O que nosso posicionamento sobre as mulheres diz de nossa humanidade

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Karen Colares

Em muitos momentos, o debate sobre os direitos das mulheres pode ser conduzido de modo a falsear seus pleitos. Muita gente ainda pensa que os feminismos sejam uma versão mais robusta de uma banal guerra dos sexos: mulheres contra homens. A questão é muito mais profunda e indaga sobre nossa humanidade.

Há algumas semanas, li um trabalho da socióloga mexicana Citlalin Ulloa sobre um caso de violência policial ocorrido em 2006 em San Salvador Atenco. Após o presidente mexicano Vicente Fox anunciar a construção de um aeroporto em Texcoco, moradores de San Salvador Atenco bloquearam uma estrada em protesto. Em 4 de maio, a polícia reprimiu brutalmente a manifestação, agredindo dezenas de pessoas e cerca de 47 mulheres foram estupradas em grupo por policiais dentro dos veículos de detenção.

No dia 3 de junho deste ano, em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, uma adolescente sofreu um estupro coletivo; mas, se não bastasse a barbárie do ato em si, parte do crime foi transmitida ao vivo via live no TikTok, com legendas em tom de piada.

As notícias que cito aqui são, infelizmente, um pequeniníssimo apanhado de todas as vis ocorrências a que temos acompanhado. Constantemente fico desolada pelo que leio, vejo e ouço das mulheres, no nível macro e micro. Parceiros que não têm condições de escuta, acolhimento e consideração de outro horizonte que não o próprio, que se estabelecem como referência do que seja significativo — conduta essa que é apenas uma variação da centralidade do masculino que impera socialmente. Sobre esta também não faltam exemplos: o cinto de segurança de três pontos teve seus testes industriais baseados predominantemente no biótipo do homem médio; os testes clínicos de medicamentos até 1993 excluíam mulheres em idade fértil para evitar riscos em gestações não detectadas. Como os testes eram feitos em homens, as dosagens padrão recomendadas em bulas causavam superdosagem nas mulheres, que metabolizam substâncias de forma mais lenta — mil e uma formas de androcentrismo.

Subjacente a todos estes e outros tantos eventos, está a pressuposição de uma humanidade de menor valia para as mulheres, o pensamento de que sejam redutíveis a seus corpos e, portanto, possam ser tratadas apenas a partir dos mesmos. A inferioridade é uma produção cultural e, nesse sentido, um processo de subjetivação: a construção de um eu psíquico que aceita como natural a posição de subalternidade, de pequenez e menor poder. Tal interiorização é realizada com o consentimento e a cumplicidade de toda a sociedade, inclusive das mulheres, e possui variados e desumanizantes desdobramentos.

Sempre me pergunto como as pessoas se sentem diante desses fatos, porque, humanamente falando, tenho por aterrador viver em um mundo no qual o mal perca sua inadmissibilidade.

A realidade não nos cerca como uma instância externa e alheia. Ela se constrói com nossos pensamentos, discursos e práticas. Pequenos e grandes gestos que, ao final, definem a nossa própria humanidade e a de todos ao nosso redor.

 

Karen Colares é professora e pesquisadora no departamento de Teologia da FAJE

27/08/2026

Foto: Shutterstock

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