma terceira camada. É extremamente interessante que Michael Jackson tenha “voltado” culturalmente, porque sua obra enquanto artista permanece praticamente impecável. Trata-se de uma das produções mais importantes da cultura pop e da música do século XX. Michael Jackson redefiniu não apenas a música popular, mas também a dança, o videoclipe e a própria ideia do artista enquanto “performer total”. Ele transformou o conceito de espetáculo musical contemporâneo.
Nesse sentido, voltar a ouvir músicas como Thriller, Billie Jean, Beat It ou They Don’t Care About Us é perceber novamente a força estética e cultural daquele artista. Contudo, apagar completamente as polêmicas relacionadas à sua vida significa também apagar parte importante do indivíduo real. A obra não elimina a pessoa. Mas a pessoa também não elimina automaticamente a obra.
Isso me fez pensar muito sobre a relação entre autor e obra ao longo da história da filosofia. Nos últimos dias acompanhei uma manifestação intensa na UFMG a respeito da imagem de Immanuel Kant. Existe um busto de Kant logo no centro da FAFICH (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas – UFMG), lugar por onde passei inúmeras vezes ao longo da minha vida. Essas manifestações sugeriam remover o busto e mesmo vandalizá-lo ou destruí-lo devido a posturas políticas assumidas por Kant na sua vida no século XVIII. De onde surgiu essa manifestação? Retomemos Kant brevemente.
Kant é uma figura decisiva na história da filosofia. Sua importância filosófica rivaliza apenas com pouquíssimos autores, como Platão, Aristóteles, David Hume, René Descartes ou Agostinho de Hipona. São raríssimos os pensadores que possuem a dimensão intelectual de Kant. A leitura da Crítica da Razão Pura é uma das experiências mais difíceis da filosofia, mas também uma das mais transformadoras. Depois de atravessar corretamente aquela obra, o leitor não permanece o mesmo. Pela dificuldade, pela profundidade, pela beleza conceitual e pela impressionante sagacidade filosófica, Kant modifica radicalmente a forma como compreendemos conhecimento, experiência e racionalidade.
Mas também é inegável que Kant sustentou, em determinados momentos de sua trajetória, posições racistas. Em Observações sobre o sentimento do belo e do sublime (1764), por exemplo, ele escreve: “Os negros da África não possuem, por natureza, nenhum sentimento que se eleve acima do ridículo.” Esse aspecto não pode simplesmente ser apagado. Kant era um homem profundamente complexo, filho de seu tempo, atravessado por limites históricos e culturais evidentes. Ignorar isso seria intelectualmente desonesto. Justamente por isso, é alegado que deveríamos remover o busto dele da FAFICH e mesmo parar de dar a centralidade à Kant no pensamento Ocidental. Deveríamos realmente parar de ler Kant? Os óbvios equívocos morais e políticos de um indivíduo impedem a leitura da obra? Penso que não.
O mesmo dilema kantiano vale para a obra de Michael Jackson. Assistir ao videoclipe de Thriller ou ouvir Billie Jean continua sendo uma experiência artisticamente transformadora. O impacto cultural produzido por Michael Jackson é incontornável. E isso não desaparece por causa das ambiguidades e contradições daquele homem. Negar a existência de obras extraordinárias por causa da complexidade moral de seus autores representa uma perda cultural imensa. Isso não significa ignorar os problemas desses indivíduos. Significa justamente fazer a reflexão crítica necessária sem destruir aquilo que eles efetivamente produziram de relevante.
Vivemos atualmente uma cultura que frequentemente tenta apagar pensadores a partir das posições problemáticas que ocuparam em seu tempo histórico. Mas seres humanos são estruturalmente contraditórios. Não tenho dúvida de que nós mesmos, eu e você que lê este texto, seremos julgados futuramente por aspectos da nossa época que hoje talvez nem consigamos perceber completamente. Nós também cometeremos erros graves.
Ainda assim, isso não impede que existam contribuições intelectuais, artísticas ou humanas relevantes no interior dessas contradições. Exigir uma espécie de pureza absoluta da vida de qualquer indivíduo histórico é simplesmente absurdo.
Não se trata, portanto, de apagar Kant, mas de continuar lendo Kant intensamente. Não se trata de abandonar autores como Aristóteles, que em muitos aspectos naturalizou formas profundas de exclusão, ou Martin Heidegger, cuja vinculação ao nazismo permanece historicamente documentada. Essas figuras são complexas. Negar completamente suas obras significa amputar parte importante da história da filosofia e da própria história do pensamento ocidental.
Por isso, continuo acreditando que devo ouvir Bad. Amo continuar a ouvir Black and White ou Smooth Criminal. E continuo acreditando que devemos seguir lendo as Observações sobre o sentimento do belo e do sublime e tantas outras obras fundamentais, não apesar de suas contradições, mas compreendendo que talvez seja justamente nelas que aparece, de maneira mais evidente, a própria condição humana. Derrubar ou retirar o busto de Kant só mostrará o quão cegos nós mesmos somos para a aquilo que nós fomos, somos e seremos.
Bruno Pettersen é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE
28/05/2026
