Luiz Sureki, SJ
Vivemos em um tempo em que, silenciosamente, muitos de nós adoecem tentando corresponder às expectativas dos outros. Queremos ser amados, reconhecidos, necessários, apreciados. Em si, nada disso é errado. O problema começa quando a necessidade de agradar se torna tão grande que passamos a medir nosso valor pela aprovação alheia. Nesse momento, deixamos de viver a partir de um centro interior e começamos a existir a partir do olhar do outro. Considere, não obstante, por um momento, que os outros não nos veem como nós somos, mas como eles são!
Agradar a todos parece, à primeira vista, um gesto de bondade, maturidade ou generosidade. Mas nem sempre. Muitas vezes, por trás dessa necessidade constante de corresponder, escondem-se medo, insegurança e uma profunda dificuldade de lidar com a possibilidade de desagradar. Há pessoas que preferem carregar pesos insuportáveis a correr o risco de decepcionar alguém. Dizem “sim” quando gostariam de dizer “não”. Concordam quando, por dentro, discordam. Permanecem em relações desgastadas porque temem ser vistas como ingratas, frias ou difíceis. Mas chega um momento em que a vida cobra verdade. E uma das experiências mais libertadoras, embora inicialmente dolorosa, é perceber o que acontece quando paramos de agradar todo mundo.
A primeira descoberta costuma ser desconcertante: algumas pessoas simplesmente desaparecem. E isso revela algo importante. Talvez não sentissem verdadeiramente nossa falta; sentiam falta apenas daquilo que recebiam de nós: atenção, disponibilidade, favores, acolhimento, facilidades. É duro reconhecer isso, mas necessário. Nem toda proximidade é amizade, nem toda presença é vínculo real. Há relações sustentadas mais pela utilidade do que pelo afeto.
Outra descoberta vem no silêncio. Muitas conversas que pareciam importantes existiam apenas porque nós insistíamos em mantê-las vivas. É quando paramos de mandar mensagens, de procurar, de sustentar unilateralmente o contato, que o silêncio começa a falar. E, não raro, ele diz mais que muitas palavras. O silêncio revela reciprocidade ou sua ausência.
Isso não significa tornar-se indiferente ou emocionalmente frio. Significa apenas reconhecer que relações saudáveis não sobrevivem quando apenas um lado investe continuamente. Relacionamentos não são cabo de guerra em que só um puxa. Amar não é correr eternamente atrás de quem nunca caminha em nossa direção. Em algum ponto desse processo, aprendemos a dizer uma palavra pequena, mas extremamente difícil: não. Dizer “não” exige maturidade. Exige discernimento. Exige coragem. Porque, curiosamente, muitas pessoas demonstram apreço por nós enquanto somos convenientes, enquanto estamos sempre disponíveis, sempre prontos, sempre cedendo, enquanto somos considerados “fáceis de lidar”. Mas basta começarmos a estabelecer limites para que algo mude. De repente, passamos a ser vistos como complicados, difíceis ou egoístas.
Isso revela uma verdade incômoda: nem todos gostavam realmente de nós! Alguns gostavam apenas da facilidade com que podiam acessar nosso tempo, nossa energia e nossa disponibilidade. Estabelecer limites não é egoísmo; é saúde. Com efeito, há uma diferença profunda entre servir e se anular; entre amar e se abandonar; entre ser generoso e permitir-se ser consumido. Quem nunca aprende a colocar limites corre o risco de transformar a própria bondade em esgotamento, e, com isso, perde um fruto precioso: a paz.
Quantas vezes assumimos problemas alheios como se fôssemos responsáveis por resolvê-los? Quantas vezes nos culpamos pelo desconforto, pela frustração ou pela imaturidade dos outros? Quantas vezes tentamos salvar relações que só existiam porque nós as sustentávamos sozinhos? A paz começa quando compreendemos uma verdade simples: nem tudo depende de nós. Há dores que não podemos curar, há expectativas que não podemos satisfazer, há conflitos que não podemos resolver sozinhos, há pessoas que precisarão amadurecer sem nosso constante resgate.
Crescer espiritualmente não significa tornar-se duro, indiferente ou autocentrado. Significa aprender a amar sem perder a alma. Jesus é o exemplo mais admirável disso. Ele acolhia, escutava, curava e amava profundamente. Mas nunca viveu escravizado pela aprovação das pessoas. Sabia dizer “sim” e sabia dizer “não”. Sabia aproximar-se e também retirar-se para rezar, meditar, estar a sós. Sabia servir sem se deixar capturar pelas expectativas alheias. A maturidade consiste exatamente nisso: amar sem se anular, servir sem se perder, doar-se sem se abandonar.
O fato é que agradar a todos é uma tarefa impossível. Sempre haverá quem se frustre, discorde ou se afaste. A verdadeira liberdade começa quando aceitamos isso com serenidade. Porque paz não é fazer tudo por todos. Paz é permanecer fiel ao que, em consciência, reconhecemos como verdadeiro, bom e justo. Quem vive para agradar a todos acaba, muitas vezes, perdendo a si mesmo. Amar não é dizer “sim” a tudo; é aprender a permanecer verdadeiro sem deixar de ser compassivo.
Luiz Sureki, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE
(24/09/2026)

Foto: Magnific