Responsabilidade! O futuro em disputa

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Élio Gasda

Uma escola, um documento, uma fila, uma urna e algumas teclas, centenas de fotos e números, um voto e o som: CONFIRMA, o futuro de uma nação! As eleições colocam em debate as prioridades do Brasil. Exige discernimento! Pois, para destruir uma nação inteira, basta o ato impensado de um único momento.

Ansiedade. Tensão e angústia. Medo e esperança. Responsabilidade. A disputa ultrapassa a sucessão presidencial. O país vive seu momento mais perigoso deste século. Em jogo estão a democracia, a soberania, o Estado, o futuro das novas gerações, a economia, os direitos humanos e sociais, a indústria nacional, o direito à expressão cultural, a liberdade religiosa e até o ateísmo. Soberania não se resume ao uso da bandeira ou a estufar o peito e cantar o hino nacional. Soberania: assegurar a continuidade do combate à fome e a defesa das conquistas populares, apoiar os sindicatos nas lutas pelos direitos trabalhistas, ampliar investimentos em educação, saúde, ciência e tecnologia, enfrentar o aquecimento global, preservar a natureza e defender os povos indígenas.

O voto ultrapassa fronteiras nacionais. O Brasil é visto como o “fiel da balança” da geopolítica: peso econômico, recursos estratégicos e protagonismo nos BRICS. O país possui as segundas maiores reservas de terras raras, de água doce, é um grande produtor mundial de petróleo e gás. Por fim, pode se tornar a última trincheira da democracia e da soberania da América do Sul, ou se tornar um quintal dos Estados Unidos.

A revolução digital deslocou o eixo da política. A eleição é disputada inteiramente na era da IA. A disputa se dá, prioritariamente, em plataformas digitais dominadas por gigantes de tecnologia – Big techs estadunidenses. Recomendações, algoritmos de engajamento e prioridades de conteúdo podem alterar a percepção de milhões de eleitores.

Perigo! O país está vulnerável. O cenário é perfeto à extrema-direita global. Emerge uma nova forma de manipulação, mais profunda. O terreno físico cede protagonismo cognitivo, emocional. Emoções subjetivas são o principal alvo das campanhas. Fé, raiva, ressentimento e moralismo substituem fatos e argumentos racionais. Antes do voto, os afetos. O algoritmo politizou o inconsciente. As emoções já estão à flor da pele antes mesmo do período eleitoral.

A democracia formal continua existindo, mas a disputa foi deslocada. Nas plataformas digitais, dinheiro, dados e algoritmos decidem o conteúdo e o destinatário. O eleitor pensa que tomou uma decisão livre. Porém, foi induzido por um poder que explorou seus medos, preconceitos e ressentimento. Instrumentalizou sua fé!

A tecnologia é política. A rede social é política. Político e tecnológico estão conjugados. A era digital vem consolidando o projeto da extrema direita. Não há neutralidade. O poder das elites econômicas expandiu-se drasticamente com as big techs. Investem sua riqueza para ditar o futuro do país e corromper a democracia. A tentativa de captura da soberania nacional afetará de maneira violenta as populações mais vulneráveis, as mulheres negras, os povos indígenas, as comunidades quilombolas, as periferias urbanas, a classe que vive do trabalho.

Nenhum sistema de dominação é absoluto. Todos podem ser desarmados e enfrentados. Ou nos reinventamos como nação ou nos preparamos para o pior. A democracia exige cidadãos com capacidade de reflexão e discernimento. Em última análise: Resistência ou entreguismo. Os povos da América Latina precisam recuperar a capacidade de decidir seu próprio destino.

“O homem prudente age com discernimento. O insensato revela sua loucura” (Prov.13,16). O discernimento é a forma imprescindível no momento de tomar decisões importantíssimas como a de autorizar alguém a governar em nosso nome. Deixar-se levar pelos afetos é irresponsabilidade. Está em jogo o destino das gerações futuras.

Para o cristão, Coerência! Cristo é o critério principal. O voto é responsabilidade com os pobres. Jesus deu de comer a quem tinha fome, amou de maneira especial os mais pobres e discriminados. Discernimento é decidir inspirado nas bem-aventuranças (Mt 5, 3-12). Sejam misericordiosos como o Pai. Trabalhem pela paz. Amem seus inimigos e rezem por eles, acolham os estrangeiros, visitem os presos, perdoem. Lutem pela felicidade dos que sofrem, consolem os que choram, repartam seus bens com os pobres. Como ensinou Papa Francisco, “As maiores preocupações de um político deveriam ser a de encontrar uma solução para a exclusão social e econômica… os políticos são chamados a cuidar da fragilidade dos povos e das pessoas” (Fratelli tutti, 188).

Por fim, é preciso levar a sério o que disse o Papa Leão XIV: “A extrema direita não é expressão autêntica do cristianismo”. De fato, foram 61 ataques contra a CNBB e seus bispos desde 2018 (Comissão Brasileira de Justiça e Paz). A fruta não cai longe do pé. O pior já passou. Mas não deixemos o pior voltar. A Bíblia nos adverte: “Em alma perversa a sabedoria não entra” (Sab 1,4).

Oremos, como Papa Francisco: “Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos, que tomem verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres” (Evangelii gaudium, 205).

Não há razão para subestimar o que está em jogo. Por isso, “confiamos nosso país à proteção de Nossa Senhora Aparecida, Mãe e padroeira do povo brasileiro. Que ela nos ajude a percorrer caminhos de justiça, verdade e paz (CNBB. Mensagem ao povo brasileiro por ocasião das eleições de 2026).

Valei-nos, Mãe Aparecida.

 

Élio Gasda é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE

01/10/2026

Foto: Tutz Dias, Unsplash

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