O nome humano da ternura de Deus

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Rosana Araujo Viveiros, ANSP

Nestes últimos dias de junho, volto a contemplar o coração. Não apenas o órgão que pulsa em nosso peito, mas esse lugar profundo onde a vida ganha sentido, onde habitam os afetos, as memórias, as dores e as esperanças. É o mês em que a Igreja nos apresenta de modo especial o Coração de Jesus, revelação do amor de Deus que se fez próximo, humano e acessível.

A espiritualidade do Sagrado Coração convida-nos a contemplar o amor de Deus revelado em Jesus Cristo. Por isso, a tradição da Igreja dirige frequentemente o olhar para o lado aberto do Senhor na cruz, sinal de um amor levado até o extremo. Como afirma o Evangelho de João: “olharão para aquele que traspassaram” (Jo 19,37). Este olhar não é um simples exercício de memória, mas um caminho de contemplação. Diante do Coração traspassado de Jesus, descobrimos a medida do amor divino: um amor sem medidas, que não se fecha sobre si mesmo, mas se oferece inteiramente pela vida do outro. O coração aberto de Jesus torna-se, assim, uma escola de amor, de compaixão e de amizade. Como recordou o Papa Francisco, “o seu coração aberto precede-nos e espera-nos incondicionalmente, sem exigir qualquer pré-requisito para nos amar e oferecer a sua amizade” (Dilexit nos, n. 1).

Em meio a essa contemplação, veio-me à memória um livro de Tolentino que recebi de presente de uma grande amiga, quando retornei de Roma. A obra tem como título Nenhum caminho será longo: para uma teologia da amizade. O presente tinha um significado que ultrapassava o objeto em si. Era como um selo silencioso de tudo o que havíamos vivido ao longo daquele tempo em que fiquei fora fazendo a pesquisa de doutorado. À distância, ela foi uma das pessoas que me sustentaram em meio aos desafios acadêmicos, pessoais, familiares e também diante das incertezas que marcaram o mundo nesses últimos anos. Enquanto eu enfrentava minhas travessias, ela também carregava as suas. E, mesmo assim, estivemos presentes uma para a outra. Talvez seja essa uma das formas mais belas da amizade: não a ausência das dificuldades, mas a decisão de atravessá-las juntas.

Recordo-me de uma afirmação que Tolentino faz logo no início da obra e que me tocou profundamente. Para ele, “pensar sobre o significado e a pertinência da amizade nos vários âmbitos da vida pessoal, comunitária, social e crente é reconhecer que ela constitui uma experiência universal e representa, para cada pessoa, um percurso inapagável de humanização e de esperança”[1]. Essas palavras encontraram eco em minha própria história. Nesse sentido, lembrei-me de outro grande amigo que também me sustentou ao longo do período do doutorado. Com suas palavras e constantes orações por mim, ele não me deixou perder a esperança e incentivou-me a manter meu processo de humanização diante dos desafios encontrados. Nós nos chamamos de “amigos do Coração e no Coração”, pois nossa amizade nasceu do Coração de Jesus há muitos anos.

Ao olhar para minha trajetória, percebo que a presença de tantos amigos e amigas é um dos sinais da ternura de Deus em minha vida. Por meio deles, sinto como se o Senhor me dissesse constantemente: “vai, Rosana, estou contigo!”. E Ele está. Muitas vezes, sua presença chega revestida de rostos, palavras, mensagens inesperadas, escutas pacientes e gestos simples que sustentam a alma. Por isso, compreendo cada vez mais a sabedoria das palavras do livro do Eclesiástico: “um amigo fiel é poderoso refúgio, quem o descobriu, descobriu um tesouro” (6,14). Em um mundo marcado pela pressa, pelo individualismo e pelas relações frequentemente superficiais, a amizade continua sendo um tesouro raro e precioso. Ela nos recorda que ninguém foi criado para caminhar sozinho.

Ao refletir sobre o dom da amizade, percebo também uma bela pedagogia presente no ritmo da vida cristã. Se o mês de maio me ensina a contemplar Maria e a deixar-me conduzir pelo Espírito Santo no cotidiano da vida, como ela o fez, o mês de junho me recorda que esse caminho precisa ser percorrido no amor. Um amor que encontra sua medida no próprio Coração de Jesus, aquele que entregou a vida por seus amigos. Como Ele mesmo afirmou no Evangelho: “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). A amizade verdadeira possui algo desse dinamismo pascal. Não porque exija necessariamente grandes heroísmos, mas porque é feita de pequenas entregas diárias. É presença quando seria mais fácil ausentar-se. É fidelidade quando tudo parece passageiro. É capacidade de permanecer quando o sofrimento ou a distância tentam enfraquecer os laços.

Ao meditar sobre o dom da amizade, nasceu em mim uma oração semelhante à do salmista: “ó Deus, cria em mim um coração puro, renova um espírito firme no meu peito” (Sl 51,12). Afinal, a amizade não é apenas um presente que recebemos; é também uma vocação que cultivamos. Para ser amigo, é preciso possuir um coração capaz de acolher, escutar, perdoar, compreender, recomeçar e, enfim, ser presença silenciosa, mas efetiva. Talvez seja por isso que a promessa do profeta Ezequiel continue tão atual: “Dar-vos-ei coração novo, porei no vosso íntimo espírito novo, tirarei de vosso peito o coração de pedra e vos darei coração de carne” (Ez 36,26). O coração de pedra fecha-se em si mesmo. O coração de carne, ao contrário, deixa-se tocar pela vida dos outros. Ele sofre com quem sofre, alegra-se com quem se alegra e reconhece que a própria existência se torna mais plena quando compartilhada. Os verdadeiros amigos tornam-se parte da nossa história, permanecendo conosco mesmo quando a vida impõe distâncias.

Jesus nos ama com um coração de carne. E justamente por isso nos ensina que o amor divino alcança nossa existência concreta, nossas relações, nossos encontros e amizades. O caminho da santidade passa também pela capacidade de amar humanamente, de construir vínculos sinceros, de cuidar dos outros e deixar-se cuidar. No fundo, toda amizade autêntica fala algo de Deus. Cada gesto de fidelidade, cada companhia que sustenta, cada palavra que encoraja e cada mão estendida em tempos difíceis tornam visível aquilo que muitas vezes não conseguimos enxergar: o amor de Deus continua agindo em nós e no mundo.

Por isso, ao concluir mais um mês dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, quero agradecer a Deus pelos amigos e amigas que encontrei ao longo do caminho. Eles são para mim sinais da ternura de Deus, testemunho de que Ele continua caminhando ao nosso lado. E peço ao Senhor a graça de possuir um coração cada vez mais semelhante ao seu: um coração capaz de amar sem medida, de acolher sem reservas e de viver, a cada dia, aquilo que a espiritualidade do Coração de Jesus resume de forma tão simples e tão profunda: amor por amor. Acredito que Deus nos alcança pelo amor e, muitas vezes, esse amor chega até nós através das amizades que sustentam nossas trajetórias. Por isso, para mim, o nome humano da ternura de Deus é a amizade.

 

Ir. Rosana Araujo Viveiros, ANSP é professora e pesquisadora do Departamento de teologia da FAJE

[1] MENDONÇA, José Tolentino. Nenhum caminho será longo. Para uma teologia da amizade. São Paulo: Paulinas, 2013. p. 12.

Foto: Shutterstock

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