Patrícia Reis
Numa de suas crônicas, Cecília Meireles afirma ter uma relação com o carro diferente daquela de muitas pessoas. Ela gosta do essencial, não se importa com modelos novos ou com muitos ornamentos. Alguns filósofos também elogiam a frugalidade em vários aspectos, como alimentação, vestuário, moradia… Sêneca chega a afirmar que não devemos exagerar nem em relação aos livros. Rousseau condena o luxo. Aristóteles é conhecido por defender o meio termo no que diz respeito aos nossos comportamentos, inclusive, quanto ao uso do dinheiro.
Essas ideias nos fazem pensar uma questão bastante atual e relevante para nós: o tema da mobilidade urbana, não somente para quem caminha pela cidade ou se utiliza do transporte público ou privado, mas, também, para aqueles que sentem os reflexos das escolhas do poder público sobre isso (como a poluição, o barulho, a segurança no trânsito, a oportunidade de estar em certos lugares, a qualidade de vida…). Esse tema, por sua vez, é um desdobramento de outro ainda mais amplo: o direito à cidade, assunto formulado, no final da década de 60, por Henri Lefebvre, na sua obra “O Direito à cidade”. Como esse pensador afirma, trata-se de um direito à vida urbana, que ainda não teria entrado nos códigos formalizados.
Uma novidade relacionada com a mobilidade urbana no nosso país, assim como em outros, foi a introdução dos aplicativos de mobilidade, que conectam passageiros e motoristas, como a Uber e a 99. Com eles, vivenciamos uma revolução tanto na locomoção daqueles que deixaram de ir de carro próprio ou de ônibus para certos lugares quanto na perspectiva do mercado de trabalho, já que várias pessoas passaram a ser motoristas desses aplicativos. Há muitos aspectos positivos nisso; entretanto, também não são poucos os pontos problemáticos, como os direitos trabalhistas dos motoristas, o modo de seleção dos motoristas, a segurança do passageiro…
Alguns meios de transporte utilizados pela população de grandes cidades e, em especial, dos belo-horizontinos, são divididos entre os considerados ativos (movidos pela força física humana), como a caminhada e a bicicleta (não motorizada), e os motorizados, como carro próprio, carro por aplicativo, táxi, moto, ônibus, metrô, e, mais recentemente, patinete. Sobre essas diferentes modalidades de transporte, o Código de Trânsito Brasileiro determina que os menos vulneráveis no trânsito devem zelar pela segurança dos mais vulneráveis. Assim, o pedestre ou o ciclista, em muitas situações que está próximo do motorista de um automóvel ou de um ônibus, deve ter preferência. O pedestre, por sua vez, tem preferência em relação ao ciclista.
Em relação ao uso de bicicleta como meio de locomoção, temos poucas ciclovias em nossa cidade e, muitas vezes, o ciclista corre risco ao compartilhar a via com carros e ônibus. Já, em outros países mais desenvolvidos, o uso de bicicletas é bem mais difundido e, em muitos casos, não é perigoso – nem para quem delas se utiliza, nem para os pedestres. Recentemente, um vídeo divulgado nas redes sociais pela cicloativista Renata Falzoni, criticando a atitude do prefeito de Belo Horizonte em desfazer as obras de uma ciclovia, teve grande repercussão.
O uso do patinete está mudando o cenário de certas regiões de Belo Horizonte, mas ainda não sabemos se isso será duradouro e se os benefícios desse meio de transporte serão superiores aos riscos que seus usuários e pedestres correm com tal prática.
No que diz respeito ao metrô, em particular o de Belo Horizonte – mais próximo de um trem sobre a superfície –, muitos lugares com grande circulação de pessoas, como a região centro-sul, não têm uma estação próxima; muitas passarelas não são seguras; não há tanta integração no pagamento dos bilhetes de ônibus e de metrô num intervalo próximo ou no mesmo dia; em horários de pico, os vagões costumam estar muitos cheios… Por outro lado, para quem está próximo de uma estação e se deslocará até onde há, também, outra estação, essa opção de transporte é muito boa, principalmente, porque evita os congestionamentos de trânsito.
Quanto aos ônibus, não são, de modo geral, uma opção atrativa para muitos passageiros, e as razões disso são variás: trajetos com muitas voltas; insegurança para os passageiros (no trajeto aos pontos de espera, nos próprios pontos, ou dentro dos ônibus); desconforto (falta de assento para todos, ônibus lotados, barulho estressante do próprio ônibus ou de sons dos áudios e músicas de alguns passageiros); preço da passagem; motoristas irresponsáveis… De qualquer modo, não podemos negar que, em certos aspectos, houve mudanças boas nesse meio de transporte, em Belo Horizonte, em comparação com o que existia há pouco mais de dez anos. Por exemplo: introdução do cartão de ônibus – que facilita o pagamento das passagens; ar-condicionado em alguns veículos; criação de estações de ônibus e linhas que partem delas, como o MOVE – sistema de transporte rápido por ônibus (BRT) – (nesse caso, a compra do bilhete de uma linha, e, em seguida, do de outra, não acarreta a cobrança de duas passagens inteiras); banheiros públicos nas estações; linhas diretas (que não param nos pontos durante o trajeto da viagem, o que pode gerar uma economia de tempo de uns 15 minutos em comparação com as outras linhas); pistas exclusivas para certos ônibus (o que é um atrativo para os passageiros desse transporte, em especial, nos horários de pico); alguns pontos com painéis indicando o tempo que falta para o ônibus chegar (com isso, o passageiro fica ciente de quanto tempo terá que esperar e pode, inclusive, mudar a sua rota ou optar por outra forma de transporte); aplicativos de ônibus que permitem, pelo celular, ver a posição do ônibus em tempo real; gratuidade das passagens aos domingos e feriados assim como, para certos ônibus, nas madrugadas …
Apesar dessas melhoras, os pontos negativos de usar o transporte público, muitas vezes, superam os positivos, e quem tem condições financeiras para evitá-lo prefere alternativas, como a do carro próprio ou do uso de aplicativo. É importante também lembrarmos que, até há pouco tempo, apenas algumas pessoas podiam adquirir carros e isso simbolizava um grande status, como podemos ver nas músicas de Roberto Carlos, Raul Seixas, entre outros…. Hoje, a situação é diferente. Muitos brasileiros passaram a ter esse bem, o que significou, de certo modo, uma democratização na sua posse.
Sobre o uso do automóvel, não podemos deixar de salientar o quanto é gostoso e prático nos deslocarmos no carro próprio e, assim, ter independência para ir e vir quando bem entendermos. Outro ponto positivo de se locomover de carro pela cidade, em especial, para as mulheres, é a confirmação de que existem ótimas motoristas numa cultura como a nossa, marcada pelo machismo até na definição do gênero apto para dirigir um automóvel. Também não podemos negar que o carro, muitas vezes, é a melhor opção para realizar trajetos em rodovias, tendo em vista que, no nosso país, quase não há trens, como em outros, e os ônibus que fazem o percurso desejado raramente são confortáveis. E isso tem uma história: como nos lembra Boris Fausto, no final da década de 50, o presidente Juscelino Kubitschek criou uma política do automóvel, em detrimento dos meios de transporte coletivo. Mas, se a locomoção por carro tem seus pontos positivos, devemos reconhecer que, em muitas situações, isso também não é um mar de rosas. Há o estresse do motorista, o trânsito pesado, o perigo de colisão com outros carros, o preço alto da manutenção do carro e do combustível, o dano ambiental gerado…
No tocante ao uso do carro ou da bicicleta como meio de locomoção, Amartya Sen, economista e filósofo indiano, faz algumas observações que merecem ser destacadas. Segundo ele, um executivo que vai de bicicleta ao trabalho por consciência ecológica ou por lazer faz isso por motivos diferentes do operário que vai ao trabalho de bicicleta porque não tem condições financeiras de ter um carro, ou porque não há um sistema de transporte disponível ou eficiente. Como complementa, apesar de ambos utilizarem o mesmo meio de transporte, a liberdade do executivo é maior do que a do operário, justamente porque aquele tem mais opções do que este. Concordamos que essa é uma das acepções possíveis de se pensar a liberdade: a possibilidade de escolher. Entretanto, para nós, há outras formas, também, de se pensar esse termo.
O que nos parece, no entanto, inquestionável, é a importância do investimento no transporte público para qualquer cidade, pois isso permite que as pessoas frequentem certos lugares com facilidade e, assim, melhora a qualidade de vida delas; melhora o trânsito caótico que muitas grandes cidades vivenciam; demonstra uma atenção ao meio ambiente, pois muitos carros deixam de circular pela cidade. Em suma, o uso do transporte público diz respeito à democratização do espaço, a um cuidado com as pessoas e com o planeta, a uma postura consciente sobre o mundo em que queremos viver.
Diante disso, sugerimos que tenhamos um olhar mais crítico sobre o modo mais valorizado de locomoção nas cidades, que possamos ver se não há alternativas para nosso deslocamento e, também, que prestemos atenção nas propostas e atitudes dos representantes políticos sobre isso.
Acreditamos que, quando pessoas que não estão acostumadas a andar de ônibus passam a fazê-lo, elas desenvolvem uma atenção maior a vários aspectos. Por exemplo: passam a ter mais cuidado em não invadir a pista do transporte coletivo, a respeitar mais os pedestres, a reivindicar melhoras nesse meio de transporte etc. Do mesmo modo, quem passa a andar de bicicleta tende a respeitar mais os ciclistas e se conscientizar sobre o quanto estes são mais vulneráveis quando estão numa via compartilhada com outros meios de transporte motorizados. A pessoa que também passa a caminhar pela cidade em vez de somente optar pelo transporte motorizado, pode verificar, com mais clareza, a situação dos passeios, das faixas de pedestre, da relação dos motoristas com quem está a pé. Em suma, “o sentir na pele” faz com que mudemos alguns dos nossos comportamentos.
Hoje, temos mais consciência de que a mobilidade urbana é um dos principais critérios para avaliar a qualidade de vida numa determinada cidade e, também, uma forma de analisar qual a relação entre a cidade, o meio ambiente e os cidadãos. Que ideias inteligentes, exemplos, incentivos e iniciativas concretas do governo e da sociedade em geral nos mostrem o quanto pode ser bom caminhar pela cidade ou se deslocar por meio de um ônibus do MOVE, de uma bicicleta, de uma linha de metrô… Enfim, por um meio de transporte público ou, em certas ocasiões, por um que não seja motorizado. Aliás, um meio de locomoção público de qualidade deveria ser um direito essencial de todos – tanto daqueles que podem usar tal transporte com facilidade como daqueles com dificuldades de locomoção ou com qualquer tipo de dificuldade que lhes impeça ou torne mais difícil usufruir de tal transporte. Isso, certamente, é uma forma pela qual as pessoas podem sentir, de modo mais profundo, a sensação não somente de liberdade, mas de respeito, de cuidado e, também, de comunidade. Se isso acontecer e se, ainda, pudermos encontrar, com frequência, com nossos governantes em tais meios de transporte, poderemos experimentar o que cidadãos de alguns países com melhor qualidade de vida consideram corriqueiro.
Patrícia Reis é professora e pesquisadora no departamento de Filosofia da FAJE.
13/08/2026

Foto: Ronaldo Almeida / Shutterstock