Corrupção: prática antiquíssima, na contramão de Deus e da fé!

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Jaldemir Vitório, SJ

A corrupção é um câncer maligno que contamina, com sempre novas metástases, o tecido social brasileiro. Pode-se alargar e dizer: a humanidade inteira! Sua prática e seus efeitos perversos se percebem por todos os lados. O famigerado “jeitinho brasileiro”, no fundo, é corrupção com carimbo de “permitido”. O “ninguém está vendo”, por sua vez, elimina o peso na consciência por desvios de conduta, como se o anonimato diminuísse a gravidade dos malfeitos. Passar a perna nos outros, furar fila, não respeitar o sossego alheio, comprar gabarito de provas, dar propina (“molhar a mão”), estacionar em vagas reservadas para portadores de necessidades especiais, não honrar a palavra dada, abusar da boa-fé de pessoas incautas e uma lista infindável de atitudes afins são todas ações de pessoas e mentes corruptas. Caso contrário, não agiriam assim!

A corrupção tem muitas caras, dentre elas, a corrupção religiosa praticada por pessoas, igrejas e instituições ligadas à fé judaico-cristã. Na maioria das vezes, essa forma de corrupção passa batido, como as que acontecem no interior das comunidades religiosas. Não se tem coragem de “dar nome aos bois”! Todavia, a que mais mais chama a atenção, mormente na mídia, é a corrupção política, envolvendo roubos milionários e desvio de verbas públicas destinadas a programas sociais, em favor dos desprotegidos e fragilizados.

A corrupção provoca uma fome insaciável de dinheiro; assim, quais vampiros, os corruptos sugam até a última gota de sangue dos que não têm como se defender e, em certos casos, nem chegam a se dar conta de estarem sendo explorados. Os corruptos agem como o animalzinho referido no provérbio bíblico que declara: “a sanguessuga tem duas filhas: ‘me dá’ e ‘me dá’ [que] jamais dizem: ‘basta!’” (Pr 30,15). Políticos corruptos “cristãos”, como os demais, são insaciáveis no acumular dinheiro (e enganar!), desprovidos de qualquer sentimento de misericórdia e compaixão, à revelia do Mestre Jesus de Nazaré que ensina a sermos “misericordiosos como o Pai é misericordioso” (Lc 6,36).

O fenômeno da corrupção, qualquer que seja, infelizmente, só é denunciado quando passa dos limites, ao ser, em larga escala, aceito e justificado, como no caso da política do “rouba, mas faz!”. Entre nós, torna-se escandaloso, ao se pensar o Brasil como “país cristão”: a imensa maioria da população tem em mãos a Bíblia e declara guiar-se por ela;  multiplicam-se igrejas e movimentos cristãos como cogumelo depois da chuva; fala-se, de boca cheia: “Deus acima de tudo e de todos!”; inumeráveis influencers “cristãos”, gurus com milhões de seguidores, fazem a cabeça de seu público; enfim, o nome de Deus ocorre a cada passo: “Deus lhe pague!”, “vá com Deus!”, “graças a Deus!”, “se Deus quiser”, “Deus no comando!” Mero verniz religioso a encobrir mazelas de todo tipo, a ponto de não causar indignação nos falsos adoradores do Deus da fé bíblico-cristã, um Deus de propósitos éticos, como se Ele as tivesse aprovando ou, no mínimo, acobertando. Pensando bem, o deus da maioria dos cristãos e cristãs brasileiros, é o deus da injustiça, da corrupção, da malandragem, da picaretagem, do jeitinho, que não se indigna com a conjuntura social, política, econômica e religiosa reprovada pelo Deus verdadeiro. Muitos líderes religiosos e  políticos “cristãos” corruptos são, deveras, adoradores de miseráveis ídolos!

Em larga escala, falta aos cristãos e cristãs a ousadia do profeta Miqueias que, no século VIII a.C., se pôs a denunciar a corrupção generalizada de seu tempo: “infeliz de mim! […] O fiel desapareceu da terra; não há um só justo entre as pessoas! Todos estão à espreita para derramar sangue. […] Suas mãos são para o mal. Os líderes exigem dinheiro para fazer o bem, assim como o juiz. […] Não confiem no próximo, não confiem nos amigos. Guardem-se de abrir a boca e fazer confidências, com suas esposas. O filho insulta o pai, a filha levanta-se contra sua mãe, a nora contra sua sogra, os inimigos das pessoas estão dentro de suas próprias casas” (Mq 7,1-7). Noutra ocasião, sem meias palavras, denunciou a corrupção de três agentes sociais importantes: “os juízes julgam por suborno; os sacerdotes decidem por salário e os profetas vaticinam por dinheiro” (Mq 3,12). Quem devia se preocupar com o povo, tornou-se seu carrasco! O profeta Amós, seu contemporâneo, denunciou os comerciantes exploradores dos pobres e indigentes, ao venderem produtos sem qualidade, diminuir o peso, aumentar o preço, falsificar as balanças e, ao mesmo tempo, piedosamente, prestarem culto a Deus, embora seus corações estivessem longe Dele (Am 8,4-6). Tempos depois, o profeta Jeremias (século VII a.C.) proclamou, bem na entrada do Templo de Jerusalém, a falsa religião ali praticada, com muito culto e liturgia, entrementes, desprovida de moralidade e compaixão. Religião corrompida e corrompedora! A falsa segurança religiosa levava os adoradores a se esquecerem que proteção e bênçãos de Deus são condicionadas: “se realmente vocês melhorarem suas ações e o modo de se comportar; se realmente se pautarem pelo querer de Deus no trato com o próximo; se não oprimirem o estrangeiro, o órfão e a viúva, não derramarem sangue inocente neste lugar; e não praticarem a idolatria…” (Jr 7,1-11).  O mau exemplo vinha de cima! O rei e seu agir corrupto estiveram na mira do profeta, que não suportava vê-lo explorar os construtores de seu novo palácio, “espaçoso e com vastos aposentos”, obrigando-os a trabalhar de graça, sem lhes dar o devido salário (Jr 22,13), quando a Lei de Deus ordenava o pagamento diário (Dt 24,15). O agir social marcado pela ética e pela moralidade era pressuposto para se gozar a proteção divina, anteparo contra toda sorte de mal. Caso contrário, o castigo viria na certa! O profeta Oseias (século VIII a.C.) denunciou a corrupção de “um bando de sacerdotes assassinos” que assaltavam de emboscada as caravanas de fiéis a caminho do santuário de Siquém, para roubá-los (Os 6,9). Como se vê a pilantragem das lideranças religiosas vem de longa data!

A denúncia profética da corrupção estava em perfeita sintonia com a Lei de Deus. A Lei dava orientações precisas para os juízes agirem corretamente: “não farás curvar a justiça, e não farás distinção de pessoas; não aceitarás presentes, porque os presentes cegam os olhos do sábio e destroem a causa dos justos. Deves procurar unicamente a justiça” (Dt 16,19-20). Um código mais antigo dizia: “não aceitarás presentes, porque os presentes cegam aqueles que veem claro, e perdem as causas justas” (Ex 23,8). Esses juízes são malditos! (Dt 27,25). Uma Lei rigorosa visava precaver a corrupção dos reis, de modo a “não se levantarem orgulhosamente sobre seus irmãos” (Dt 17,16-20). A corrupção dos profetas, por ser gravíssima, devia ser punida com a morte (Dt 18,20). As leis bíblicas contra a corrupção social são inumeráveis, como as elencadas em Dt 24,5-25,4. Não se pode contemporizar com a corrupção na sociedade querida por Deus, por ser indigna do verdadeiro adorador!

A tradição sapiencial bíblica, por sua vez, reforça os ensinamentos da Lei e dos Profetas, quando se trata de corrupção. O Livro dos Provérbios ensina: “o suborno é talismã para quem o dá: para qualquer lado que se volte tem sucesso” (Pr 17,8); “presente secreto aplaca a ira; suborno em sigilo, aplaca o furor violento” (Pr 21,14); “o ímpio aceita suborno debaixo do manto, para distorcer o direito” (Pr 17,23); “quando os justos se multiplicam, o povo se alegra; quando o corrupto governa, o povo geme” (Pr 29,2).

A Primeira Carta a Timóteo constata, com precisão: “a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro, por cujo desejo desenfreado alguns se afastaram da fé, e a si mesmo se afligem com múltiplos tormentos” (1Tm 6,10). Causa espanto se observar como tantos agentes de corrupção, descaradamente, se declaram cristãos e defensores dos valores cristãos, embora agindo como adoradores do ídolo dinheiro, quando o Mestre Jesus de Nazaré declarou a impossibilidade de “servir a Deus e a Mamonas”, divindade concorrente de Deus, em geral, traduzida como Dinheiro (Mt 6,24). O primeiro passo do discipulado cristão autêntico consiste em tomar uma decisão radical: optar por Deus e rejeitar todo tipo de idolatria!

Se a Bíblia condena, com clareza e contundência, toda sorte de corrupção, venalidade, suborno, injustiça, como contrárias ao Projeto de Deus para seus filhos e filhas, como se explica existir cristãos e cristãs mergulhados em toda espécie de corrupção? Se insiste na preocupação de Deus com os mais fragilizados, por que, quando se fala em agentes da corrupção em detrimento dos empobrecidos, lá estão cristãos e cristãs, com o nome de Deus na boca? Se o Deus da tradição judaico-cristã exige correção e honestidade – ética – no trato com o próximo, por que existe tantos “cristãos” corruptos, desonestos, exploradores, abusadores, perversos, desprovidos de entranhas de misericórdia, no trato com o semelhante? Se exige dos governantes agirem com misericórdia e se pautarem pelo direito, ou seja, sua Lei, como se explica a quantidade de políticos, ditos “cristãos”, metidos em falcatruas, enriquecimento ilícito e negócios escusos? Por conseguinte, essa conta não fecha, sinal evidente de serem idólatras desalmados, com ares de cristãos exemplares.

A exortação do Profeta Ezequiel, dirigida à liderança de Israel, deveria ecoar nos ouvidos dos cristãos corruptos de todos os tempos, em especial, a classe política e religiosa: “ó príncipe de Israel, corrupto e perverso, o dia do acerto de contas chegou” (Ez 21,30). Sim, a corrupção e a perversidade dos falsos cristãos – e de todos os corruptos – terá fim! Quem se serve da política ou de cargos públicos, bem como da religião, para se enriquecer, roubando dos pobres e praticando qualquer ilícito, não passa despercebido aos olhos de Deus. A hora de prestar contas a Deus, chegará! Eis o que ensina a fé bíblico-cristã.

Pe. Jaldemir Vitório SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

(24/09/2026)

Foto: Susan Bughdarya – Unsplas

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