Hóspedes de Deus

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Padre César Andrade Alves SJ

Aquela época estava uma roda-viva. Maria Eduarda tinha que cuidar de muita coisa: família, trabalho integral de professora — que amava —, coordenação da Comunidade São Miguel — que era sua vida —, meditação diária, texto semanal no Collab do Instagram de sua equipe, contas em dia, atividade física. E isso era só parte do que a jovem tinha que dar conta.

— E tem gente que faz mais do que eu — Maria Eduarda dizia para si. — Não é à toa que as amigas reclamam de cansaço, excesso, fragmentação.

— Elas atuam de um jeito em casa, de outro no trabalho, de outro aqui, de outro ali. Parecem confusas, cheias de papéis, nem sempre sabem o que querem.

Maria Eduarda havia lido há tempos Vida em Fragmentos de Bauman. — O polonês era atilado — dizia a jovem. — Ele bem apontou que anda minguada a atenção com as outras pessoas. Eu lido com muita gente quase todos os dias, se eu não der a atenção certa a cada um, a coisa vai desandar.

— Hospitalidade é a chave — continuava a jovem pensando consigo. — Uma coisa é ser passageira, peregrina nesta vida, outra bem diferente é estar aqui errando sem rumo. A hospitalidade, dar a atenção certa a cada um, me faz pisar com os pés no chão.

Maria Eduarda gostava de lembrar daquele episódio em que Jesus mostrava que é certo possuirmos muitos interesses, mas que o maior deles deve ser Deus. “De quem é a figura e a inscrição nesta moeda?” (Mt 22,20). — Ele chamou a atenção para o nome e a figura do imperador romano na moeda que eles usavam todos os dias — via a jovem.

— É como se Jesus chamasse a atenção deles para o fato de que se valiam todos os dias daquela coisa que tinha sido mandada fazer pelo imperador, a usavam nos negócios deles como um instrumento para ganhar o pão de cada dia. Desfrutavam das vantagens daquele dinheiro. Por isso deviam pagar o imposto para o imperador. Mas o foco maior era o que vinha em seguida. “Dar a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21). Aqui está o ponto — pensava Maria Eduarda.

Ela estava prestando mais atenção ao início dessa parte, “dar a Deus”.

— Dar é entregar sem pedir nada em troca, refletia a jovem. — Dar a Deus é dar às pessoas. Doar a vida para Deus, dar tempo aos outros, ceder minhas forças, meus recursos, para fazer o bem aos demais. Dar a Deus é hospitalidade, dar a atenção certa a cada um. Isso unifica as muitas coisas que faço.

Na caminhada que fazia no final da tarde no parque, o assunto voltou a ocupar o pensamento de Maria Eduarda. Ela acenou de longe para a amiga Andréia e o marido, que também faziam caminhada. Passando pela barragem, parou para admirar aquele volume todo represado, as árvores às margens como que se debruçando no espelho d’água, os animaizinhos dependendo daquele espaço para viver.

Ela abriu os olhos para o final da frase, “o que é de Deus”.

— Mas todo o universo é de Deus, viu Maria Eduarda. — Esse é o fundamento, toda a criação é de Deus, ele é que nos hospeda, somos todos hóspedes de Deus. O mundo não é nosso, mas de Deus. Que hospitalidade imensa é essa de Deus — admirou-se a jovem. — Estarmos aqui, neste mundo, nesta vida, que grande concessão de Deus, por isso somos seus hóspedes. Isso é muito mais sério que ingressar numa tenda, num templo, num prédio de igreja.

A jovem prosseguiu refletindo. — Hospitalidade continua sendo a chave, dar a atenção certa a cada um, doar a força e os recursos para fazer o bem aos outros. Mas ela é a chave porque a primeira hospitalidade é de Deus. Ele é que primeiro nos hospeda na criação dele. É assim que sou passageira, peregrina nesta vida.

Padre César Andrade Alves SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

15/10/2026

Foto: Magnific
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