Marília Murta de Almeida
A filosofia contemporânea, pelo menos no Brasil, parece aprisionada em um conflito entre continuar no seguimento da tradição clássica e dar a guinada em direção a estudos chamados contextuais. Assim, defende-se ou critica-se a inclusão de autores e temas não canônicos no edifício da filosofia. Grupos que pretendem tratar de questões específicas como racismo, misoginia, direitos das pessoas LGBTQIAPN+ lutam por espaço e afirmam a pertinência de suas reflexões; setores contrários os chamam de identitários, denominação que contém em si a crítica que considera que essas reflexões seriam sectárias e por isso geradoras de cisões. Tudo isso em um campo que almeja a universalidade, pois afinal a razão filosófica deveria nos encaminhar à compreensão universalizante da realidade, ou seja, à possibilidade de compreendermos sem nos perder na infinitude da particularidade.
Proponho aqui pensarmos sobre isso a partir de um outro horizonte. O teólogo bíblico Paul Beauchamp, em seu A narrativa, a letra, o corpo, fala sobre o que entende como a universalidade da Sabedoria. Segundo ele, a Sabedoria é a figura bíblica sempre presente no livro e nas histórias contadas pelo livro – entendendo aqui o livro como o conjunto de escritos bíblicos. Como uma acompanhante da criação, ela está presente para todas as pessoas, em todos os lugares e todos os tempos. Para ser universal, ou seja, para que consiga atingir a todos, ela precisa falar todas as línguas. Ou seja, a universalidade seria alcançada pela infinita plasticidade de uma figura capaz de se desdobrar e entrar nas minúcias da vida comum e na diversidade das possibilidades humanas. Podemos ler essa ideia nos versos finais do Livro da Sabedoria:
Sim, em todas as coisas, Senhor,
exaltaste e glorificaste teu povo, e
não deixaste jamais de assisti-lo, a
todo momento e em todo lugar (Sb 19,22).
A Sabedoria, acompanhante da criação, acompanha o Senhor assistindo o povo, sempre e em toda parte. Fala de modos diversos que acompanham os modos diversos de vida de todo o povo.
Voltando ao problema filosófico, seria a universalidade pretendida pela filosofia semelhante a essa noção apresentada por Beauchamp? Como exemplo, pensemos a seguinte questão: o saber filosófico, ao pretender falar sobre o ser humano recorrendo à noção de sujeito universal, é capaz de tocar todas as pessoas, sempre e em toda parte? Os filósofos contextuais dizem que não, que precisamos escutar as vozes diversas. Os clássicos consideram que, se ouvimos as particularidades, perdemos de vista o horizonte propriamente filosófico. Esse me parece ser o impasse atual. Como fazer a voz filosófica ter o alcance da Sabedoria bíblica e, sabendo falar todas as línguas, alcançar a pluralidade da experiência humana?
Clarice Lispector, no livro Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, usa deliberadamente a palavra mulher no sentido de ser humano:
Aí estava o mar, a mais ininteligível das existências não-humanas. E ali estava a mulher, de pé, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fizera um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornara-se o mais ininteligível dos seres onde circulava sangue. Ela e o mar.
A experiência feminina é tomada como representativa da experiência humana, o que nos põe a pensar na possibilidade de que toda particularidade possa ser percebida em sentido universalizante, num movimento permanente que permite com que particularidades diversas ocupem o lugar do universal, circunstancialmente. Como a Sabedoria que, sempre e em toda parte, fala línguas diversas para comunicar uma mesma palavra. O que é dito a cada vez não é, em si mesmo, universal, mas universalizável porque pertencente à dança da Sabedoria.
Assim, saberes contextuais, nascidos em circunstâncias específicas, não dizem somente sobre os grupos que os produzem. Dizem sobre o humano. Todavia, a tentativa de homogeneizar os discursos numa linguagem filosófica universalizante, quebra a relação com os grupos que produzem os saberes contextuais. Assim, a frase de Antonio Bispo dos Santos, o Nego Bispo (foto), “não sou humano, sou quilombola” deve ser entendida sob chave paradoxal. Ele abertamente declara à cultura ocidental que não se reconhece no que temos construído conceitualmente como o humano. Mas o que ele diz de si mesmo, o quilombola, pode ser lido por mim como se a mim se referisse, porque, afinal, somos o mesmo ser que tem a particularidade de ser quilombola como uma de suas possibilidades. Entretanto, parece que nada podemos dizer sobre esse ser que tem possibilidades (quase) infinitas de particularizar-se, sem que seja a partir, e na consideração, de uma dessas particularidades.
Marília Murta de Almeida é professora e pesquisadora no departamento de Filosofia da FAJE
15/10/2026

Antônio Bispo dos Santos. Foto: Guilherme Fagundes – Revista Interdisciplinar – Periódicos ufmg.br