Quando votar é mais que escolher pessoas

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Luiz Sureki, SJ

Em tempos de eleições, os nomes próprios ocupam quase todo o espaço. Fulano disse isso; sicrano respondeu aquilo; um acusou o outro; outro recuperou uma acusação de anos atrás. Fotografias, vídeos, frases recortadas e declarações polêmicas circulam com enorme velocidade. Aos poucos, a eleição parece transformar-se numa disputa entre pessoas que amamos ou detestamos. E talvez percamos de vista uma pergunta muito mais importante: quando votamos, estamos escolhendo apenas uma pessoa (ou pessoas) ou estamos também escolhendo um projeto de sociedade?

A pergunta parece simples, mas toca um dos problemas centrais da democracia contemporânea. Evidentemente, as pessoas importam. Importam sua trajetória, sua honestidade, sua capacidade de governar, sua competência, seu respeito às instituições e, sobretudo, a coerência entre aquilo que dizem e aquilo que fazem. Seria ingênuo imaginar que se possa separar completamente um projeto político da pessoa que pretende realizá-lo. Mas também é perigoso fazer o contrário: reduzir toda a política à personalidade do candidato.

Quando isso acontece, o debate público facilmente se transforma numa disputa entre “bons” e “maus”. E as categorias políticas “direita” e “esquerda”, que possuem histórias, pressupostos e diferentes compreensões da sociedade, passam a funcionar como rótulos morais. Para alguns, tudo o que vem da esquerda é necessariamente mau e temerário; para outros, todo pensamento de direita é, por definição, moralmente suspeito ou conservador. Desse modo, já não precisamos conhecer propostas, estudar programas ou examinar consequências. Basta saber de que lado alguém está para decidir antecipadamente se merece nossa aprovação ou nossa condenação. Mas política não é uma luta metafísica entre anjos e demônios.

Direita e esquerda não são sinônimos de bem e mal. São tradições políticas plurais, internamente diferenciadas, que enfatizam de modos distintos questões como liberdade, igualdade, justiça social, propriedade, papel do Estado, mercado, segurança, responsabilidade individual, solidariedade e distribuição de bens. Pode-se discordar profundamente das soluções propostas por uma corrente política sem concluir que todas as pessoas que as defendem sejam moralmente perversas. A democracia começa justamente quando reconhecemos que pessoas comprometidas com o bem comum podem discordar sobre os melhores caminhos para realizá-lo. Isso exige algo mais difícil do que escolher um lado: discernir.

Discernir politicamente significa perguntar não apenas “quem é o meu candidato?”, mas: que sociedade esse candidato e seu grupo político pretendem construir? Quais problemas consideram prioritários? Que políticas públicas propõem para enfrentá-los? São economicamente viáveis? Como pretendem lidar com pobreza, educação, saúde, segurança, emprego, meio ambiente, desenvolvimento econômico? Como compreendem as instituições democráticas, a liberdade de expressão, os direitos fundamentais e os limites do próprio poder?

Do ponto de vista filosófico, isso nos remete a uma antiga questão: para que existe a política? Desde Aristóteles, uma das respostas fundamentais é que a comunidade política não existe simplesmente para permitir que indivíduos ou grupos conquistem o poder, mas para tornar possível alguma forma de vida comum orientada ao bem. Em linguagem contemporânea, poderíamos falar em bem comum: aquelas condições sociais, políticas, econômicas e institucionais que possibilitam uma vida digna não apenas para mim e para aqueles que pensam como eu, mas também para aqueles de quem discordo.

A política importa profundamente porque nela estão em jogo a dignidade humana, a justiça, a liberdade, a paz e as condições concretas da existência de milhões de pessoas. Mas ela jamais deveria transformar-se em religião. Um candidato não é um messias, um partido não é uma igreja, uma ideologia não é um evangelho, e uma eleição não deveria converter nossos adversários políticos em inimigos morais.

A democracia não exige que pensemos todos da mesma maneira. Exige algo mais difícil: que aprendamos a discordar sem transformar o outro em inimigo e a escolher sem transformar aquele que escolhemos em ídolo. A maturidade política começa justamente aí: quando somos capazes de defender convicções sem entregar a ninguém o direito de pensar em nosso lugar. A democracia nos concede o direito de escolher, mas não nos dispensa da responsabilidade de pensar antes de escolher.

 

Luiz Sureki, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE

Foto: Divulgação

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