Teologia Pastoral: uma intuição fundante

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Moisés Nonato Quintela Ponte

Toda teologia deve ser pastoral e toda pastoral deve ser teológica” (João Batista Libanio).

Entre os dias 10 e 13 de agosto, em conjunto com várias Universidades, Faculdades e instituições eclesiais, a FAJE realizará o IV Congresso Brasileiro de Teologia Pastoral, com o tema “Instrumentalização da fé: desafios e perspectivas”. A atualidade e urgência da temática parece inconteste. Especialmente quando, em nome da fé, se disseminam cada vez mais iniciativas com vieses ideológicos e mercadológicos que lhe são estranhos, instrumentalizando-a e esvaziando-a de sua força verdadeiramente libertadora e salvífica.

Os Congressos Brasileiros de Teologia Pastoral nasceram em pleno pontificado do Papa Francisco. Encontram em sua certidão de nascimento um programa de renovação missionária e pastoral da Igreja que, se por um lado fez-se fortemente sentir no último pontificado, por outro, responde a um apelo mais antigo, oriundo do próprio Concílio Vaticano II, que a Igreja latino-americana e caribenha soube com excelência encarnar em sua teologia, bem como em suas comunidades e nas Conferências Gerais de seu episcopado, desde Medellín a Aparecida.

Particularmente para a FAJE, o acento pastoral a que se pretende o IV Congresso não é somente uma feliz sintonia com o legado de Francisco e a primavera conciliar que temos testemunhado em nossas terras. A urgência pastoral traduz a própria intuição que marcou o nascimento da Faculdade. É por essa razão que gostaríamos de recordar um texto escrito pelo padre João Batista Libanio nos anos de fundação desta instituição. Em 1987, precisamente a cinco anos do início da FAJE, era publicado na revista Perspectiva Teológica (n. 49) o artigo “Articulação entre Teologia e Pastoral: a propósito de uma experiência concreta”.

O intuito do padre Libanio era o de registrar, em caráter “provisório e experimental”, uma preocupação que atravessa a história de nossa faculdade, qual intuição fundante desta casa: a de que a Teologia não pode ser pensada sem a pastoral, nem a pastoral sem a Teologia. Reencontrar esse texto, às vésperas do IV Congresso, é um modo de voltarmos às nossas raízes ou de bebermos das nossas fontes.

Reconhecendo o caráter polissêmico da palavra “pastoral”, e o respectivo risco de equivocidade, o padre Libanio distingue três possíveis empregos do termo: como objetivo de toda formação (no espírito do n. 4, do decreto Optatam Totius), como disciplina curricular (após o ingresso da disciplina “Teologia Pastoral” no currículo obrigatório dos estudos eclesiásticos) e como conjunto de práticas concretas (ação de agentes de pastoral e de seus pastores).

O sentido, porém, que aqui nos interessa é um quarto: o da pastoral como uma “dimensão que informe a Teologia por dentro”. Não se trata, escrevia ele, de uma aplicação extrínseca de conteúdos teóricos que se sobrepõem à vida da Igreja, mas de algo que atravessa internamente o fazer teológico, como sua condição de possibilidade. Citando livremente Karl Rahner, Libanio insiste que “toda Teologia deve ser pastoral e toda pastoral deve ser teológica”.

A relação entre Teologia e Pastoral é, portanto, intrínseca. Não cabe espaço para qualquer conjunção aditiva, o que nos oferece outra perspectiva para compreender a expressão Teologia Pastoral. A Pastoral não é mera adjetivação da Teologia, mas condição substantiva de toda teologia que pretenda comunicar o fundamento último da autocomunicação do Deus uno e trino, a saber, a salvação integral de cada mulher e homem.

O Dogma nasce da experiência de fé e a ela se volta, num exercício permanente de comunicação de vida. É salvação in fieri, não somente porque o seu “fazer-se” diga respeito a uma salvação ainda por realizar, mas enquanto a verdade da fé se comunica e se atualiza no interior da história concreta de homens e mulheres. Por isso, a Teologia não pode contentar-se em contemplar a verdade de Deus à distância, nem se encastelar em uma série de argumentos apodíticos que não a permita ser tocada pela vida, pelas perguntas e pelas experiências nas quais essa verdade é acolhida, vivida e colocada em questão.

Talvez seja justamente aqui que o texto de Libanio, escrito há quase quarenta anos, reencontre de modo surpreendente a questão que nos convoca ao IV Congresso. Se a fé pode ser instrumentalizada, também a Teologia pode correr o risco de se tornar instrumento de interesses, projetos ou ideologias que lhe são exteriores.

É significativo, portanto, que às vésperas do IV Congresso Brasileiro de Teologia Pastoral voltemos às raízes da intuição fundante de nossa origem enquanto faculdade. Não para repetir uma experiência de 1987 por mera nostalgia, mas por reconhecermos que essa intuição fundante continua atualíssima. A articulação entre Teologia e Pastoral permanece um caminho aberto, provisório e experimental. Quarenta anos depois, talvez a pergunta continue sendo, em sua essência, a mesma: como fazer uma Teologia que não perca a vida de vista? Em tempos de instrumentalização da fé, voltar às fontes pode ser também uma forma de recuperar o caminho: uma Teologia que nasce do encontro com a vida, deixa-se transformar por ela e a ela retorna, desejosa de servir à fé em sua força mais própria: aquela que não se deixa possuir por ninguém, porque existe para libertar e salvar.

Moisés Nonato Quintela Ponte, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE.

06/08/2026

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