Bruno Pettersen
Aqui no “Palavra de Presença”, eu tenho falado com alguma frequência dos autores que mais me influenciaram na ficção científica. É inegável que a maior parte da minha leitura começou com os grandes clássicos do gênero: a Fundação, de Isaac Asimov; Duna, de Frank Herbert; Arthur C. Clarke, com Encontro com Rama e 2001: Uma Odisseia no Espaço.
O fato é que toda a minha introdução à ficção científica foi fortemente guiada por homens. Especialmente homens brancos, vários deles norte-americanos, que me ofereciam visões de mundo muito interessantes, muito desafiadoras, mas sempre a partir de uma perspectiva muito própria desse tipo de ficção. Foi numa tentativa de buscar outras formas de ver o mundo que eu acabei encontrando autoras como Ursula K. Le Guin, de A Mão Esquerda da Escuridão, por exemplo, um dos livros de que mais gosto. Mas a autora que mais me apaixonou foi a norte-americana Octavia E. Butler.
Octavia Butler nasceu em Pasadena, na Califórnia, em 22 de junho de 1947, e morreu em 24 de fevereiro de 2006. Ela foi uma mulher negra, criada por sua mãe viúva em uma família pobre, e se tornou uma das autoras mais importantes da ficção científica e da ficção especulativa. Em 1995, tornou-se a primeira escritora de ficção científica a receber uma bolsa da Fundação MacArthur. A perspectiva de Butler começa, inclusive, com uma frase atribuída a ela: “Comecei a escrever sobre poder porque eu tinha muito pouco poder.” Essa frase ajuda a entender boa parte da obra dela. Neste ano de 2026, completam-se 20 anos de sua morte.
A obra de Butler
Eu queria começar a articular minha reflexão sobre Butler pelo fato de que alguns dos livros mais famosos dela nem podem ser encaixados exatamente como ficção científica no sentido mais clássico. É o caso de Kindred: Laços de Sangue, talvez seu livro mais famoso.
Muito brevemente, Kindred conta a história de Dana, uma mulher negra que faz uma espécie de viagem ao passado, digo, “espécie” porque no livro não há nenhuma explicação típica sobre essa viagem. Fisicamente, ela volta ao passado e encontra seus ancestrais durante o período da escravidão norte-americana. Em momentos decisivos, quando sua vida é ameaçada, ela retorna ao presente. Depois, de uma forma misteriosa, ela volta novamente ao passado.
Esse livro trabalha uma ideia muito interessante: como alguém do presente, especialmente uma mulher negra, julgaria e enfrentaria a escravidão ao ser colocada dentro dela? Nós temos hoje um conhecimento profundo e complexo sobre a escravidão, mas o livro pergunta algo mais duro: como você se comportaria se estivesse realmente naquela situação com o conhecimento que possui agora?
A primeira resposta que tendemos a imaginar é a luta direta, a resistência imediata, e isso é um fato importante. Mas o livro é muito mais profundo do que isso. Ele mostra também medo, cálculo, sobrevivência, dependência, ambiguidade moral e violência estrutural. É um livro extremamente especial.
Mas talvez a obra que mais me impactou em Butler, com um aspecto filosófico muito intenso, sejam os dois livros da série Semente da Terra: A Parábola do Semeador e A Parábola dos Talentos. Os títulos têm uma relação evidente com a tradição bíblica: a parábola do semeador aparece, por exemplo, em Mateus 13; e a parábola dos talentos aparece em Mateus 25:14-30.
Esses dois livros são simplesmente fantásticos. Eles partem de uma concepção de mundo distópico, especialmente no primeiro livro, acompanhando a personagem Lauren Olamina. Lauren possui aquilo que o livro chama de hiperempatia: uma espécie de empatia extrema, em que ela sente fisicamente o que outras pessoas estão sentindo. Essa empatia é poderosa, porque ajuda Lauren a pensar o outro e a construir uma forma muito singular de relação com o mundo. Mas ela também a coloca em situações terríveis, porque sentir a dor do outro, num mundo brutalizado, é quase uma condenação ao sofrimento eterno.
A personagem começa então uma reflexão filosófica profunda, na qual estabelece uma relação entre poder, sobrevivência e mudança. Ela cria uma visão religiosa própria, centrada na ideia de que Deus é mudança. A única coisa que permanece é a mudança. É claro que aqui podemos perceber uma alusão clássica ao debate entre Parmênides e Heráclito, mas agora nas mãos de uma personagem negra, num mundo distópico, reconstruindo uma visão religiosa a partir de um Deus cuja grande marca é a transformação: “Tudo que você toca, você muda. Tudo que você muda muda você. A única verdade duradoura é a mudança. Deus é a mudança.”
Essa é uma ideia extremamente especial. Lauren cria uma nova religião chamada Semente da Terra, outra referência importante ao imaginário bíblico da semente, do semear, da comunidade e da transformação. Ela nos diz:
Todos nós somos Sementes de Deus, mas não mais, nem menos do que qualquer outro aspecto do universo; Semente de Deus é tudo o que existe—tudo o que Muda. Semente da Terra é tudo o que espalha a vida terrestre para novas terras. O universo é Semente de Deus. Somente nós somos Semente da Terra. E o Destino da Semente da Terra é fincar raízes entre as estrelas.
A partir disso, Butler discute o lugar da mulher, o lugar do poder, o lugar de Deus, a violência social, a fundação de comunidades e a possibilidade de futuro. É um dos livros mais sofisticados que já li dentro da ficção científica e da distopia, porque articula religião, poder, política, sobrevivência e a construção da mulher como sujeito.
Por último, entre os livros que li dela, além de alguns contos traduzidos no Brasil, quero lembrar a trilogia Xenogênese, composta por Despertar, Ritos de Passagem e Imago. Aqui sim estamos diante de uma ficção científica mais claramente reconhecível como ficção científica. A trilogia parte de um cenário em que a Terra foi devastada por uma guerra nuclear. A humanidade está praticamente acabada. Então surge uma espécie alienígena, os Oankali, que resgata os seres humanos sobreviventes. Mas esse resgate não é gratuito nem simples. Os Oankali são uma espécie geneticamente intervencionista: eles sobrevivem e evoluem por meio da troca genética com outras espécies.
A relação entre humanos e alienígenas, portanto, não é apenas uma relação de salvação, é também uma relação de poder, dominação, sedução, dependência e transformação biológica. Os Oankali oferecem aos humanos uma possibilidade de sobrevivência, mas essa sobrevivência implica hibridização. O humano, para continuar existindo, precisa deixar de ser exatamente aquilo que era.
A trilogia discute temas como transumanismo, natureza humana, futuro, corpo, reprodução, consentimento e identidade. O que significa continuar sendo humano quando a própria biologia humana é transformada? O que significa aceitar uma salvação que também é uma forma de controle? O que significa resistir, se a resistência pode significar a extinção?
Esse é um ponto muito forte em Butler: ela raramente oferece dilemas fáceis. A salvação quase sempre tem custo. A sobrevivência quase sempre exige negociação. E o poder nunca aparece de forma pura.
O que chama atenção em Octavia Butler?
Primeiro, a escrita dela é muito prazerosa de se ler. Ela usa termos técnicos aqui e ali, mas esse não é o foco do livro. Ela não escreve aquilo que chamamos de hard science fiction, uma ficção científica centrada em explicações científicas, tecnologias e vocabulário técnico. Apesar disso, sua obra está profundamente envolvida com problemas científicos, biológicos, sociais e filosóficos.
Outro aspecto muito poderoso é que Butler quase sempre parte de uma perspectiva diferente daquela dominante na ficção científica clássica. Frequentemente, suas personagens principais são mulheres. É o caso de Kindred, da série Semente da Terra e de parte importante da trilogia Xenogênese. Muitas vezes são também mulheres negras.
Isso traz para a ficção científica uma série de reflexões que dificilmente poderiam ter sido feitas da mesma forma pelos autores clássicos do gênero. Butler é frequentemente reconhecida como uma autora fundamental para aquilo que hoje chamamos de afrofuturismo, embora essa palavra ainda não circulasse da mesma maneira quando ela escreveu seus principais livros.
Pessoalmente, penso que ela tornou esse tipo de reflexão parte essencial da ficção científica. Butler mostrou que pensar o futuro não é apenas imaginar naves, planetas, tecnologias e impérios galácticos. Pensar o futuro é também pensar raça, gênero, corpo, escravidão, religião, poder, sobrevivência e transformação.
Por isso, acredito que qualquer pessoa que se interesse por filosofia, ficção científica, temas raciais, distopia ou afrofuturismo precisa urgentemente ler Octavia Butler.
E, para começar, minha sugestão é a mesma que muita gente costuma dar: comece por Kindred: Laços de Sangue. Mas não pare nele. Porque talvez a grande força de Butler apareça quando a gente percebe que toda a sua obra está tentando responder a uma pergunta decisiva: o que acontece com o ser humano quando poder, violência, sobrevivência e mudança se tornam inseparáveis?
Bruno Pettersen é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE
25/06/2026

Foto: Octavia Butler – Wikipedia