Elton Vitoriano Ribeiro, SJ
Em abril de 2023, o mundo das artes e da tecnologia foi sacudido por um evento inédito: o artista alemão Boris Eldagsen venceu a categoria Creative Open do prestigiado prêmio Sony World Photography Awards com a obra intitulada Pseudomnesia: The Electrician (Foto). A imagem, um tocante retrato em preto e branco com a estética das fotografias da década de 1940, parecia carregar toda a densidade afetiva do olhar humano. No entanto, Eldagsen recusou o prêmio publicamente. Ele revelou que a obra havia sido gerada por meio de Inteligência Artificial (especificamente com o gerador DALL-E 2) e que sua inscrição fora um teste deliberado para provocar o debate. Para o artista, “imagens de IA e fotografia não devem competir entre si. São entidades diferentes. A IA não é fotografia. Portanto, não aceito o prêmio” (eldagsen.com).
Esse episódio nos interpela e nos faz refletir sobre um dos grandes dilemas da nossa contemporaneidade: afinal, as máquinas podem ser verdadeiramente criativas? Quando uma IA produz um resultado surpreendente, original e esteticamente valioso, quem é o verdadeiro autor? É curioso notar que, na literatura filosófica atual sobre ética e filosofia da tecnologia, a discussão costuma ficar presa em uma polarização reducionista: de um lado, os entusiastas da autonomia sustentam que a IA já é totalmente criativa; de outro, os céticos argumentam que a IA é apenas uma ferramenta mecânica e passiva como um pincel ou uma câmera sofisticada.
Para superar esse impasse, vale a pena acolher a perspectiva pragmática sugerida pelo filósofo da tecnologia Mark Coeckelbergh (Palavra e Presença: Sabedoria e Tecnologia). O autor propõe uma promissora terceira via: em vez de julgar a IA segundo os parâmetros da criatividade humana, devemos reconhecer que a IA pode possuir um tipo distinto de criatividade. A criatividade humana funda-se naquilo que podemos denominar experiência em primeira pessoa, isto é, a vivência subjetiva, consciente e encarnada no mundo. É dessa experiência viva do sofrimento, do amor, do tempo e do corpo que brota a intenção, o estilo e o sentido da arte humana, como bem destacou o Papa Leão XIV na Encíclica Magnifica Humanitas (Palavra e Presença: A Encíclica Magnifica Humanitas: Técnica e Sabedoria). As redes neurais generativas carecem dessa interioridade subjetiva e dessa vivência de mundo; não criam a partir de sentimentos ou intenções próprias. Contudo, para o filósofo, isso não significa que seu papel no processo criativo seja nulo.
A chave para compreender essa terceira via é o conceito de Criatividade Colaborativa (Collaborative Creativity). Quando nos debruçamos sobre a filosofia da autoria e da arte por exemplo, percebemos que a criação raramente é um ato isolado; ela se desdobra em diferentes níveis de interação. Podemos destacar três formas principais. Primeiro, temos a Autoria Conjunta ou Coletiva que exige que dois ou mais autores assumam conscientemente uma responsabilidade compartilhada sobre a obra, pautados por intenções mútuas e planos entrelaçados. Também, temos a Criatividade Colaborativa de Coautoria na qual os autores são parceiros criativos com liberdade de exploração autônoma. Finalmente, podemos citar a Coprodução e Autoria Secundária que é modelo que mais se aproxima da relação entre humano e IA. Aqui, existe um coautor que atua em nome ou em suporte de outro, realizando tarefas cruciais para que o objetivo do autor principal se concretize.
Para alguns filósofos, é nessa perspectiva de coprodução e autoria secundária que a contribuição da IA ganha todo o seu relevo e respalda a tese da colaboração. A IA não atua como mera ferramenta passiva, tampouco como uma autora consciente e autônoma. Ela oferece uma contribuição rica ao processar, recombinar e estruturar dados em uma velocidade e diversidade impossíveis para a mente humana isolada, devolvendo ao artista propostas formais inéditas, inesperadas e instigantes.
Voltemos ao caso inicial. Em Pseudomnesia, Boris Eldagsen não se limitou a apertar um botão, tampouco a IA decidiu criar o retrato por conta própria. Houve um ciclo denso de realimentação (feedback loop). O artista trouxe seu conhecimento técnico, sua intenção poética, seus prompts e sua curadoria humana. A IA, por sua vez, ofereceu escolhas formais gerativas que desafiaram e expandiram a própria imaginação do criador. Assim, a pergunta sobre se a IA é criativa ganha uma resposta esperançosa e atual: a IA exibe uma criatividade colaborativa. Ela não substitui a sensibilidade encarnada do ser humano, mas instaura uma nova forma de aliança estética. Ao reconhecermos a IA como uma autora gerativa secundária, a filosofia nos convida a pensar além do pessimismo e do otimismo fáceis, provocando-nos a investigar como a capacidade humana pode dialogar com o novo. Mas isso já é outra história.
* COECKELBERGH, M. Can Machines Create Art? Philosophy & Tecnology, 30(3), 2017, pp.285-303. doi:https://doi.org/10.1007/s13347-016-0231-5.
Elton Vitoriano Ribeiro, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia, e reitor da FAJE
10/09/2026

Foto: Pseudomnesia: The Electrician, de Boris Eldagsen, com IA