Geraldo Luiz De Mori, SJ
“Bem-aventurada aquela que acreditou, porque se cumprirá o que lhe foi dito da parte do Senhor.” (Lc 1,45)
No dia 15 de agosto é celebrada a festa da Assunção de Maria. A devoção à Mãe de Jesus, “assunta ao céu”, é muito antiga nas Igrejas cristãs, como mostra, no Oriente cristão, seu “dies natalis”, ou seja, o dia em que ela nasceu para ao céu, mais comumente denominado de “Dormição de Maria”. Esta devoção surgiu entre os séculos V e VI, inicialmente em Jerusalém, com grande expansão depois no Império Bizantino entre os anos 592-602, sendo introduzida em Roma em 687. Entre os séculos VIII e IX a devoção conheceu grande expansão no Ocidente cristão, conhecida como festa da Assunção, enquanto no Oriente ainda hoje é celebrada como festa da Dormição de Maria. No Brasil esta festa recebe ainda outros nomes, a maior parte deles herdados de devoções portuguesas, como, entre outros, Nossa Senhora da Abadia, Nossa Senhora da Guia, Nossa Senhora da Boa Viagem, Nossa Senhora da Boa Morte, Nossa Senhora da Glória.
Alguns desses títulos lembram algo acontecido a Maria e outros associam o que nela se deu ao que deverá se dar em quem crê no Cristo e vive sua vida segundo o modo de ser e viver crístico. Embora a Constituição Apostólica do Papa Pio XII, que declarou Maria “assunta em corpo e alma à glória celestial”, evoque várias vezes a “assunção” como um “privilégio” concedido à Mãe de Jesus, associando esse dogma ao da Imaculada Conceição, ideia que se encontra em muitos devotos de Maria, o sentido mais profundo desta solenidade remete ao que é professado no Símbolo Apostólico a cada domingo, a fé “na ressurreição da carne e na vida eterna”. Com efeito, no imaginário comum de grande parte dos fiéis católicos, tudo o que aconteceu com Maria é da ordem do sobrenatural. Por isso, muitos a alçam tão alto que muitas vezes, embora seja sentida como próxima da vida humana, ela parece revestida de algo que não é humano. Ora, os textos do Novo Testamento nos quais ela aparece, mostram o contrário. Ela é totalmente humana, como também seu Filho. Em sua humanidade, ela viveu aquilo que na vida de Jesus aparece como a plenitude da vida humana, que, para o judaísmo, é viver conforme a vontade de Deus, ser fiel à aliança, o que implica estar à escuta da palavra divina e colocá-la em prática. Não por acaso esta é a resposta de Jesus quando uma mulher do povo exalta o ventre que o gerou e os seios que o amamentaram, ao que ele responde “mais felizes ainda são os que ouvem a palavra de Deus e a praticam” (Lc 11,27-28). À mesma atitude ela convida os servidores nas bodas de Caná, segundo a narrativa do primeiro sinal realizado por Jesus: “Fazei o que ele vos disser” (Jo 1,5). Embora o privilégio acordado pela Constituição Apostólica e pelo imaginário popular a apresente como uma exceção, os evangelhos a apresentam como um convite a quem segue Jesus.
É interessante, a este propósito, sem tirar nada do que é celebrado na festa da Assunção, recordar uma reflexão feita pelo teólogo Karl Rahner, escrita algum tempo depois da declaração dogmática da Assunção de Maria. Segundo ele, mais que pensar a assunção como um privilégio, concedido por antecipação à Mãe de Jesus, enquanto o conjunto dos fiéis já falecidos aguarda o juízo final, quando seus corpos serão ressuscitados, seria importante lembrar o que é celebrado nesta solenidade. Trata-se de uma festa que enaltece a “glória de Maria”, e essa “glória” é prometida a todos os fiéis que, como ela, buscaram escutar e praticar a Palavra. E nesta escuta e prática, alcançam, como ela, o estado definitivo, que, segundo a fé cristã, é o da glorificação. Na verdade, mais que privilégio, a Assunção de Maria atesta que a ressurreição “em corpo e alma” é a destinação de quem quer que seja que buscou espelhar sua vida na vida do Filho. E Maria, sem dúvida, como tão bem compreendeu a fé da Igreja desde os primeiros tempos, é modelo do que significa viver da escuta da Palavra, que é o próprio Filho, e praticá-la, gerando-a em si, dando-lhe a luz, cuidando-a, ou seja, tornando-a viva e operante no ato mesmo de sua escuta e acolhida. E os que vivem isso, “revestem-se” de Cristo (Gl 3,27; Rm 13,14), tornando-se homens e mulheres novos, que se assemelham cada dia mais “a Deus em justiça e em santidade provenientes da verdade” (Ef 4.24).
Celebrar a solenidade da Assunção, portanto, é reiterar aquilo que é a origem mesma da fé cristã: a ressurreição de Jesus, que aponta para a promessa da ressurreição de todos os que se assemelham a ele. Esta promessa afirma que toda vida que se tornou crística, em sua unicidade, ou seja, em seu caráter único, é prometida não só à glória, mas também à eternidade. Trata-se de uma vida que, como aparece em muitas imagens, brilha como as estrelas do céu, eternamente. O privilégio de Maria é o que a tornou única na história da salvação, ou seja, o fato dela ter sido a mulher que acolheu o chamado para ser a Mãe de Jesus, chamado que implicou uma mudança radical em sua vida, que a associou para sempre à missão de seu Filho. O apóstolo Paulo, na primeira carta aos Coríntios, quando fala sobre a ressurreição universal, faz uma consideração importante. Segundo ele, o primeiro a ressuscitar dos mortos, ou seja, as “primícias”, é Cristo, “depois dele”, vêm os que “são do Cristo, na vinda dele”. Quem foi mais do Cristo que aquela que o gerou para a vida? Este privilégio, sem dúvida alguma, é o de sua mãe. Por isso, a resposta de Jesus ao elogio ao ventre que o gerou e aos seios que o amamentaram, embora pareça não valorizar essa realidade pela qual somos gerados e alimentados, pois coloca no centro a escuta e a prática da palavra, na verdade, na figura de Maria, mostra que ninguém, melhor do que ela, foi ouvinte e praticante da Palavra.
Recordar isso é muito importante, porque chama para aquela realidade que implicou Maria em toda sua existência. Sua maternidade foi algo que implicou sua liberdade, feita de escuta da Palavra divina e de acolhida e prática desta mesma Palavra. Para todo devoto de Maria, portanto, mais que transformá-la numa quase deusa, o mais importante é descobrir nela o que a tornou participante, em sua morte, da vitória de seu Filho, a saber, o fato dela ter ouvido a Palavra e tê-la praticado. E isso implicou toda sua vida, como mostram os episódios em que ela aparece no Novo Testamento: quando é interpelada pelo anjo Gabriel para ser a mãe de Jesus; quando visita sua prima Isabel; quando dá à luz seu Filho; quando foge com José, seu esposo, para o Egito; quando retorna com ele e se instala em Nazaré; quando vai com ele para a festa da páscoa e o perde; quando o busca, junto com seus familiares, que acreditam que ele “perdeu a cabeça”, por não compreenderem o que ele fazia; quando o acompanha no caminho do Calvário, permanecendo, de pé, junto à sua cruz. Como se pode ver, a escuta e a prática da palavra em sua vida são atos concretos, que implicaram muitas vezes sua liberdade de escolha, que se traduziram em deslocamentos, aflições, silêncios, dor, perda, solidão.
A vida de Maria, neste sentido, é como a vida de todos os seres humanos, e esse é o segredo do evangelho. Muitas vezes, ao se alçar Maria num pedestal que a afasta da nossa humanidade, como se fez com seu Filho, esquece-se que é no cotidiano, nos atos que nos humanizam, é que a vida acontece, que vamos construindo aquilo que nos torna únicos, que pode, por isso mesmo, ganhar o caráter de definitividade, podendo ser alçado à glória, que é a vida inteiramente humanizada e, por isso mesmo, acolhida em Deus.
Geraldo Luiz De Mori, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE
13/08/2026
