Alfredo Sampaio Costa, SJ
Entre a carne e o espírito
Para se convencer da importância do discernimento e do acompanhamento dentro de toda a experiência espiritual, é suficiente reler alguns versículos bastante conhecidos do cap. 8 da Carta aos Romanos: “Vós não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito, já que o Espírito de Deus habita em vós”. Um pouco mais adiante, ele precisa: “Portanto, irmãos, já não somos devedores da carne, para que vivamos segundo a carne. De fato, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis, pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus…” (Rm 8, 12-16). Paulo é perfeitamente consciente de que se acha, sem querer, encurralado em uma alternativa. Ele deve escolher entre “viver segundo a carne” e “viver segundo o Espírito”. No primeiro caso, deixar-se-ia “conduzir pela carne”; no segundo, é “conduzido pelo Espírito”. Como fazer esta escolha, posto que os dois polos da alternativa parecem escapar à sua consciência? De fato, Paulo diz explicitamente que não sabemos como orar, mas o Espírito ora em nós, com gemidos inexprimíveis. A moção do Espírito está fazendo sua obra em nós, mesmo que não percebamos, mesmo que seus gemidos em nós não sejam escutados e interpretados senão por Deus, pois somente Deus sonda os corações (Rm 8, 26-27).
Nestas poucas linhas, o Apóstolo comunica-nos uma descrição bastante precisa da experiência cristã, com a parte de mistério que ela implica, já que tal experiência nos põe em contato com a própria vida de Deus e igualmente com sua parte de ambiguidade, sempre possível. Ele explicitará essa ambiguidade no cap. 5 da Carta aos Gálatas: “Digo, pois: Deixai-vos conduzir pelo Espírito e não satisfareis as obras da carne. Porque os desejos da carne se opõem aos do Espírito, e estes aos da carne; pois são contrários uns aos outros. É por isso que não fazeis o que quereríeis…” (v. 16-17).
Não saber orar como convém, nem fazer o que se quereria; não há como exprimir com maior felicidade as perplexidades e a desordem que gera a tensão Espírito-carne em todo crente. A situação presente do cristão implica tensão e lutas. Desde o batismo, é entregue ao Espírito Santo e se encontra verdadeiramente sob seu domínio. Nele, o Espírito desenvolve continuamente sua ação, a maior parte do tempo sem que o batizado o perceba, aparentemente incapaz de conscientizar-se disto. Mas nele moram, ainda, uma outra força e uma outra ação, que também não são fáceis de localizar e identificar, e que marcam a sua existência com uma ambiguidade insuperável. É esse dinamismo, alheio à vida do Espírito, que Paulo indica pelo vocábulo “carne”.
Espírito e carne são duas noções espirituais que podem dizer respeito, indistintamente, tanto ao corpo quanto à alma. Um corpo pode ser carnal ou espiritual. A alma também. Toda nossa existência cristã desenrola-se, ao mesmo tempo, na carne e no Espírito, o que torna particularmente árduo fazer-se o discernimento entre ambos. Estamos destinados a nos deixar conduzir pelo Espírito, mas podemos ser também o joguete da carne. Como distinguir concretamente entre os dois? Evidentemente, trata-se aqui de um dos desafios mais fundamentais de toda a existência cristã e, sem dúvida, um dos mais urgentes no concreto da vida.
Discernimento e Palavra de Deus
Qual a ligação que se estabelece entre o crente e a escuta da Palavra de Deus? A inteligência dessa ligação é necessária na medida em que essa escuta constitui talvez a chave essencial de todo discernimento espiritual.
A simples audição da Palavra de Deus já constitui em si um exercício de discernimento. Para compreender a palavra bíblica como Palavra de Deus, dirigida a cada um de nós em particular, impõe-se um primeiro discernimento. Pois várias leituras da Palavra de Deus são possíveis. Uma abordagem da Palavra de Deus como palavra humana, situada de forma bem concreta em uma história, língua e gênero literário particulares, não basta, contudo. Para acolher a Palavra de Deus no que ela é, verdadeiramente, para nós, como uma Palavra que Deus nos dirige hoje, impõe-se um discernimento que é chamado pelos monges do Ocidente de “lectio divina”, a saber: a leitura da Bíblia, entendida como escuta de Deus que nos fala através dela. Um discernimento como esse supõe uma disponibilidade contínua ao Acontecimento da Palavra de Deus. Acontecimento que se renova sem cessar no coração de cada leitor que crê. É a nós, homens e mulheres de fé de hoje, que se dirige, inicialmente, a Palavra de Deus. O Acontecimento da Palavra não deixa a pessoa incólume: a Palavra de Deus que se escuta atinge o coração, faz-nos fremir e sobressaltar-se, produzindo o fruto preciso de uma sensibilização, acrescida à moção do Espírito Santo. A Palavra de Deus, ela mesma, toca o coração, fere-o e, ferindo-o, revela-o, sensibiliza-o e torna-o clarividente. A presença ininterrupta do Espírito na letra da Escritura suscita-as em nós e a palavra bíblica, inspirada infatigavelmente pelo mesmo Espírito, torna-se a Palavra que Deus nos dirige concretamente hoje.
Discernimento espiritual e mudança de mentalidade
“Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito” (Rm 12,2).
A capacidade de discernir a vontade de Deus requer uma nova sensibilidade espiritual, precisamente aquela que nos é dada através do acontecimento da nossa conversão. A ação do Espírito Santo não terá jamais fim, e a primeira conversão não é senão um começo cujas consequências são imprevisíveis. A nova condição humana assim recebida é destinada a crescer e a evoluir ao infinito. Da mesma forma ocorre com o discernimento espiritual; também ele é chamado a aperfeiçoar-se sempre mais por um refinamento progressivo.
O discernimento espiritual encontra-se com outros dois momentos importantes da experiência cristã: a oração e a ação.
Discernimento espiritual e oração
A oração constitui o lugar por excelência onde o discernimento verifica-se mais necessário e o lugar onde podemos facilmente aprendê-lo. Quando alguém se põe a rezar, é não somente o Espírito que está trabalhando nele, mas ainda é o Espírito que o precedeu na oração. A oração é assim um discernimento em ato, na medida em que ela consiste, essencialmente, em abandonar-se de maneira progressiva à oração do Espírito em nós, cada vez que, um pouco de súbito, esta aflora à nossa consciência. Deus nos destinou a perceber algum sinal da sua ação em nós. É ele que, pacientemente, ensinar-nos-á a perceber e interpretar o movimento interior do Espírito no nosso coração.
A sensibilidade interior, que nos permitirá pressentir algo daquilo que Deus está operando em outrem, é exatamente a mesma sensibilidade que nos concede perceber o Espírito Santo impelindo-nos à oração e que coloca em nossos corações as próprias palavras de nossa oração; é, enfim, a mesma sensibilidade que nos harmoniza no sentido profundo da Palavra de Deus.
O guia deve achar-se em estado de sentir a operação de Deus mesmo quando este parece sair dos caminhos já trilhados e pedir coisas inesperadas.
Ao acompanhante é simplesmente pedido saber reconhecer o caminho e a direção na qual Deus docemente orienta aqueles que acompanhamos. Pode acontecer que Deus seja aparentemente desconcertante, tanto para o acompanhante como para o acompanhado, ou então que Ele pareça atraí-los para uma obscuridade onde desapareceram todos os sinais do saber e onde um e outro sentem-se completamente abandonados. A única coisa que importa então é reconhecer a mão de Deus, mesmo quando se tem a impressão de que tudo está perdido e de que se está a ponto de perder-se a si mesmo. A impressão, e mesmo a quase certeza, de que não se avança mais, de que se estagna desesperadamente, é destituída de toda importância. Basta ser capaz de discernir o sentido que Deus entende dar ao que é aparentemente um revés e ao sentimento de frustração que daí nasce. Toda morte aparente é promessa de vida nova, e reconhecer os clarões desta vida nova através da morte provisória é, precisamente, a obra principal do discernimento espiritual.
Discernimento espiritual na ação
O outro eixo da vida cristã, o da ação, parece, à primeira vista, oposto ao da oração. Contudo, isso é apenas uma visão superficial das coisas. A ação não é menos importante que a oração.
O que importa verdadeiramente, tanto na oração como na ação, é estar realmente sob a moção do Espírito. Ora, esta sensibilidade ao Espírito aprende-se tão bem na oração quanto na ação. O que foi aprendido na hora da oração facilitará a descoberta da ação de Deus na hora da ação; simetricamente, o que é aprendido da atividade de Deus no coração da ação facilitará a escuta do Espírito no momento da oração. Nos dois casos, importa estar em estado de espera e adotar uma atitude de escuta, auscultando, escutando os sinais do Espírito Santo.
Neste nível de profundidade, mais do que uma interação fundamental entre a oração e a ação é paradoxalmente a sua própria distinção que se acha abolida. Ambas são tomadas na mão, deixando-se guiar, semelhantemente, por uma mesma sensibilidade interior. Num dado momento, o discernimento espiritual significará “atenção interior ao movimento do Espírito que impulsiona à oração; noutro momento, será “atenção ao que este mesmo Espírito impulsiona a fazer concretamente”.
Talvez esteja aí o sentido da recomendação que Inácio de Loyola transmitiu aos seus companheiros, pedindo-lhes estar contemplativo no coração mesmo da ação. Não se trata de confundir ação e contemplação, nem de pretender, como se escuta às vezes, que a ação pode se substituir à contemplação, e mesmo dispensar-se dela. Ao contrário, trata-se de aprender a agir pacificamente, de modo que este ouvido interior permaneça sem cessar à escuta das moções do Espírito Santo e que a ação se deixe continuamente guiar por estas. Trata-se de pôr-se à escuta do coração, para perceber aí os sinais do impulso interior do Espírito e para verificar se a atividade desenvolvida no exterior está sempre de acordo com aquela. Compreende-se a importância desses retornos ao interior, que permitem ao apóstolo mais engajado reconciliar incessantemente sua atividade de homem ao impulso do Espírito, assim como ele é capaz de auscultá-la em seu coração.
Peçamos ao Senhor que nos faça atentos para perceber como o Espírito de Deus está agindo em nós e nos nossos irmãos e irmãs, colocando-nos a serviço deles na Igreja!
Pe. Alfredo Sampaio Costa, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE
(24/09/2026)

Foto: Samuel Cruz – Unsplas