Das tripas coração

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Marília Murta de Almeida

A expressão “fazer das tripas coração” faz parte de nossa cultura popular. Sugere esforço além das forças pessoais para dar conta de uma situação difícil. Deixando a imaginação livre, podemos pensar que sugere transformar dor em amor, sofrimento pungente em vida. Pedro Casaldáliga escreveu um poeminha assim:

Fazer das tripas

das circunstâncias

coração da paz.

 

Saindo da esfera individual, o poeta propõe a transformação da dor vivida no tempo no germe capaz de gerar a paz. O coração aparece como centro irradiador do novo. As circunstâncias percebidas em suas entranhas se transformam no coração da paz. Se a paz é o bem maior, aparece nesses versos como fruto da dor espremida das circunstâncias da vida.

Entretanto, parece que, para que versos assim não sejam apenas uma beleza sem força, as entranhas precisam ser vividas na interioridade individual. São as nossas tripas que doem. Não basta olhar o sofrimento alheio e aconselhar fazer das tripas coração. O poeta do Araguaia certamente viveu em si as dores que testemunhou. Poeta e místico, Pedro Casaldáliga expressava o que se passava a um só tempo em si e no mundo. Em outro poema, indignou-se e perguntou a Deus sobre por que permite tanto sofrimento:

Os mortos pedem paz inutilmente:

somos filhos e pais da guerra.

Pedem em vão credencial de gente

os muitos condenados da terra.

(…)

E Tu, não dizes nada? não quer saber?

pedes mais cruz ainda? esperas mais sangue?

não sabes te impor, Amor frustrado?

 

A pergunta aí contida dilacera todo aquele que tem fé no Deus Amor. Se Deus é amor, nos ama e por amor nos criou, por que não se impõe para impedir o sofrimento? O último verso acima copiado contém uma resposta: Deus não sabe se impor. Seria, assim, um Deus frágil. Por essa fresta, podemos compreender outra mística de nosso tempo, Etty Hillesum que, em meio à dor pungente dos judeus prisioneiros de campos de concentração, entende que teria que ajudar Deus a nos ajudar:

Hei de ajudar-te, Deus, a que não me abandones, mas não posso assegurar nada com antecedência. Mas uma coisa se torna cada vez mais clara para mim: que não podes nos ajudar, mas que temos que te ajudar, e com isso ajudamos a nós mesmos.

Nossa ajuda a Deus está relacionada a “proteger até o último instante a morada onde resides em nós”, como lemos em outro trecho dos diários de Etty Hillesum. O que vemos nessa reviravolta é a ideia de que Deus só pode nos ajudar se mantivermos em nós o espaço aberto para a sua presença. Etty fez, dessa ideia, ação, passando a ser presença e auxílio para os outros, esperando que cada um pudesse também abrir em si mesmo esse espaço.

A ajuda que podemos dar a Deus é trabalhar para que tenha mais e mais vãos no mundo onde se abrigar, e esses vãos se fazem nos corações humanos. Não porque somos especiais, ao contrário, porque somos capazes de nos afastar e fechar em nós a morada divina. Temos a tarefa de manter o espaço porque somos capazes de o fechar.

Fazer das tripas coração então diz respeito a, frente à dificuldade extrema, abrir espaço para o que nos ultrapassa. Quando sentimos dor ou tristeza intensos, qualquer saída parece impossível. É preciso uma surpresa, uma ação inesperada que só pode vir do que nos ultrapassa. Por isso, manter em nós o espaço para a presença divina é uma forma de nos ajudarmos. Ajudar a Deus e assim nos ajudarmos é permitir a Ele que tenha espaço para agir em nós quando não vemos saída. As entranhas contorcidas pela dor se transformam no oco do coração capaz de gerar o novo pela ação do Deus que é Amor.

Deste modo, se o coração é a morada de Deus em nós, é preciso esvaziá-lo para receber a Sua presença. E só assim, tendo morada em nós, Ele pode nos ajudar a sermos artesãos da paz e não, da morte.

Pedro aponta a impossibilidade divina de se impor, Etty segue a mesma trilha e se põe a trabalho. Se Deus não pode sozinho, percebe que deve ajudá-Lo. Como tantas vozes teológicas já disseram: Deus não pode se impor a nós, porque nos criou livres. Pedro o chama de Amor frustrado. Sua frustração vem de nós, os capazes de viver como “filhos e pais da guerra”. E é de nós também que pode emergir o auxílio necessário para que o Amor seja um dia Amor vivo, a água viva capaz de nos nutrir e nos impulsionar para a vida na paz.

A expressão popular pode portanto ser dita fora da chave do heroísmo. Posso fazer das tripas coração não por minha força heroica de resistência e superação, mas por abrir em mim espaço para que o que eu não controlo e nem conheço venha em meu auxílio.

Marília Murta de Almeida é professora e pesquisadora no departamento de Filosofia da FAJE

20/08/2026

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