Luiz Sureki, SJ
Não é raro ouvirmos a expressão “crítica construtiva”. A própria formulação já revela algo curioso: se é preciso acrescentar o adjetivo “construtiva”, é porque, no uso comum, a crítica é imediatamente associada a algo negativo. Ser criticado não soa, à primeira vista, como oportunidade, mas como ameaça. Fere, expõe, desestabiliza. Por isso, muitas pessoas preferem o conselho: ele parece mais leve, mais positivo, mais facilmente acolhido.
Entre aconselhar e criticar parece, de fato, haver uma grande diferença. O conselho orienta, sugere caminhos, indica possibilidades. A crítica, ao contrário, parece incidir sobre o que não está bem, sobre o que precisa ser revisto, corrigido, repensado. O conselho aponta para um possível bem; a crítica toca uma falha real ou percebida. Não surpreende, portanto, que o primeiro seja mais bem recebido do que a segunda. E, no entanto, essa oposição pode ser enganosa.
A crítica, em seu sentido mais próprio, não é destruição, mas discernimento. Criticar é distinguir, separar, avaliar. Trata-se de um gesto intelectual e existencial que busca compreender o que algo é, quais são seus limites, suas condições e suas possibilidades. Nesse sentido, a crítica não é, em sua origem, um ataque, mas uma forma de cuidado com a verdade. Quando o filósofo Immanuel Kant fala em Crítica da Razão Pura, ele não pretende desqualificar a razão, mas examiná-la em seus próprios limites. Criticar, aqui, é investigar, esclarecer, tornar consciente aquilo que, de outro modo, permaneceria implícito. A crítica não diminui a razão, ela a torna mais lúcida.
O problema, portanto, está menos na crítica em si e mais na forma como a recebemos e a exercemos. Quando a crítica é feita sem cuidado, sem escuta, sem intenção de compreender, ela pode se tornar destrutiva. Reduz o outro a um erro, fixa-o numa falha, impede o diálogo. Nesse caso, a crítica deixa de ser discernimento e se torna julgamento apressado. Não constrói, apenas fere.
Mas também é verdade o inverso: quando evitamos toda crítica, perdemos a possibilidade de crescimento. Sem crítica, não há revisão, não há aprofundamento, não há maturação. A vida humana não se desenvolve apenas por afirmações positivas, mas também pela capacidade de reconhecer limites, corrigir caminhos e repensar escolhas.
Nesse sentido, é necessário superar a oposição simplista entre crítica e conselho. Um conselho sem verdade pode ser apenas condescendência. Uma crítica bem-feita pode ser, no fundo, a forma mais exigente de cuidado. O que torna a crítica construtiva não é o fato de ser “suave”, mas de ser justa, situada e orientada ao bem. Ela exige três condições: verdade, intenção e modo, ou seja, dizer algo verdadeiro, querer o bem do outro e expressar-se de modo que o outro possa acolher. Quando esses elementos se articulam, a crítica deixa de ser ameaça e se torna possibilidade.
Isso exige também algo de quem a recebe. Nem toda crítica será perfeita, nem toda crítica será bem formulada. Mas a recusa imediata de toda crítica pode nos aprisionar em nós mesmos. Há uma maturidade que consiste em discernir o que, numa crítica, pode ser verdadeiro, mesmo quando ela nos incomoda. No fundo, a crítica nos confronta com algo difícil: a possibilidade de não estarmos inteiramente certos. E essa possibilidade é, ao mesmo tempo, desconfortável e fecunda. O caso é que a crítica é um risco necessário. Sem ela, permanecemos na superfície de nós mesmos; com ela, corremos o risco de sermos questionados, mas também abrimos a possibilidade de nos tornarmos mais verdadeiros.
Nesse sentido, a tradição cristã oferece uma intuição decisiva ao falar da “correção fraterna”: não se trata de julgar o outro, mas de ajudá-lo a crescer na verdade. A verdade, porém, não se impõe pela dureza, mas se comunica na caridade. Por isso, criticar, à luz dessa tradição, não é exercer poder sobre o outro, mas assumir responsabilidade por ele, e, ao mesmo tempo, deixar-se também interpelar. Quando enraizada na verdade e na caridade, a crítica deixa de ser oposição e se torna uma forma exigente de comunhão.
Nem toda crítica que nos fere nos destrói, assim como nem toda palavra que nos agrada nos faz crescer. O que importa não é apenas como uma crítica nos atinge, mas se ela nos ajuda a enxergar melhor ou nos impede de aprender.
Luiz Sureki, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE
15/10/2026
