A sinfonia de tosses e pigarros

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Felipe Magalhães Francisco 

O teatro estava lotado. Era noite de inverno. Em meio ao espetáculo, um minuto de silêncio não avisado aos espectadores, fazia parte do contexto cênico. O que se ouvia, neste minuto, era quase que uma sinfonia de tosses e pigarros. Era noite de inverno, afinal, e as estatísticas mostram altos índices de diagnósticos de doenças respiratórias nesta época. Era, pois, o esperado. Chama a atenção, no entanto, o dado simbólico dessas tosses e raspadas de garganta, que acabaram por se tornar parte não ensaiada do espetáculo.

A apresentação era de “Elza”, o musical que, já há dez anos, percorre as cidades do país, homenageando Elza Soares, a inconfundível e inigualável cantora brasileira. Elza sofreu, ao longo de sua vida, uma série de violências, de todos os tipos: foi vítima de muitos homens e de um país mergulhado nas desigualdades de raça, de classe e de gênero. Foi vítima, mas não tomou para si este papel para assumi-lo como definitivo: sua voz foi denúncia, foi resistência, foi superação. Nem todas, porém, conseguem assim fazer!

O musical, por trazer questões biográficas, certamente não se furta de trazer à tona as muitas violências que Elza sofreu ao longo da vida. Mas essas violências não foram apenas contra Elza Soares: vivemos num país em que os índices de violências contra as mulheres são avassaladores. O Brasil é o quinto país que mais mata mulheres de maneira violenta no mundo. É estarrecedor! E, aqui, a voz de Elza se soma às infindas vozes de mulheres violentadas e silenciadas, até o definitivo do silenciamento da morte. No espetáculo, nomes de mulheres reais, vitimizadas por homens, ressoam desde os palcos, num dramático enunciado seguido pelo silêncio. O minuto de silêncio.

E foi nesse longuíssimo minuto de silêncio, que as tosses e pigarros se fizeram ouvir, numa espécie de sinfonia não ensaiada, que invadiu o espetáculo, não apenas como sintomas de uma época que adoece os pulmões, mas como sinal de que alguma coisa está presa na garganta. Está na garganta de todas as mulheres que, felizmente, cada vez têm mais voz para gritar e denunciar, apesar de tantas ainda permanecerem silenciadas por motivos muitos; está na garganta de homens que participam, direta ou indiretamente, da máquina de moer de mulheres nas muitas formas de violência.

Já não é mais possível contribuir com uma estrutura sociocultural que força mulheres a engolirem suas dores e violências sofridas, garganta abaixo; tampouco, que homens, ditos aliados das lutas das mulheres, permaneçam num silêncio apaziguador e cúmplice, diante das inúmeras manifestações de machismo e misoginia que despontam todos os dias nos círculos de conversas, nas rodas dos amigos, nos escritórios… Em espetáculos, tosses e pigarros são incômodos, destoantes. Em “Elza”, o musical, aquela sinfonia foi quase um ato falho; é uma sinfonia de tosses e pigarros que dá o que pensar! Elza Soares, a Voz do Milênio, cantou até o fim como bem desejou. Cantou não apenas para embelezar o mundo, mas também para revelar o seu avesso: denunciou a violência contra a mulher, contra o racismo, contra a intolerância religiosa, contra a desigualdade social. Em nossa garganta, não dá para ficarem presos também estes gritos: é mais que necessário que a gente grite!

Felipe Magalhães Francisco é coordenador adjunto da Coord. Central de Atividades de Extensão da FAJE e Diretor da Cátedra João Batista Libanio de Juventudes

02/07/2026

 

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