“Fisicamente presentes”, presentemente distraídos

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Silvia Contaldo

Em seu recente artigo, Fisicamente presente, intelectualmente offline: o drama da atenção na universidade da distração, o professor Luiz Sureki expôs, com refinada perspicácia, os efeitos de as rotinas escolares passarem a ser vividas em modo offline. Para isso, valeu-se de um instrumento cirúrgico-odontológico que, quando toca um dente cariado, faz a dor chegar até a raiz. Não por acaso, a palavra cárie remonta ao grego ker, associado à ideia de destruição. As muitas Queres ‒ todas marcadas por um impulso destrutivo ‒ continuam entre nós e parecem ter encontrado assentos confortáveis nos bancos escolares.

A vida on-line, que não respeita espaços nem os tempos, tem essa sutileza. Na tela, tudo ganha brilho ‒ até os dentes. Quanto mais sorrisos, mais likes. No entanto, o que parece ‒ apenas parece ‒ belo e radiante tem escondido atores cariados e cada vez mais dependentes do que lhes vem de fora. Não sabem mais, por si mesmos, abrir a boca.

É esse o ponto nevrálgico, tão bem encontrado pelo professor Sureki, pois traz à tona os efeitos de uma mastigação indigesta. O uso e o abuso de instrumentos tecnológicos, de IAs e de outras bugigangas digitais têm sido utilizados como fim em si mesmos quando ‒ principalmente nas escolas de educação básica e também nas universidades ‒ deveriam ser apenas meios para aprimorar aprendizagens. Infelizmente, o que vem no título do referido artigo é certeiro e demanda a busca de caminhos: fisicamente presentes, intelectualmente off-line. Tão bem (e mal) feito é o tingimento que qualquer informação ‒ qualquer uma ‒, seja sobre o sucesso de vidas bem-sucedidas (sic!), seja sobre o comportamento da rapaziada be(st)tializada, é recebida e engolida de pronto, sem quaisquer gestos de interrogação nem de exclamação que são, em geral, sinais de que aquela informação mereceria atenção e leitura aprofundada. No entanto, os filtros críticos estão sendo deixados de lado e, expostas exageradamente às telas, as juventudes, nas várias etapas da educação escolar, estão, de fato, fisicamente presentes, intelectualmente off-line e distraídas on-line.

O professor recomendou uma pesquisa? Olhe no Google. Com que desfaçatez o simpático e atrevido verbo pesquisar foi substituído por uma simples olhadela em um mar de informações. O professor pediu que escrevesse um texto? Peça às IAs, essa legião sem identidade que carrega em seus balaios alhos e bugalhos, sem saber, muitas vezes, diferenciá-los.

Os questionamentos trazidos à tona no artigo em pauta chamam-nos a atenção. O que fazer? Apenas proibir, por decreto burocrático, o uso de aparelhos celulares durante as aulas, sem levar em conta as diferentes realidades, tanto institucionais quanto individuais? Na Educação Básica, essa proibição apenas agudizou a ansiedade da garotada, que fica aguardando, fisicamente presente, o sagrado momento de ter novamente em suas mãos os próprios celulares. É certo que há muitas escolas que vêm instaurando, nesse sentido, boas práticas educativas, incentivando, nos intervalos, atividades como jogos de tabuleiro, clube de leitura etc. Mas essas são iniciativas daquelas escolas que não ficam à espera de a cárie se instalar.

Michel Desmugert, neurocientista francês, publicou em 2021 a obra A fábrica de cretinos digitais; O perigo das telas para as nossas crianças, resultado de estudos aprofundados sobre os impactos da cultura digital na educação das crianças e dos adolescentes. Por exemplo, relata Desmurget: “O consumo recreativo do digital ‒ em todas as suas formas (smart-phone, tablets, televisão etc.) ‒ pela nova geração é absolutamente astronômico. A partir dos 2 anos, as crianças dos países ocidentais acumulam diariamente quase 50 minutos diante da tela. Entre 2 e 8 anos, esse tempo é de 2h45min. Entre 8 e 12 anos, os jovens passam aproximadamente 4h45min diante dela. Entre 13 e 18 anos, eles chegam perto de 7h15min. Ao fim de um ano, isso totaliza mais de 1.000 horas para um aluno da pré-escola (1,4 mês), 1.700 horas para um estudante do nível fundamental (2,4 meses) e 2.650 horas para alunos do ensino médio (3,7 meses). Expresso em fração do tempo diário de vigília, isso resulta, respectivamente, em 20%, 32%, 45%. Ao longo dos 18 primeiros anos de vida, eles representam o equivalente a quase 30 anos letivos, ou, se preferirmos, 15 anos de um emprego em tempo integral.” (disponível em: https://resistir.info/livros/fabrica_de_cretinos_digitais_m_desmurget.pdf).

Frente a esses dados, que nos deixam boquiabertos, tenhamos cuidado com a cilada maniqueísta e anacrônica: ou o humano ou a máquina! Trata-se, urgentemente, de insistir em ações profiláticas que podem ser praticadas coletivamente ‒ desde que estejamos de acordo quanto ao fato de que, sem a formação escolar, em qualquer nível, ficaremos sob o comando de cretinos. Voltar a prestar atenção e aprofundar. Talvez seja boa oportunidade para re-ler o opúsculo De modo studendi de Tomás de Aquino (1225-1274) ‒ ou a ele atribuído ‒ no qual ele adverte seu jovem confrade João, por exemplo, a ‘evitar a dispersão intelectual’. Ou ainda, voltar aos pré-socráticos que, sem se cansarem de prestar atenção, nos legaram vias de aprofundamento para navegar ao invés de naufragar.

Silvia Contaldo é professora no departamento de Filosofia da FAJE

Foto: Shutterstock

 

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