Uma política nascida do Amor: a teoria social cristã de Emmanuel Tourpe

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Elton Vitoriano Ribeiro, SJ

O pensamento filosófico e teológico contemporâneo tem sido desafiado a responder às profundas fraturas sociais e ao esgotamento dos modelos do contrato social herdeiro da modernidade. É nesse cenário de busca por novos referenciais humanizadores que sobressai a figura de Emmanuel Tourpe (https://emmanueltourpe.com/ ). Doutor em filosofia, Tourpe tornou-se nos últimos anos um dos nomes mais originais da filosofia francófona e cristã. Seus trabalhos sobre a metafísica do ser como amor e sua ontologia da doação, são muito conhecidos e valorizados no pensamento europeu atual. Laureado com o Grand Prix Catholique de Littérature, sua trajetória intelectual combina rigor conceitual com um diálogo criativo entre o pensamento metafísico clássico (Tomás de Aquino), a fenomenologia do amor e a filosofia cristã contemporânea (de Claude Bruaire, M.D. Chenu e Lorenz Puntel).

Em seu livro mais recente, Politique de l’amour: une théorie sociale chrétienne (Éditions du Cerf, 2026), Tourpe parte do diagnóstico de que o contrato social moderno e o paradigma utilitarista esgotaram sua capacidade de produzir uma verdadeira coesão social coletiva, ou seja, de formar uma sociedade humanizada. A tese central da obra propõe uma revolução no nossa foram de compreender a política: e se adotássemos o amor como o verdadeiro fundamento da ordem política? Longe de um pensamento ingênuo, a obra demonstra que o amor, compreendido em sua densidade ontológica e como dom constitutivo, não é um mero sentimento privado ou uma virtude individual. O amor é, para Tourpe, a chave estruturante do tecido social. Por isso, o autor nos convida a superarmos tanto a hiper-polarização ideológica quanto a redução da sociabilidade ao mero cálculo de interesses e direitos individuais; resgatando assim a vocação da política como uma das formas mais altas da caridade humana como defendia Papa Francisco (Palavra e Presença: O Humanismo do Papa Francisco).

A partir dessa premissa, a construção de uma Teoria Social Cristã busca uma rigorosa articulação entre fé e razão sociopolítica. Para Tourpe, o cristianismo possui uma gramática social própria que não se reduz a uma ideologia partidária nem se deixa capturar pelas divisões convencionais de direita ou de esquerda. Sua proposta fundamenta-se na ideia de que o ser humano é ontologicamente relacional, criado e sustentado pelo amor gratuito. A teoria social cristã, então, articula a afirmação da dignidade intrínseca da pessoa humana, do princípio da solidariedade, do princípio de subsidiariedade e da busca do Bem Comum como comunidade de vida. Ao invés de fundar a sociedade no medo do outro (Hobbes) ou na concorrência de interesses (Locke), Tourpe demonstra que a sociabilidade autêntica nasce da mútua doação e da responsabilidade irrenunciável pelo cuidado do vulnerável.

Discutido esses pontos importantes, Tourpe passa a desenvolver uma Política do Amor que exigirá a redefinição das práticas democráticas e do debate público. Na visão do autor, o primeiro gesto verdadeiramente político consiste no princípio de “salvar a proposição do outro” (como ensinava Santo Inácio de Loyola nos Exercícios Espirituais). A política do amor manifesta-se em uma disposição voluntária e ativa para reconhecer a legitimidade do interlocutor, superando o combate de aniquilação ideológica trazido pelas bolhas, pelos algoritmos e pelos partidarismos. Essa política propõe a substituição da lógica da posse e do conflito pela lógica do dom, da escuta, do diálogo; e da instituição de estruturas sociais que promovam a autorrealização e o florescimento humano integral. Trata-se de converter a caridade em justiça estruturada e institucionalizada nas instâncias familiares, eclesiais, comunitárias, sociais estatais e globais.

Portanto, a atualidade e a novidade da proposta de Emmanuel Tourpe residem no fato de oferecer um sopro de esperança e rigor conceitual em um tempo marcado pelo ressentimento, pelo cinismo político e pela fragmentação social. Ao traduzir a convocação profética dos últimos Papas para a construção de uma Civilização do Amor em uma teoria filosófico-social bem articulada, nosso autor não apenas responde à crise do modelo democrático atual, mas também devolve ao cristianismo sua força utópica e transformadora no espaço público. Trata-se de uma leitura indispensável para aqueles que buscam repensar o agir humanizado e humanizador, lembrando-nos de que a política só alcançará sua dignidade plena quando se reconhecer, em última instância, como expressão e serviço do Amor. A proposta é fantástica e inspiradora! O desafio é indagar sobre a força e efetividade desta proposta nas sociedades contemporâneas que são, basicamente, sociedades capitalistas neoliberais, ou para falar como Nancy Fraser, sociedades que vivem sob o manto de um Capitalismo Canibal (Palavra e Presença: Capitalismo Canibal). Mas, essa já é uma outra história.

Elton Vitoriano Ribeiro, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia, e reitor da FAJE

(24/09/2026)

Foto: Famille Chretienne – Emmanuel Tourpe

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